Saiba como foi a primeira caminhada de Santiago de Compostela em Florianópolis

Avaliação do Usuário
PiorMelhor 

floripa santiago

Uma parte usava botas de trilhas, bastões e ostentava orgulhosa apetrechos do longo Caminho de Santiago de Compostela, importante rota de peregrinação cristã na Espanha. Outra, usava tênis de corrida (alguns mais corajosos estavam de chinelos), improvisava vassouras como cajados e pouco sabia sobre o percurso na Europa. Essa mistura resultou em um grupo de 500 pessoas que na última quinta-feira fez o Caminho Brasileiro em Florianópolis pela primeira vez, trecho que a partir de agora complementa a rota oficial.
Com perfis tão distintos, o objetivo era comum: concluir os 21 quilômetros entre os bairros Canasvieiras e Ingleses, no Norte da Ilha de Santa Catarina. Desde a partida na Igreja Nossa Senhora de Guadalupe, o caminho escancarou sua principal característica: é democrático, aberto a qualquer um. O único pré-requisito é ter preparo físico para enfrentar algumas subidas íngremes e superar trechos que exigem até o apoio de cordas para evitar escorregões. A quilometragem se soma ao sol, trilhas em meio à mata, caminhadas na areia e, como não poderia deixar de ser em Florianópolis, paisagens que compensam o esforço.
Um dos ditados mais conhecidos entre os peregrinos é que o caminho de Santiago se começa sozinho, mas nunca se termina só. E foi isso o que se viu na caminhada inaugural da Capital. Embora fosse uma multidão, cada um chegou ali por um motivo. O aposentado Valmor dos Santos, 66 anos, que nasceu em Canasvieiras, nunca tinha escutado falar da peregrinação. Assistiu a uma matéria na televisão, resolveu fazer para conhecer a trilha e ter uma atividade diferente no bairro em que mora. Para Lisandra Aliprandini, 30, o significado era mais introspectivo. Emocionada, ela conta que fez o trajeto para encerrar um ciclo, "deixar o passado para trás e começar um novo caminho".
Durante o trajeto, era comum a troca de experiências. Muitos compartilhavam a rota que fizeram na Espanha. Em cada uma das quatro igrejas do trajeto, os peregrinos paravam para carimbar as credenciais e comprovar a conclusão do trecho. O aposentado Brasílio Ricardo da Silva, 70, fez o trajeto cinco vezes e já planeja a próxima viagem à Europa.– Enquanto tiver pé e cabeça vou continuar a fazer o caminho. É uma energia que tem lá que faz a gente voltar, independente da religião.
O mais novo do grupo era o pequeno Lorenzo, nove anos, que acompanhava os pais Aluísio e Carolina Selhorst. Acostumado a longas caminhadas, o menino de Blumenau conta empolgado dos trajetos feitos em outras cidades, como Urubici. Um dia deve seguir os passos dos pais, que também já fizeram a rota histórica na Espanha e planejam refazer em breve. Todos impõem seu ritmo, se ajudam nos trechos mais difíceis e depois de um tempo seguem em silêncio. Após concluir o trajeto, o aposentado Nelson Honjo, 76, que veio de Curitiba para fazer os 21 quilômetros e que já percorreu 11 vezes o Caminho de Santiago, resume porque a rota é tão especial:
— No caminho todos são iguais. Você pode ser doutor, uma pessoa importante, mas para todos dá cansaço, dá cãibra. E isso nivela o ego das pessoas.
Depois de cerca de seis horas de caminhada, independente de usar um bastão ou vassoura, o cansaço dá espaço ao agradecimento. E muitos, mesmo aqueles que sequer conheciam a rota de peregrinação, já planejam os próximos carimbos, dessa vez na Espanha.
Tire suas dúvidas
Por que um caminho de Santiago em Florianópolis
O Caminho de Santiago de Compostela é uma das mais importantes rotas de peregrinação cristã e tem como destino a Catedral de Santiago de Compostela. Para conseguir o certificado, é exigido percorrer, no mínimo, 100 quilômetros a pé ou a cavalo, ou então 200 de bicicleta, até o ponto final na Espanha, onde estão os restos mortais do apóstolo São Tiago. No final de 2016, foi aberto para que outros lugares do mundo realizassem um trecho para completar o restante entre La Coruña e Santiago. Assim, em Florianópolis foi criado o, segundo a associação catarinense e os idealizadores, primeiro trecho integrado à rota oficial nas Américas.
Quando fazer a caminhada
O caminho é público e pode ser percorrido por qualquer pessoa em qualquer época. Para ser reconhecido para obtenção da Compostela (certificado do caminho na Espanha), o peregrino deverá obter os carimbos junto às quatro igrejas integrantes do trajeto numa credencial oficial. As igrejas funcionam em horário comercial durante a semana. Para adquirir a credencial, entrar em contato com a associação catarinense pelo email O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. . O preço é R$ 15.
Grau de dificuldade: de média para alta.
O que usar: é recomendável o uso de botas de trilha, roupas confortáveis, boné ou chapeú e uma pequena mochila.
O que levar: água e lanche e frutas para consumo durante a caminhada, além de protetor solar e repelente.
Sinalização: provisória. Em alguns pontos as setas amarelas estão pintadas na rua, rancho de pescador e há fitas amarelas amarradas em árvores. Importante levar as orientações disponíveis nosite, pois é fácil de perder do caminho oficial.


Confira o trajeto:
floripa santiago 2


Por dentro do trajeto


O que é o Caminho de Santiago de Compostela
A história oficial relata que em 813, um pastor de nome Pelaio teria sido guiado por uma milagrosa "chuva de estrelas" que indicava a localização de um túmulo, que depois foi anunciado como de São Tiago Maior, apóstolo de Jesus e irmão de São João Evangelista. Nos anos seguintes, o caminho se tornou uma importante rota de peregrinação cristã e possui diversas rotas, algumas saindo da França e Portugal. São pelo menos 12 trajetos oficiais. O chamado caminho francês, um dos mais populares, conta com 775 quilômetros. Para conseguir o certificado, é exigido percorrer, no mínimo, 100 quilômetros a pé ou a cavalo, ou então 200 de bicicleta, até a Catedral de Santiago de Compostela, na Espanha, onde estão os restos mortais do apóstolo. Em 2016, a rota, que é Patrimônio da Humanidade, recebeu 277,8 mil peregrinos.
Com o tempo, Compostela desenvolveu as próprias tradições, como o da concha (chamada de Vieira) e a seta amarela, que ajudam a orientar os peregrinos durante o trajeto. Outro item é a credencial do peregrino que serve para receber os carimbos em cada local que o participante passa. No final do trajeto, na Catedral de Santiago de Compostela, o viajante recebe o certificado oficial do peregrino.


Diário Catarinense

Adicionar comentário


Código de segurança
Atualizar