Sai pra lá, Sísifo

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 Por Gaudêncio Torquato - 

A vida é um eterno recomeço. Fosse escolher a lenda mitológica que mais se assemelha à sua vida, provavelmente o povo brasileiro colocaria a história de Sísifo entre as preferidas. Sísifo conseguiu se livrar da morte duas vezes, sempre blefando. Não cumpria a palavra empenhada, até que Tânatos veio buscá-lo em definitivo. Como castigo, os deuses o condenam impiedosamente a rolar montanha acima um grande bloco de pedra. Quase chegando ao cume, o bloco desaba montanha abaixo. A maldição de Sísifo é recomeçar tudo de novo, eternamente.

O povo brasileiro se sente em eterno recomeço. Quando acha que as coisas estão se normalizando, aparece mais um desastre. Nosso habitante se vê numa ilha ameaçada por escândalos, corrupção desbragada, favorecimentos, ausência de critérios racionais, impostos, feudos, deterioração dos serviços públicos, falta de continuidade nas administrações.

O sistema de vasos comunicantes acaba impregnando a alma nacional, inviabilizando aquele espírito público, fonte do fervor pátrio, que Alexis de Tocqueville constatou em A Democracia na América (1835), encantado com os valores da alma norte-americana: “existe um amor à pátria que tem a sua fonte principal naquele sentimento irrefletido, desinteressado e indefinível que liga o coração do homem aos lugares onde nasceu. Confunde-se esse amor instintivo com o gosto pelos costumes antigos, com o respeito aos mais velhos e a lembrança do passado; aqueles que o experimentam estimam o seu país com o amor que se tem à casa paterna”.

Que amor à Pátria pode existir em espíritos tomados pelo pavor, pela violência, pelo estado de guerra civil do Rio de Janeiro, pelos assaltos nas capitais e cidades do Norte e Nordeste, pela marginalidade incorporando bandos de menores? Que espírito público pode vingar em nossa América Latina quando na vizinha Venezuela as multidões não têm mais o que comer e fogem aos montes para nosso país? O que diria desse Nicolas Maduro o grande libertador Simon Bolívar, que retratou o sofrido continente: “não há boa fé na América, nem entre os homens nem entre as nações; os tratados são papéis, as constituições não passam de livros, as eleições são batalhas, a liberdade é anarquia e a vida um tormento. A única coisa que se pode fazer na América é emigrar”.

O povo quer sentir estabilidade e segurança nas ruas e no emprego. Estabilidade que permita divisar com nitidez a linha do horizonte. Há 13 milhões de desempregados. Como divisar clareza a apenas 5 meses da eleição, sem sinais do que pode ocorrer?

A chama telúrica, que liga as pessoas ao lugar em que nasceram, está quase se apagando. Daqui a um mês teremos a catarse coletiva da Copa do Mundo. E se perdemos? Serão dias de mais amargura. Vamos continuar a ver governos de todas as instâncias usando míseros tostões para administrar massas falidas.

Rezemos para afastar a maldição de Sísifo.

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP, consultor político e de comunicação - Twitter@gaudtorquato>

O sorriso do gato

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por Werney Serafini

O inspirado Rubem Alves¹ não gostava de gatos. Dizia não ter afinidade com os bichanos, não confiava neles.

Mudou de ideia depois que a filha lhe deu de presente um gato. Por força das circunstâncias, passaram a conviver. Conta que não demorou muito para ficarem amigos, ele e o gato. A partir de então, passou a contar histórias sobre gatos.

Contava que no Egito dos Faraós, os gatos eram considerados deuses, crença cujos resquícios, perduram até os nossos dias. Mulher bonita, por exemplo, ainda é qualificada como “deusa” ou “gata”.

Um de nome “Oscar”, possuía habilidades médicas. Vivia em uma clínica para pessoas em estado terminal. Diariamente visitava os internos leito por leito. Subia na cama, cheirava o ar e diagnosticava: se o óbito não fosse ocorrer naquele dia, descia e passava para outro leito, repetindo o procedimento. Percebendo a proximidade da morte, aninhava-se junto ao moribundo e a enfermeira de pronto ia avisando os parentes.

Outro de nome “Gulliver” gostava alucinadamente de cenouras. Cenouras, sim. Comida de coelhos. Incomum aos gatos cujo cardápio eram ratos, passarinhos, peixes e insetos. “Gulliver”, ao contrário, gostava mesmo era de cenouras. Hoje, gatos comem raçoes peletizadas ou enlatadas. Praticidades da vida moderna.

Inusitada, porém, é a história, verídica segundo ele, do gato que sorria. Gato sorridente sabia de um, personagem no livro “Alice no País das Maravilhas”, uma história de ficção. Mas, o gato de que falava era todo sorriso. Uma amiga, com longa experiência e convivência com gatos, disse-lhe que os gatos sorriem com os olhos. Não mostram os dentes como os humanos e nem balançam o rabo como os cachorros. Os gatos sorriem fechando lentamente as pálpebras, até que fique apenas uma pequena fresta.

A amiga do Rubem sabia das coisas. História ou não, gatos sorriem sim e exatamente dessa maneira. Sei, porque conheci um gato que, quando feliz sorria. “Zigudo”, seu nome, era um cara, ou melhor, um gato especial. Único, diferente até no nome. Não perguntem o significado, porque não sei e tampouco imagino. Tão especial era esse gato que a sua dona, se é que gatos tem donos, tatuou a imagem dele no antebraço, não recordo, se no esquerdo ou direito.

“Zigudo” era um belo animal, pelagem branca, cauda preta, formava uma figura solene. Independente, como todo felino, era muito inteligente. Garboso, tinha porte de fidalgo.

Convivemos pouco tempo, mas suficiente para identificarmos afetos e preferencias comuns. Não esqueço, uma noite fria no inverno, em que Zigudo e eu, na proximidade da lareira, conversávamos na linguagem do silêncio. Seguidamente, ia fechando as pálpebras até ficar uma pequena fresta, Zigudo sorria. E eu retribuía, sorrindo também, cada qual ao seu jeito, curtindo prazerosamente aqueles preciosos momentos. Inesquecíveis recordações ...

Itapoá (outono), abril de 2018.

As ondas eleitorais

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Por Gaudêncio Torquato - O campo eleitoral se movimenta por ondas. Que circulam de cima para baixo e de baixo para cima, absorvendo climas, circunstâncias, discursos, canalizando esses inputs na direção de potenciais perfis, principalmente candidatos a presidente, razão pela qual figurantes estaduais não ganham tanta projeção.

As ondas ganham o empuxo do momento, exibindo as demandas imediatas da sociedade. Estas, por sua vez, reúnem anseios, expectativas, frustrações com governantes e suas políticas, e contextos que levam em conta heranças do passado e esperanças em relação ao futuro.

No caso do Brasil, a leitura exibe um país que afundou na maior recessão econômica da história; ascensão de novo governante sob a decisão congressual de afastar a presidente; reformas – teto de gastos, trabalho, educação, terceirização etc - não suficientemente explicadas e entendidas pela sociedade; a maior investigação de corrupção em todos os tempos, envolvendo altos empresários, políticos e governantes; prisão do líder mais populista do país; tentativa de um partido de tornar vítima seu líder maior e assim retornar ao poder, após 13 anos de comando do país; indignação social contra a classe política; volta da polarização do discurso “nós e eles”; dispersão do campo político; falência de Estados e Municípios; extrema violência nos quatro cantos do país; e precarização dos serviços públicos.

Essa é a moldura por trás de quem se apresenta como pré-candidato. Sob a influência de traços do cenário, o eleitor faz suas primeiras escolhas. De um lado, um partido organizado, militância aguerrida, que se proclama responsável pelo “melhor governo que o Brasil já teve em todos os tempos”, esquecendo o maior rombo do Tesouro por ele praticado. O “Salvador da Pátria”, mesmo preso, continua sendo elevado aos píncaros da glória. O que explica sua margem histórica em torno de 30% nas pesquisas. De outro lado, emerge o contraponto, perfil de extrema direita, ex-militar com o discurso da ordem contra a bagunça, sob os lemas de “bandido bom é bandido morto”, “soldado bom é aquele que mata”.

Jair Bolsonaro é empurrado para o alto pela temperatura ambiental, enquanto Lula continua impulsionado pela onda petista, apesar das águas que levam o petismo para a profundeza oceânica. Eles sustentariam seus índices até outubro? Lula está praticamente fora do jogo. Mesmo solto, deverá entrar na ficha-suja. O substituto não levaria seus votos. Bolsonaro representa indignação, mas não o voto mais consciente da maior parcela da classe média. Terá poucos segundos de TV.

Outras ondas carregam Joaquim Barbosa, Marina Silva e Ciro Gomes. Assim, é razoável supor que outros perfis poderão ascender na escada eleitoral. A decisão do eleitor muda segundo as circunstâncias. Hoje, os ventos do outono sopram para uns. Aguardemos a ventania do inverno e o sopro do verão.

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP, consultor político e de comunicação - Twitter@gaudtorquato>

Governando com a Real Politik

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GAUDÊNCIO TORQUATO


Pergunta recorrente: se Joaquim Barbosa (PSB), Marina Silva (Rede) ou mesmo Ciro Gomes (PDT) viessem a sentar na cadeira presidencial, teriam condições de governar? A dúvida leva em consideração a índole de cada um.

Joaquim é considerado um perfil destemperado, com a ética de juiz pairando sobre o balcão de negócios da política. Marina, com sua aparência de freira (imagem aqui posta de maneira positiva), transmite a impressão de que está mais afinada com as coisas divinas do que com o inferno da política. Ciro, com sua verve beligerante, demonstra ser um ente seletivo, rejeitando parlamentares e partidos envolvidos na Lava Jato.

Essas projeções levantam a hipótese de que teriam muitas dificuldades de romper o cordão vigente no Congresso, produzido pelo fisiologismo. A real politik ali praticada retrata a representação política, o “presidencialismo franciscano”, pelo qual o mandatário-mor só consegue governar caso ceda nacos da estrutura administrativa aos partidos e seus caciques. É dando que se recebe.

Sem esse troca-troca, governantes enfrentarão obstáculos, não sendo improvável nem a lâmina de um impeachment. Fernando Collor, sem articulação no Congresso, e Dilma Rousseff, com sua ojeriza às pressões, tiveram seus ciclos amputados.

Em outras palavras, não se governa o Brasil sem a participação dos políticos, sinalizando que o governante deve desenvolver habilidades para formar maiorias congressuais. Sem isso, qualquer governo tende a fracassar, pois as políticas públicas embutidas em projetos de lei não passarão.

O leque de questões mostra a governabilidade condicionada à sustentação política. Se o governante se rebelar, o que poderá fazer? Submeter-se ao troco dos congressistas, gerando tensões entre os Poderes; renunciar ao cargo por indisposição de fazer política segundo nossa cultura; procurar apoio popular e pressionar o Congresso. Ou, com apoio militar, dar um golpe, fechar o Congresso e ressuscitar a ditadura. Ora, essas são opções inexequíveis ou incompatíveis com o estágio civilizatório do país.

Alternativa que soa como bom senso é a de adaptação do governante à música tocada pela política. O que exigirá flexibilidade para dançar samba ou valsa, a depender das circunstâncias. Sem humildade para entrar nesse jogo, Joaquim, Marina ou Ciro, caso cheguem lá, se transformarão em pavio de uma bomba a explodir em seu colo. Ou poderão usar a força do governante para estabelecer acertos e ajustes. Por exemplo: em vez de indicar caciques para cargos centrais da estrutura, acertariam com a indicação de perfis técnicos na tentativa de implantar a meritocracia.

Uma reforma política profunda levaria a um número razoável de partidos – 7, 8 ou 9. Assim teríamos os meios para uma administração compartilhada, criteriosa e justa. Os governos receberiam menor carga de pressão e em boas condições de governabilidade.

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP, consultor político e de comunicação - Twitter@gaudtorquato>

A fadiga democrática

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A democracia não tem cumprido suas tarefas básicas 

 

Gaudêncio Torquato

 

O mundo padece de síndrome da fadiga democrática, observa o escritor, jornalista e poeta belga David Van Reybrouck, para quem as Nações atravessam um momento de saturação em seus sistemas democráticos. Alguns sintomas: apatia do eleitor, abstenção às urnas, instabilidade eleitoral, hemorragia dos partidos, impotência das administrações, penúria no recrutamento, desejo compulsivo de aparecer, febre eleitoral crônica, estresse midiático extenuante, desconfiança, indiferença e outras mazelas.

Arremata o belga: “a democracia tem um problema sério de legitimidade quando os eleitores não dão mais importância à coisa fundamental, o voto”. A análise está expressa no interessante livro Contra as Eleições, traduzido agora no Brasil. O título sinaliza para a hipótese de que, nesses tempos de populismos baseados no medo e na desconfiança das elites, é o caso de se abolir o processo eleitoral e voltar ao que ocorria há 3.000 anos, quando inexistiam eleições e os cargos se repartiam por meio de uma combinação de sorteios e ações voluntárias. Ou seja, quando a política era missão e não profissão.

O fato é que a democracia, como já escreveu Norberto Bobbio, o grande cientista social e filósofo italiano, não tem cumprido suas tarefas básicas, como acesso de justiça para todos, educação para a cidadania, combate ao poder invisível, transparência nas ações de seus protagonistas.

Em seu Futuro da Democracia, Bobbio mostra os caminhos a percorrer pela democracia na direção do amanhã, caracterizando o insucesso do Estado no combate às pragas da modernidade, a partir do poder invisível incrustado na administração pública. O poder visível, formal, está perdendo a batalha. Apesar dos aparatos tecnológicos que ancoram o Estado – Tribunais de Contas, Ministério Público, Polícia Federal, Tribunais Eleitorais e outras instâncias do Judiciário – a corrupção grassa a torto e a direito.

Para termos uma ideia dessa crise, podemos inserir no debate outros eixos, como os de Roger-Gérard Scwartzenberg: arrefecimento das ideologias, declínio dos partidos, desmotivação das bases, perda de poder dos Parlamentos, refluxo das oposições.

A crítica evidencia o fato de que as eleições perpetuam a continuidade das elites no controle dos Poderes. A eleição de um governante pelo voto popular não seria suficiente para lhe dar legitimidade, pois será engolido pela ineficiência do Estado. Mas que outra solução haveria? Sortear os cargos entre o povo? Quem garante que essa modalidade não levaria ao caos?

Este ano teremos um pleito competitivo e de discurso contundente. Como fazer para darmos um passo mais avançado em nossa democracia de forma a garantir o compromisso da política junto ao povo? Deixo que o eleitor reflita sobre essa inquietante pergunta.

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP, consultor político e de comunicação - Twitter@gaudtorquato>

A crônica da barbárie

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A face de um Brasil violento se escancara

 

Vivemos tempos bárbaros. A face de um Brasil violento se escancara, a partir do mais bonito cartão postal brasileiro, o Rio de Janeiro, onde jorra sangue na guerra entre as forças de segurança e a bandidagem. Manchetes sobre a tragédia carioca ganharam o mundo com o crime da vereadora Marielle Franco, do PSOL, e de seu motorista Anderson, vítimas de milícias.

Os números da violência espantam: mais de 60 mil assassinatos por ano no Brasil, o que supera em quase 15 mil os da Europa inteira, Estados Unidos e China, esta com uma população quase cinco vezes maior. Ou seja, em apenas uma hora, 7 cidadãos tombam vítimas da bandidagem.

Com a repressão no Sudeste, as gangues fogem para outras regiões, particularmente o Nordeste, que respira um clima de medo. No contraponto, policiais com proventos atrasados e em greve, equipamentos sucateados, ruas sem segurança e violência se espraiando.

O total de vítimas fatais é maior que o das guerras modernas. Deve-se considerar também o empobrecimento do país. O rombo da Previdência, por exemplo, tem a ver com o cano assassino que mata, aleija multidões, alarga a fila nos hospitais, multiplica as pensões de viúvas, devastando parcela ponderável do PIB, dinheiro que poderia ser investido em hospitais, escolas, casas, transportes e agricultura.

Mas a barbárie possui outras facetas, como a dos privilégios. Em tempos de escassez, é inadmissível que categorias profissionais defendam com unhas e dentes vantagens incorporadas aos seus salários, alargando a distância entre os milhões de brasileiros que vivem com um salário mínimo e as castas que juntam mensalmente 30, 40, 50 mil ou mais de proventos, somando subvenções para auxílio-moradia, auxílio-paletó, auxílio-transporte, auxílio-comida, auxílio-livro e etc.

A barbaridade sobe os pedestais. Veja-se o que ocorreu no altar da nossa mais elevada Corte Judicial nesta quinta-feira, durante o julgamento do Habeas Corpus encaminhado pela defesa do ex-presidente Lula. Mais de quatro horas de exposições e debates, porém ainda não o mérito. Decide-se por maioria pelo acolhimento e, por solicitação do advogado de defesa, acolhe-se uma liminar para que Lula não possa ser preso até 4 de abril, data de julgamento do HC. Blindagem contra eventual posição do TFR-4, a ser tomada dia 26 de março, quando deverá julgar os embargos de declaração interpostos pela defesa de lula. Se não forem aceitos, presume-se que o corpo de juízes mande prender Lula, já condenado.

A barbaridade vem agora. Um ministro do STF avisa que irá viajar. A sessão poderia ter continuado, mas foi suspensa por cansaço de Suas Excelências. Na Semana Santa terão um tempinho de lazer. O HC tem prioridade ou as conveniências pessoais prevalecem? A imagem do STF, já desgastada por querelas pessoais, acaba esmaecida.

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP, consultor político e de comunicação - Twitter@gaudtorquato>