Tentando ver além das nuvens

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por Gaudêncio Torquato.

 

Nuvens plúmbeas, pesadas, impedem que se descubra se haverá algum raio de sol brilhando nos horizontes do amanhã. Quando este amanhã está muito distante, lá pela primavera de 2018, querer enxergar o ambiente será um exercício de adivinhação. O máximo que se pode garantir é que rebentos da natureza, como os ipês amarelo e roxo de São Paulo, darão um colorido à metrópole, que chamará a atenção ainda pela inclinação do eleitorado da capital e do Estado (9 milhões e 33 milhões, respectivamente) a votar nos candidatos que se submeterão às urnas no dia 5 de outubro.

Há muita fumaça a cobrir os céus nos próximos meses, resultantes de fogueiras acesas no terreno da política, algumas com capacidade de queimar perfis, deixando-os fora do pleito, como é possível inferir nos casos de Luiz Inácio Lula da Silva e Aécio Neves. Hoje, é forte a hipótese de que estariam fora do jogo eleitoral por estarem envolvidos na Operação Lava Jato. Como o Brasil é o país do imponderável, é possível que Lula drible as condenações que pesarão sobre ele e volte ao ringue. Difícil, mas não impossível. Tentemos, sob densa teia de coisas imponderáveis, fazer algumas projeções, contando com o acervo de informações de que se dispõe e que nos permite fazer um exercício de interpretação.

Comecemos pela tradicional repartição do eleitorado brasileiro entre três terços, dos quais teríamos um alinhado à direita do arco ideológico, outro fixado no centro e o terceiro sediado na banda esquerda. Os restantes 10% se diluiriam para um lado ou para outro, com possibilidade de se inclinar mais para o centro, a depender do clima de 2018 (quente, muito quente, temperado, frio ou muito frio), significando competição ferrenha, polarização aguda ou temperança e harmonia ambiental; ou, ainda, absoluta indiferença ao processo eleitoral em curso.

A ECONOMIA COMO LOCOMOTIVA

Quem vai acusar a quentura ou a frieza do meio ambiente é o termômetro da economia, sob a hipótese de que uma boa situação econômica jogaria um dinheirinho a mais no bolso do consumidor, capaz de encher a geladeira e garantir estômagos satisfeitos. O coração agradecido acabaria “fazendo” a cabeça do eleitor votar em candidatos identificados com o bem-estar. (Esta é a equação que este consultor designa de BO+BA+CO+CA= Bolso, Barriga, Coração, Cabeça).

Já um ambiente muito quente, capaz de gerar certa ebulição social, tenderia a favorecer protagonistas afastados do status quo, explicitamente localizados nas margens do arco ideológico – esquerda ou direita – e capazes de ganhar a preferência da sociedade indignada. Na ponta direita, poderemos ter Jair Bolsonaro, com uma visão ultra conservadora, e na margem esquerda, um perfil de oposição, saído das fileiras do PT- Fernando Haddad, por exemplo – ou outro apoiado por aquele partido. Se Luiz Inácio salvar-se da fogueira, poderia se transformar em eixo catalisador. As pontas poderão abrigar velhos perfis radicais, sem grandes consequências, como figuras do PSTU e de entes nanicos.

Mas há protagonistas que pleiteiam disputar o canto esquerdo, dentre elas, Marina Silva e Ciro Gomes. A ex-seringueira possui um perfil asséptico, como legítima representante do ambientalismo, tem credibilidade, é pessoa que angaria respeito e admiração. Parece, no entanto, não ter estofo para aguentar dura e sangrenta batalha pela Presidência. Que exige armas adequadas, recursos, vasto tempo de mídia eleitoral etc. Seria tragada por grandes estruturas. Ciro Gomes, saindo pelo PDT, ganharia boa votação no Nordeste, mas tende a ser corroído por bolsões do Sudeste. Ciro é uma metralhadora ambulante. Conhecido por “morrer pela boca” como peixe. Tem um arsenal expressivo que acaba minando suas chances.

OS PERFIS DO CENTRO

Vejamos, agora, os nomes hoje lembrados para ocupar as áreas mais centrais. Vale recordar que esses perfis de centro teriam condições de puxar pedaços de blocos tanto da direita quanto da esquerda. Ou seja, quando falamos de centro, entenda-se o espaço que se estende ao centro-direita ou ao centro-esquerda. Na visão deste consultor, o perfil com tais posições tende a obter melhor desempenho eleitoral, contando com boa possibilidade de entrar no segundo turno. Quem seria esse figurante?

Comecemos pelos quadros que já se mostram como pré-candidatos: Geraldo Alckmin e João Doria. Ambos preenchem espaços do centro à direita. Geraldo tem história no PSDB, identifica-se com valores do equilíbrio, ponderação, seriedade, positiva imagem pessoal. É criticado por lhe faltar determinação, expressão mais forte. Passa a impressão de lhe faltar um discurso mais assertivo, contundente, com propostas para o país. Está escrito na testa dele: sou paulista. Como tal, pode despertar rejeição de setores que vêem São Paulo como um país à parte, não representando, portanto, o interesse de outras regiões. Há dúvidas sobre o leque de alianças que formaria. Lembre-se que chegou a defender a saída do PSDB do governo Temer.

Doria tende a ser visto como a “novidade”, a estampa contemporânea, o perfil que incorpora demandas do momento, a partir do conceito de “bom gestor”, como tenta ser. Sabe mexer com as mídias sociais e se faz presente nos mais distantes lugares. Se conseguir ser o candidato tucano, tem condições de fechar grande arco de alianças. Está mais próximo do PMDB do que Alckmin. E José Serra? Debilitado, não disporia de fôlego para uma campanha presidencial. Sua vez passou.

Restaria, por último, Henrique Meirelles, cuja candidatura dependeria do sucesso da economia e consequente apoio de partidos grandes e médios, a começar pelo PMDB. Joaquim Barbosa, ex-presidente do STF, teria imensa visibilidade, mas não tem “fígado” para suportar uma campanha. Ciro Gomes, como já se disse, seria tragado pela exacerbação. Fala-se de Carlos Ayres Britto, ex-presidente do STF, poeta, advogado, pessoa admirável. Toparia? Muito difícil. Confessa já ter dado sua contribuição à Pátria. Se disputasse e dispusesse de bom tempo de rádio e TV, atrairia imenso contingente. O Brasil seria comandado por um homem de brio e respeito.

 

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP, consultor político e de comunicação Twitter@gaudtorquato<br< a=""> />

Antes prevenir do que remediar

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Por Werney Serafini.


Uma doença descoberta no início é fácil ser curada, difícil é percebê-la. Depois, é fácil percebê-la, difícil é curá-la. Assim ensinou Nicolau Maquiavel¹ em “O Príncipe”, livro dedicado ao Magnífico Lourenço, Filho de Pedro de Médici.
Quando os problemas são identificados com antecedência, - o que, segundo Maquiavel, é privilégio dos homens prudentes, - eles serão rapidamente resolvidos. Ignorados ou postergados, não haverá remédio que dê jeito.
O ensinamento permanece atual e serve para os “príncipes” modernos, os políticos, gestores e líderes, que deveriam estar atentos às demandas latentes na sociedade, sejam elas econômicas, sociais, culturais e, especialmente, as ambientais, pois, se ignoradas, podem trazer sérios problemas.
No presente é importante distinguir o que poderá causar prejuízo no futuro. Aquilo que pareceu ter pouca importância pode revelar-se uma grande perda e aí, não haverá mais solução.
Demandas sociais, cujos movimentos têm gerado comoções em todo mundo, a exemplo das manifestações de desempregados, invasões de sem-terra, greves de funcionários, protestos, comunidades tradicionais reivindicando direitos, cidadãos revoltados com a saúde pública, consumidores indignados, entre outros, são sintomas de que as coisas não estão correspondendo as necessidades. Na atividade empresarial, não identificar demandas futuras, pode comprometer empreendimentos promissores e exemplos existem às centenas.
Acontecimento previsível poderá surgir no principal empreendimento econômico de Itapoá, o terminal portuário que será quadruplicado em sua capacidade operacional.
Sabe-se que o licenciamento ambiental obriga o investidor destinar recursos como “compensação ambiental”. Dado ao porte do investimento, os valores deverão ser expressivos e, se aplicados no município, contribuirão efetivamente para o encaminhamento dos ajustes ambientais necessários em Itapoá.
A legislação determina que esses recursos sejam aplicados, prioritariamente, em Unidades de Conservação e preferencialmente públicas. Itapoá não as tem, exceção feita ao pequeno Parque Natural Municipal Carijós e a Reserva Volta Velha – RPPN Fazenda Palmital. Também não existe uma política ambiental municipal que venha contemplar a criação de Unidades de Conservação.
Há muito que se propõe a elaboração de uma política ambiental municipal que normatize e estimule a criação de Unidades de Conservação, públicas e privadas.
No passado, quando da implantação do terminal portuário, os recursos da compensação ambiental, substanciais na época, foram redirecionados para outros municípios que, ao contrário de Itapoá, possuíam em seus territórios Unidades de Conservação habilitadas.
Não há mais espaço, para omitir a relevância ambiental de Itapoá, detentora dos últimos remanescentes florestais das planícies costeiras. Há que se ter visão e discernimento para perceber o que realmente é fundamental para um desenvolvimento equilibrado, que contemple o aspecto econômico, social e ambiental.
Tendências latentes, às vezes ocultas, são mais significativas do que as que se manifestam superficialmente. Assim as questões difusas precisam ser discutidas participativamente com a sociedade. As pessoas em geral, tem demonstrado disposição para articulações com os que têm poder de decisão sobre a coisa pública, mas, também, querem exercer efetivo controle social sobre elas. Cabe ao dirigente liderar as ações equalizando os diferentes interesses, priorizando o bem público e coletivo. Postergar ou omitir atos necessários pode trazer consequências danosas e imprevisíveis.
Maquiavel, sabiamente, ensinou que nos “principados”, “o Príncipe prudente deve não só remediar o presente, mas prever os casos futuros e preveni-los com toda a perícia, de forma que ele possa facilmente levar o corretivo e não deixar que se aproximem os acontecimentos, pois deste modo o remédio não chega a tempo, tendo-se tornado incurável a moléstia”.

¹Nicolau Maquiavel (em italiano: Niccolò di Bernardi dei Machiavelli); Florença(1427/1527); historiador, poeta, diplomata e músicoitaliano do Renascimento; reconhecido como fundador do pensamento e da ciência política moderna, pelo fato de ter escrito sobre o Estado e o governo como realmente são e não como deveriam ser.

Itapoá (inverno), agosto de 2017.

Oração pela pátria

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por Gaudêncio Torquato.

 

Pai nosso que estás no Céu, santificado seja o vosso nome!

Pedimos suas bênçãos, Senhor, na semana em que nosso país comemora seus 517 anos de existência, abrigando uma população de 207,6 milhões de habitantes e vivendo um dos momentos de maior aflição de sua trajetória política. Eis a nossa prece.

É bem verdade, Senhor, que habitamos um território belo e imenso, do tamanho de um continente, que possui a maior reserva de água doce do mundo, 12% da quantidade existente nos 193 países do nosso planeta, e com biomas terrestres – Mata Atlântica, Amazônia, Cerrado, Caatinga e Campos do Sul – abrigando 20% das espécies do planeta. Em nosso exuberante torrão, até desastres naturais há, sem, porém, o poder destruidor de tufões, terremotos e furacões que devastam nações poderosas e maltratam populações.

Pero Vaz de Caminha certamente tinha razão, Senhor, na carta escrita ao rei Dom Manuel em 1º de maio de 1500, ao descrever que a terra descoberta pelo comandante português Pedro Álvares Cabral, em 22 de abril, “em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem”.

Agradecemos, Senhor, pela extrema generosidade com que nos agraciou, dando-nos terra tão rica, onde se plasmou a índole de uma gente singular, assentada em um “processo de equilíbrio de antagonismos”, como ensina o mestre Gilberto Freyre: as culturas europeia, indígena, africana; o católico e o herege; o jesuíta e o fazendeiro; o bandeirante e o senhor de engenho; a paulista e o emboaba; o pernambucano e o mascate; o bacharel e o analfabeto; o senhor e o escravo”.

Tal convivência antagônica formou um povo cordial, alegre, trabalhador, hospitaleiro, afeito à paz, acessível, mesmo que também carregue traços negativos, como bem ilustra Afonso Celso em seu clássico Por que me Ufano do meu País”: falta de iniciativa, falta de decisão, falta de firmeza, pouco diligente”. Seria esse o outro lado da profecia de Vaz de Caminha, quando garantiu que, na nova terra, “em se plantando tudo dá?”

Venha a nós o vosso Reino!

E que venha logo, Senhor. Antes que a matança nas ruas alcance níveis incontroláveis. E antes que a divisão entre “nós e eles” torne irreversível a desarmonia social. É o que ansiosamente esperamos. Por aqui, baixou um clima de guerra aberta. Irmãos contra irmãos. Tiros por todos os lados. A violência urbana assola bairros, ruas, vielas das grandes e médias cidades. Os atentados terroristas no mundo, nos primeiros 5 meses deste ano, registram um número menor de homicídios do que os ocorridos em nossas plagas em apenas 3 semanas de 2015, quando foram assassinadas 3,4 mil pessoas, uma morte a cada 9 minutos.
O Rio de Janeiro, nosso mais conhecido cartão postal, virou terra de ninguém. Semana passada, mataram o 100º policial militar somente este ano.
O apartheid social se alarga na onda de um discurso propagandeado por um partido político, que há três décadas tenta incutir na alma da população o divisionismo entre bons e maus, bandidos e mocinhos, nós e eles, elites e plebe. A velha luta de classes aposentou suas armas após a queda do muro de Berlim, em 1989, e o fim da guerra fria, mas por aqui a estrela do comunismo continua a brilhar no peito de militantes vestidos de vermelho, que pregam a “revolução”, a derrocada das elites e a morte do liberalismo, ao qual adicionam o prefixo “neo”.
Não somos uma sociedade igualitária, Senhor. Há enorme distância entre pobres e ricos, privilegiados e oprimidos, donde se pode até a compreender o escopo de instituições que desfraldam as bandeiras da igualdade, da fraternidade e da justiça para todos. Só não é possível defender o ideário dos direitos humanos usando as armas da intolerância e da condenação contra quem ousa discordar de métodos como invasão de propriedades, depredação de patrimônios, incitação à violência.
Seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu.
Que a vossa vontade, Senhor, chegue até nós. Rogamos que a paz do céu baixe sobre nosso território, elevando os menos favorecidos a degraus superiores e dando aos habitantes do alto da pirâmide social nobreza de espírito para lutar pelo fim das desigualdades e enxugar a lágrima dos aflitos.
Nossos pobres, Senhor, chegam a 30 milhões de pessoas. E mais de 10 milhões de brasileiros vivem em condições de extrema miséria, sem condições de comprar comida em quantidades necessárias para sua sobrevivência. A milhares de brasileiros falta pão sobre a mesa, sobretudo nas periferias das metrópoles, onde populações carentes se aboletam em favelas, palafitas e casas de papelão.
O pão nosso de cada dia nos daí hoje. Farto para uns e migalhas para outros.
Rogamos, Senhor, que injete na consciência dos nossos homens públicos o dever sagrado de cumprir a missão de não trair o compromisso com aqueles que os conduziram às suas funções. Impõe-se a eles o dever de bem representar o povo. Que não deixem faltar pão sobre a mesa dos famintos. Que dêem qualidade aos serviços públicos. Que não permitam aumentos exagerados de impostos.
Perdoai as nossas ofensas. Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.
Pedimos perdão, Senhor, para os pecadilhos do cotidiano, as ofensas comuns que se revelam em deselegância, gestos mal educados, mentirinhas e falsas versões. Não podemos pedir perdão, Senhor, para atos que signifiquem assalto à coisa pública, praga que se expande sob a maquinação da burocracia estatal, de políticos e círculos de negócios. Máfias e assaltantes do Estado, formando milícias de um poder invisível, precisam prestar contas à Justiça, antes de receber o perdão divino.
E não nos deixei cair em tentação, mas livrai-nos do mal.
Nessa Semana da Pátria, suplicamos por ajuda, Senhor, para construir a Terra dos nossos sonhos, onde gerações viverão em convivência harmoniosa, o ponto de encontro entre grupos e classes, o habitat do bem-estar coletivo, o terreno onde florescem sementes do Produto Nacional Bruto da Felicidade. Dai-nos força, Senhor, para nos livrar dos males que afligem nossa bela, porém sofrida, Nação.
Ajudai-nos, Senhor, a subir ao altar do Bem.
Amém!

 

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP, consultor político e de comunicação Twitter@gaudtorquato>

O combate ao poder invisível

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Por Gaudêncio Torquato.

 

Parcela considerável do contencioso que cerca a crise que afunda o país gira em torno das relações promíscuas entre a gestão pública, os políticos e os círculos de negócios. Esse é o triângulo que sustenta os bolsões de corrupção que têm se alastrado nos subterrâneos do Estado, aqui e alhures, bastando ver o que também ocorre em outros países de feição democrática. É o que também descreve Roger-Gerard Schwartzenberg no clássico Sociologia Política, no capítulo em que trata da tecnodemocracia. Ao se considerar que a res publica sempre despertará a atenção dos agentes negociais, ante a inexorável tendência de conjunção de interesses dos universos público e privado, resta imaginar uma forma capaz de dar plena transparência às relações entre o Estado e seus prestadores de serviços.

Nessa complexa teia de relacionamentos, emerge o fenômeno do lobby. Há um projeto em tramitação no Congresso que trata dessa matéria tão estigmatizada. Pois o lobby carrega forte conotação negativa no ambiente político, sendo associado à corrupção, tráfico de influência, manipulação das estruturas governativas, enfim, apropriação de fatias do Estado pelas forças que usam as armas do patrimonialismo, mazela de nossa administração pública. (A Operação Lava Jato está eivada de exemplos com essa conotação). Daí a necessidade de abrir a redoma em que se esconde o lobby.

DEMOCRACIA PARTICIPATIVA

Pincemos a lição de Bobbio: a democracia é o governo do poder público em público, jogo de palavras que aponta para a ideia de “manifestação, evidência, visibilidade”, em contraposição à coisa “confinada, escondida, secreta”. O filósofo arremata: “Onde existe o poder secreto há, também, um antipoder igualmente secreto ou sob a forma de conjuras, complôs, tramóias.” Donde se conclui que não resta outro caminho que o de inserir a atividade lobística na esfera dos canais da democracia participativa.

Vejamos. A intermediação de interesses privados junto à esfera pública não é um fenômeno contemporâneo. Faz-se presente em todos os ciclos históricos, frequentando, inclusive, os primeiros dicionários da política. Rousseau, no Contrato Social, perorava sobre a oportunidade de cada cidadão participar nos rumos políticos, garantindo haver “inter-relação contínua” do “trabalho das instituições” com as “qualidades psicológicas dos indivíduos que interagem em seu interior”.

Esse é o fundamento da democracia participativa, pela qual os cidadãos e suas representações devem ser livres de coerção para influir de maneira autônoma no processo decisório. De certa forma, o lobby bebe nessa fonte. O ideário começou a ser conspurcado, à sombra do poder invisível que age nos subterrâneos do Estado e que forma uma teia de interesses espúrios e alianças táticas com máfias, grupos e castas que se alimentam da corrupção. O Estado moral, nesse momento, soçobra diante do Estado imoral.

AGINDO NOS SUBTERRÂNEOS

O rompimento dos diques éticos acentuou-se por conta da desintegração das fronteiras ideológicas, características da política na sociedade pós-industrial. A administração de coisas materiais tomou o lugar de um governo voltado para a defesa da coletividade. O cerco utilitarista em torno do Estado se expandiu, agora sob um triângulo de poder: partidos amorfos, burocracia administrativa e núcleos de negócios.

Desvirtuando-se do ideário original, os lobbies se tornaram sinônimo de interesses escusos. Em nossa história recente, plasmaram monstrengos e expuseram escândalos, como mensalão e petrolão. Ao lado de desvios constata-se saudável movimentação da sociedade. A Constituição de 88 foi o ponto de partida para um novo ordenamento. Multiplicaram-se entidades. O respiro social propiciou a expansão de novos centros de poder, cuja ação se fez ver em novos nichos temáticos. Parcela ponderável dessa agenda bateu nos Tribunais, chegando à Suprema Corte, que tem decidido sobre matérias polêmicas, como as questões da união homoafetiva, cotas raciais, células-tronco, mensalão, proibição de financiamento privado de campanhas, prisão depois do julgamento em segunda instância.

O arrefecimento dos partidos políticos, na esteira da alienação ideológica, jogou milhares de cidadãos ao abrigo de entidades como sindicatos, associações, clubes etc. Águas limpas se cruzaram com torrentes de águas sujas. Diferentes tipos de interesse se confundem e conflitam no epicentro das pressões e contrapressões, onde se abrigam as cúpulas do Congresso Nacional, o Palácio do Planalto, os Ministérios, as autarquias e as sedes das Cortes do Judiciário.

A atividade de lobby passou a atuar forte naquelas esferas, com a ajuda de grupos incrustados na máquina administrativa por indicação de partidos da base aliada. Até áreas laborais entraram no jogo, como centrais sindicais que manobram rédeas das relações de trabalho. (O combate à Lei da reforma trabalhista é um exemplo da pressão corporativista). A meta é manter o status quo.

Daí a necessidade de legalizar o lobby nos moldes praticados nos Estados Unidos. Urge abrir por completo as estruturas, dar-lhes transparência. Os lobistas terão nome, endereço e dirão a quem estão servindo. Desenvolverão uma articulação aberta, escancarando modos de atuação, identificando grupos e coletividades representadas e a natureza dos interesses envolvidos. O marco regulatório sobre a intermediação de interesses grupais e coletivos junto às esferas da administração pública virá, portanto, formalizar uma prática hoje informal.

Veremos diminuída a taxa de corrupção, na medida em que será desvendado o que está por trás das máscaras dos interlocutores. Demandas gerais, difusas, particulares, explícitas ou latentes, passarão pela lupa da mídia. A publicidade das ações propiciará distinguir o justo do injusto, o lícito do ilícito, o correto do incorreto, o oportuno do inoportuno, gato de lebre.

Dessa forma, a democracia estará mais próxima do seu real significado: o regime do poder visível.

 

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP, consultor político e de comunicação Twitter@gaudtorquato>

Revoada na floresta Tucana

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por Gaudêncio Torquato.

 

Os tucanos, apontados como os bichos que mais gostam de pousar em cima dos muros, vivem momentos críticos nesse ciclo de turbulências por que passa o país. O partido da social-democracia brasileira, o PSDB, está rachado. A fissura se acentuou por ocasião da votação na Câmara sobre a denúncia feita pelo Procurador Geral da República, encaminhada ao STF, envolvendo o presidente da República. A Câmara acabou rejeitando por 263 votos a autorização pedida pela alta Corte para investigar o presidente, com a bancada tucana dando 22 votos a favor de Temer contra 21.

Um spot publicitário, veiculado esta semana, avisa que o partido, no programa partidário a ser veiculado dia 17 próximo, vai “admitir erros” cometidos no passado. O racha se alarga, eis que parcela dos tucanos não admite a confissão pública que o presidente interino da sigla, senador Tasso Jereissati, endossa. O partido se aproxima da Torre de Babel e uma profusão de vozes e barulhos impacta a unidade partidária, ameaçando a necessária integração de forças, fator absolutamente indispensável para que o PSDB seja forte protagonista no pleito presidencial de 2018.

A crise vivida pelo partido não é coisa recente. Já faz um bom tempo que os tucanos enxergam sua identidade coberta de fumaça, após consideráveis perdas de massa doutrinária. Por ocasião de sua fundação, o PSDB apresentou ao país um denso documento, com a descrição da social-democracia que queria implantar. Ali estavam os fundamentos do Estado do Bem Estar Social (Welfare State), com pontuações agudas sobre o papel do Estado na economia, acumulação de capital e distribuição igualitária de ganhos para a sociedade, crescimento econômico, geração de empregos, ordem social, liberdades democráticas etc. Apontava sua distinção de partidos liberais, a partir da preocupação com o bem-estar coletivo, e a meta de combate à pobreza e à exclusão social.

A MODELAGEM SOCIAL-DEMOCRATA

Os fundadores do partido em 1988 (Mário Covas, Franco Montoro, Fernando Henrique, José Serra, entre muitos), inspiravam-se na modelagem de forte tradição democrata que se podia ver na Alemanha, Suécia, França, Inglaterra, Holanda e Espanha. Mais adiante, o país elegeu presidente o sociólogo Fernando Henrique, o schollar do tucanato, elevado ao cargo em virtude do bem-sucedido Plano Real, peça fundamental na arquitetura socioeconômica que resgatou os deteriorados eixos de nossa economia. Mas a social- democracia acabou se transformando em gigantesca encruzilhada em que se encontram, hoje, grandes e médios partidos do país: PMDB, PFL/DEM, PT, depois PSB, PDT, PTB e os entes criados nos laboratórios da desideologização, esses que se aglomeram no espaço que se designa de centrão.

O PT, principalmente, saiu da ponta esquerda do arco ideológico para se aproximar do centro, avizinhando-se do PSDB e do próprio PMDB. A descaracterização das siglas jogou-as todas no painel da pasteurização ideológica, sobrando a elas apenas refrãos e slogans, como aquele do PT criando o apartheid social (“Nós e Eles”). Ante a fragmentação doutrinário-ideológica, é possível compreender a crise que nesses tempos nebulosos afeta o PSDB. Indivíduos e alas a que pertencem tornaram-se mais importantes que a substância programática. Caciques deram e dão o tom da expressão nem sempre harmônica. Com o desaparecimento de tucanos de boa origem (Covas, Montoro, Teotônio Vilela, Beto Richa), sobrou Fernando Henrique como o ícone e maestro da orquestra. Hoje lhe faltam vontade e tempo para dedicação intensa ao partido.

No comando do tucanato, apareceram Tasso e Aécio, cada qual representando mais espaços geográficos (Sudeste, Nordeste) do que nichos ideológicos. O partido se esgarçou. Tornou-se um ente igual aos outros, cheio de grupos e posições. Esta é sua atual identidade. Há, por exemplo, uma parcela que defende a retirada dos tucanos do governo Temer e outra que defende sua permanência. Lembre-se que a parceria entre PMDB e PSDB, construída para dar salvaguarda ao atual governo, foi construída sobre um conjunto de ações e reformas aprovadas por ambos. Ou seja, a administração federal realiza o programa definido por tucanos e peemedebistas. Não haveria razão, portanto, para o PSDB abandonar o navio no meio da travessia. Quem defende a saída o faz por interesses eleitoreiros. Receiam não ganhar votos no pleito de 2018 por conta da impopularidade do presidente.

A DIVISÃO TUCANA

Cabeças-pretas, jovens deputados, contra cabeças-brancas, parlamentares mais velhos: eis o que virou a social-democracia do tucanato. Ou, em outros termos, pecadores no confessionário contra outros que não admitem pecados. O chefão tucano interino, Jereissati, quer pedir perdão à sociedade por ter seu PSDB cometido erros, sob a crença de que o reconhecimento público de pecados acabará jorrando votos nas urnas tucanas. Mas há uma turma que não admite ter feito infração. O que a querela poderá causar? Formidável divisão, cujos efeitos recairão sobre o protagonismo partidário. E que tucano poderá ter as asas quebradas? Geraldo Alckmin. O governador de São Paulo praticou um erro crasso: combinar com o líder Ricardo Tripoli o voto contra Michel Temer na Câmara; e, segundo se viu, ainda sugeriu a saída dos tucanos do Ministério.

Quem ganha com a balbúrdia? O prefeito de São Paulo, João Doria. É o único que simboliza avanços, modernidade, inovação. Trata-se de um perfil que possui condições para adentrar as portas da eleição presidencial de 2018 e ser bem-sucedido. Faz boa administração, é trabalhador, domina bem a expressão, tem imensa capacidade de deslocamento, articula-se bem e poderá ser tanto o candidato do PSDB quanto do PMDB. Ou de outro. As portas de muitos partidos se abrem para ele. João é leal a Alckmin. Claro, até onde a lealdade esbarrar no pragmatismo. Se as circunstâncias políticas e sociais lhe forem favoráveis, ele irá à luta, quer dizer, se o cavalo passar encilhado na frente, não pode deixar de montar. Cavalo encilhado não passa duas vezes no mesmo lugar.

Mais: João Doria lapida sua identidade anti-Lula. Uma alavanca poderosa. Mesmo que Luiz Inácio não seja candidato.

 

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP, consultor político e de comunicação Twitter@gaudtorquato>

Sustentabilidade

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por Werney Serafini.


José Lutzenberger*, comparava economia mundial aum garimpo, semelhante ao da Serra Pelada na Amazônia:uma enorme cratera, mais parecendo um descomunal formigueiro, onde as formigas são pessoas, que subindo e descendo por toscas escadas de madeira, carregam nas costas pesados sacos de minérios; criaturas irreconhecíveis, cobertas de lama, lembrando o trabalho escravo nas pirâmides do antigo Egito.
Ao fazer a comparação, Lutzenberger enfatizava o contraste entre o que está sendo feito e o que deveria estar sendo feito, no Brasil e no mundo, pela cultura industrial global.
O garimpo, dizia ele, é o protótipo da rapinagem, do saque indiscriminado, sem respeito e consideração. O garimpeiro busca riqueza fácil e rápida. Ocupa o lugar sem qualquer compromisso, destruindo o que considera empecilho. Não tem a mínima intenção em lançar raízes; não desenvolve o sentimento de pertencimento ao lugar; não têm respeito pela Natureza e nem por sua gente. Tudo é provisório, explora e leva o que pode carregar; quando a exploração fica difícil, ou a jazida se esgota, vai embora, deixando um lugar devastado e destruído.
Alguns poucos enriquecem desmedidamente. São os donos dos garimpos, os pilotos que fazem o transporte para o local e, às vezes, algumas prostitutas. A grande maioria, quando sobrevive às doenças, aos assassinatos e as disputas territoriais, sai de lá mais pobre do que quando chegou. O garimpeiro é umavítima, está no garimpo porque perdeu o passado, foi marginalizado no seu lugar de origem.
O garimpo reproduz uma das muitas facetas da realidade econômica atual. De um lado, minorias enriquecendo à custa da exploração sem limites dos recursos naturais e dos menos privilegiados. Do outro, uma maioria, pobre, desenraizada e marginalizada.
A sociedade industrial, da forma como se comporta, está transformando o mundo em um imenso garimpo. Os chamados países desenvolvidos, aliados às classes dominantes dos países chamados subdesenvolvidos, vivem um estilo de vida hedonístico, de consumo desmedido, apoiado em um enorme e irreversível esbanjamento dos recursos naturais. Enquanto durar esse estado de coisas, a outra parte da humanidade, a grande maioria, forçosamente, terá que tornar-se pobre, pois a exploração sem limites destrói habitats, estilos e meios de vida.
Faz-se a apologia do “estilo de vida desenvolvido”, que deveria ser estendido a todos os cidadãos do planeta. Segundo a doutrina, para extinguir a pobreza bastaria levar o crescimento econômico para todos os países.
No entanto, qualquer pessoa, com um mínimo de conhecimento sobre meio ambiente, sabe que um estilo de vida essencialmente consumista é insustentável, até mesmo para os que podem praticá-lo. Estendendo-o a todos os cidadãos do planeta apressaria o colapso, pois não existem recursos suficientes para isso. Por essa razão, está em voga entre tecnocratas, burocratas, políticos e gestores públicos a expressão “sustentável”.
Infelizmente, a expressão não passa de“slogan” e, poucos, muito poucos, conseguem perceber as mudanças necessárias e urgentes no estilo de vida atual, na administração pública, na tecnologia, na infraestrutura tecnoburocrática, na filosofia de vida e de cosmovisão, para superar a atual tendência à insustentabilidade.
A grande maioria, considera “crescimento” como sinônimo de “desenvolvimento” e atenua agregando a expressão “sustentável”.

(*José Lutzenberger (1962-2002), ecologista brasileiro de projeção mundial; Engenheiro Agrônomo formado pela UFRGS e pós-graduado em Química pela Universidade de Louisiana (USA); secretário especial do Meio Ambiente da Presidência da República de 1990 a 1992; um dos organizadores da Conferencia Mundial para o Meio Ambiente da ONU, no Rio de Janeiro (ECO-92); detentor de mais de quarenta prêmios nacionais e internacionais, foi distinguido com os títulos de Doutor Honoris Causa em universidades do Brasil e do exterior; primeiro brasileiro a conquistar o Livelihood Award da academia sueca que concede o Nobel Alternativo, em 1988, deixou como herança a Fundação Gaia, centro de educação para a vida sustentável).