Lorotas e meias verdades

Avaliação do Usuário

GAUDÊNCIO TORQUATO - De onde parte essa onda de falsidades, versões, simulações e dissimulações que se espraia pela paisagem? Nunca se ouviu um disse me disse tão farto quanto este do repertório de invencionices que usa gravações de conversas, edições de vídeos, vazamentos de mensagens, envolvimento de juízes e procuradores e até redes tecnológicas internacionais?

Fragmentos do que se ouviu nos últimos dias: Hacker russo, bilionário russo, pagamento em bitcoins; Gleen Greenwald, jornalista americano sediado no Brasil, articulador de vazamentos; disseminação de hashtags falsas; compra do mandato de Jean Wyllys para renunciar e dar lugar ao deputado David Miranda (PSOL). E mais: o russo da história seria Pavel Durov, 35 anos, criador do Telegram, que só se veste de preto e muda de casa com frequência com temor do manda-chuvas do Kremlin. Ao lado do irmão Nikolai, ele desenvolveu a plataforma Telegram para conversar sem risco de ser espionado pelo governo de seu país. A ideia surgiu quando os dois ainda eram donos da maior rede social da Rússia, a Vkontakte (VK), criada em 2006.

Lembre-se: a plataforma teria sido a usada pelo ex-juiz Sérgio Moro e o procurador Deltan Dallagnol.

O que é verdade? Que houve muita conversa entre eles, não há dúvida. Mas é fato que o fingimento faz parte da nossa cultura, e se mostra forte nesses tempos de polarização, quando adversários se atracam nas redes sociais desfechando punhaladas recíprocas. O caráter nacional, como é sabido, é povoado de fingimento. A propósito, vai aqui uma historinha com essa faceta:

31 de março de 1964. Benedito Valadares se encontra com José Maria Alkmin e Olavo Drummond no aeroporto da Pampulha. Benedito, matreiro, pergunta à outra raposa:

– Alkmin, para onde você vai?

– Para Brasília.

– Para Brasília, ah, sim, muito bem, para Brasília.

Os três saem andando para o cafezinho, enquanto Benedito cochicha no ouvido de Drummond:

– O Alkmin está dizendo que vai para Brasília para eu pensar que ele vai para o Rio. Mas ele vai mesmo é para Brasília.

Eis um despiste bem do jeitão brasileiro: vou enganar meu interlocutor, dizendo-lhe a verdade para tirar proveito da sua desconfiança. Envolve a sagacidade de um e a malandragem de outro. Eles querem dizer: “quando você pensa que está indo, eu já estou voltando”.

A esperteza não se restringe aos atores políticos. Faz parte do cotidiano das pessoas. Os comportamentos na esfera política costumam infringir normas, coisa que herdamos do passado. A clonagem na cultura política chega, hoje, ao mais adiantado grau de sofisticação. A Operação Lava Jato tem sido gigantesco duto por onde passam verdades, meias verdades, mentiras e lorotas. Estamos diante da maior escalada de pistas, muitas falsas, de nossa história, envolvendo atores políticos de amplo espectro, alguns presos, outros denunciados, enquanto adversários travam guerra na arena das redes sociais. Onde vamos parar?

Imensa confusão invade as mentes. Afinal, Lula está preso por ter cometido crime ou por ter sido injustiçado pelo então juiz Moro? Teve culpa ou não nas denúncias como favorecido nos casos do tríplex no Guarujá e no sítio de Atibaia? Houve ou não roubo nos cofres da Petrobras? Tudo foi obra da imaginação de delatores mancomunados com procuradores? Moro fez combinação ou não com Dallagnol?

A história da política é rica nas frentes da simulação e dissimulação. O cardeal Mazarino, ministro de Luis XIII, ensina em seu Breviário dos Políticos: “age com os teus amigos como se devessem tornar inimigos; o centro vale mais do que os extremos; mantenha sempre alguma desconfiança em relação a cada pessoa; a opinião que fazem de ti não é a melhor do que a opinião que fazem dos outros; simula, dissimula, não confies em ninguém e fala bem de todo mundo. E cuidado. Pode ser que neste exato momento, haja alguém por perto te observando ou te escutando, alguém que não podes ver”.

A descrição cai bem no momento que atravessa o país. A falsidade campeia, na tentativa de esconder a verdade. Até parece que os “inventores de causos” que emergem quase todos os dias nas redes sociais aprenderam com Nicolau Eymerich, frade dominicano espanhol que, em 1376, escreveu no “Manual dos Inquisidores”: falar sem confessar: responder às perguntas de maneira ambígua; responder acrescentando uma condição; inverter a pergunta; fingir-se de surpreso; mudar as palavras da questão; deturpar o sentido das mensagens; auto justificar-se; fingir debilidade física; simular demência ou idiotice e até se dar ares de santidade.

Hoje, há muito demônio disfarçado de santo.

 

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP, consultor político e de comunicação - Twitter@gaudtorquato>

Mais análises no blog www.observatoriopolitico.org

A festa do Estado-Espetáculo

Avaliação do Usuário

GAUDÊNCIO TORQUATO

Há, na sociologia política, uma hipótese que pode muito bem explicar certos fenômenos que mexem com o estado d’alma da população. A sobrecarga das demandas sociais aumenta as frustrações com o desempenho do poder público, levando grupos a procurar mecanismos de recompensa psicológica. Não necessariamente por isso, mas certamente tendo alguma coisa a ver com essa abordagem, imensos contingentes nacionais são atraídos por conteúdos diversionistas que funcionam como contrapontos compensatórios em momentos de crise.

É jogar na loto, ir aos estádios de futebol ou mesmo abrir o riso com os programas populares na TV. Os olimpianos, perfis que o sociólogo Edgar Morin descreve como os figurantes que aparecem cotidianamente no topo da cultura de massas, chamam a atenção, brincando com as plateias, abrindo portas da esperança, “inventando milagres” em templos suntuosos, acenando com gestos simpáticos para torcidas futebolísticas, encarnando o perfil de xerifes contra a corrupção e mesmo caprichando na imagem de heróis “salvadores da Pátria”.

Quanto maior a falta de grana no bolso, maior será o sucesso dos personagens do Estado-Espetáculo: artistas de novelas, bispos reunindo multidões em suas igrejas, jogadores(as) de futebol, juízes, ex-juízes, procuradores e até políticos de visibilidade midiática, etc.

À fragilidade do Estado provedor do bem-estar contrapõe-se o Estado das Estrelas Individuais, com seu teatro de formas lúdicas, promessas e elementos ficcionais. E que está por trás dessa moldura? Entre outros fatores, instituições frágeis, conteúdos sociais amorfos, a banalização da violência, descrença geral na política e na justiça, carência de cidadania, um conjunto amalgamado festejado com pirotecnia pela mídia. São visíveis os sintomas de profunda crise, expressa pela deterioração de programas sociais, principalmente nos capítulos da segurança, educação, saúde e habitação. As forças policiais não têm conseguido cumprir com rigor o policiamento ostensivo e preservar a ordem. As gangues se expandem por toda a parte. Exércitos privados se multiplicam. A marginália ganha volume e o medo se espraia por todos os segmentos.

Nesse vazio, abrem-se espaços para mecanismos catárticos que fazem o diversionismo das massas. A “marcha para Jesus” e a Parada Gay são exemplos de eventos de grande mobilização social, funcionando como estruturas de catarse. De um lado, o encontro místico, de outro, a liberação de identidades. Ninguém grava o que se ouviu nos palanques (semântica), mas a estética dos espetáculos é a própria mensagem, no conceito mcluhaniano. Todos se recordam das cenas que viram. A disfunção narcotizante, o efeito teatral sobre o psiquismo de milhares de pessoas e a alienação cívica são alguns dos efeitos provocados por esses ritos, signos e ensaios coletivos.

Que a liturgia dos atos é importante para criar estados de animação, não se discute. Transformá-la em anzol para “pescar” a fé de multidões é coisa típica do Estado-Espetáculo. A estampa litúrgica de credos é o retrato acabado de um tempo em que as coisas essenciais dão lugar ao acessório.

O resultado é a dormência da cidadania. Pois um cidadão que se acostuma a viver no mundo ficcional acaba transformando a versão em verdade e o meio em fim. Sem segurança, sem saúde, com educação precária, sem serviços essenciais básicos eficientes, as pessoas se tornam fragilizadas. Perdem autonomia. Mais parecem rebanhos famintos à procura de pasto. Vai embora a noção de direitos.

O debate em torno de ideias cede lugar ao ludismo. Os líderes das massas já não são figuras da esfera política portando valores essenciais, como decência, respeitabilidade, honra, moral, ética, compromisso. Esse acervo se perdeu. Hoje, o que vemos são atores do Estado-Espetáculo expressando promessas de salvação, elementos canhestros, tipos que dramatizam a vida cotidiana, ancorando-se na miséria das margens sociais para aumentar seus cofres.

A paisagem social é lúgubre. Remete-nos ao poeta Manuel Bandeira, que assim cantava: “que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte? O que vejo é o beco”.

 

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP, consultor político e de comunicação - Twitter@gaudtorquato>

Mais análises no blog www.observatoriopolitico.org

Os enviados de Deus

Avaliação do Usuário

GAUDÊNCIO TORQUATO - Governantes de todos os quadrantes não raro costumam escolher Deus como escudo. A história está pontilhada de referências a Deus. Em seus 40 anos de reinado, o ditador general Franco, “caudillo da Espanha pela Graça de Deus” referia-se sempre à Providência Divina, conforme passagens de seus discursos, como esta de 1937: “Deus colocou em nossas mãos a vida de nossa Pátria para que a governemos”. Os estatutos da Falange Espanhola o declaram “responsável perante Deus e perante a história”. Lembrete: a Falange Espanhola, criada em 1933 por José Antônio Primo de Rivera, foi um movimento e um partido político inspirado no fascismo.

Já os monarcas, ao correr da história, justificam a autoridade e a legitimidade sob a égide do direito divino, de onde deriva seu direito de governar, não dependendo nem mesmo da vontade de seus súditos. Hassan II, no Marrocos, se declarava descendente do profeta Maomé. Dizia: “não é a Hassan II que se venera, mas ao herdeiro de uma dinastia, a uma linhagem dos descendentes do profeta Maomé”.

Hirohito, imperador do Japão de 1926 até sua morte, em 1989, era visto como uma divindade. Criou fama, não só por ter uma realidade distante da população que viveu guerras e mortes, mas por construir uma aura divina. Ele nunca aparecia com roupas normais, sempre estava vestido com vestimentas dignas de um “imperador divino e perfeito”, como um deus que os japoneses acreditavam ser descendente da deusa do sol, Amaterasu.

O marechal Idi Amin Dada, ditador de Uganda, garantia ao povo que conversava com Deus, em sonhos, uma espécie de aval concedido a seus atos. Certo dia, um esperto jornalista joga a pergunta: “o senhor conversa com frequência com Deus”? Ele: “Sempre que necessário”. Já em Gana, os eleitores cantavam assim a figura de Nkrumah: “o infalível, o nosso chefe, o nosso Messias, o imortal”.

Por estas plagas, eleva-se aos céus a figura de Jair Bolsonaro. A quem um pastor evangélico do Congo, Steve Kunda, assim se refere: “Na história da bíblia, houve políticos que foram estabelecidos por Deus. Um exemplo quando falam do imperador da Pérsia Ciro. Antes do seu nascimento, Deus fala através de Isaías: ‘Eu escolho meu sérvio Ciro’. E senhor Bolsonaro é o Ciro do Brasil. O nosso Messias não teve dúvidas: jogou o vídeo nas redes sociais. E entoou: “Brasil acima de tudo; Deus acima de todos”.

Para reforçar a mística, o bispo Edir Macedo pede que Deus ‘remova’ quem se opõe a Bolsonaro, acusando políticos de tentarem "impedir o presidente de fazer um excelente governo". E alertou: Marcelo Crivella, o prefeito do RJ, enfrenta "impeachment do inferno".

O fato é que os governantes em países atrasados culturalmente (e até em mais desenvolvidos) costumam organizar seu próprio culto. Agem para que a imprensa cultive sua imagem que pode ser uma destas: herói, Salvador da Pátria, Super-Homem, Pai dos Pobres ou Enviado dos Céus. Mas Nietsche já alertava contra tal esperteza: “o super-homem destrói os ídolos, ornando-se com seus atributos. A apoteose da aventura humana é a glorificação do homem-Deus”.

Pois bem, essa mania de querer um parentesco com Deus ressurge nessa onda direitista, de viés populista, que se espraia pelo planeta, incluindo até Nações como Hungria, Polônia, Áustria, Itália, Suíça, Noruega, Dinamarca, Filipinas, Turquia e, claro, os Estados Unidos de Donald Trump.

Esses governantes tendem a assumir comportamento autoritário, criando estruturas próprias de comunicação, formando alas sociais (amigas e inimigas), fustigando a imprensa, vista como a tribuna dos perdedores. Não aceitam que a mídia tradicional exerça as funções clássicas de apurar os fatos, que seja vigilante dos poderes públicos ou que faça cobranças.

Cortam volumosos investimentos publicitários na mídia tradicional, extinguem empregos e inauguram o ciclo do “achismo” ao expandirem a quantidade de julgadores e intérpretes do cotidiano. Os efeitos brotam: perda de credibilidade na informação; perda de qualidade informativa; formação de “exércitos” para “guerra da informação e da contra-informação”; apartheid social com a polarização discursiva; e expansão do Estado-Espetáculo.

No meio do turbilhão, Jair vai atirando contra a imprensa, verberando contra políticos e, quem sabe, pensando em subir ao trono das divindades. Para tanto, conta com a identidade do Messias, afinal, seu sobrenome.

 

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP, consultor político e de comunicação - Twitter@gaudtorquato>

Populismo não é ameaça

Avaliação do Usuário

Por Gaudêncio Torquato - O populismo se inspira em antagonismos: as demandas das massas contra interesses de elites corrompidas; a nova política, ancorada em programas contra a velha política, caracterizada pelo toma lá dá cá; a reforma das instituições de Estado versus o status-quo.

O cenário social brasileiro é propício a implantar o populismo? Se considerarmos que a corrente tende a caminhar por terrenos atolados em profunda crise econômica, tenha sido ela deflagrada pela esquerda ou pela direita, a resposta é sim. Atravessando um frágil ciclo econômico, com a população descrente nos agentes políticos, desanimada em ver roubalheira e corrupção por todos os lados, o país agasalharia as condições para implantação de uma política populista.

A isso, pode-se acrescer o fato de que o cobertor demagógico é feito de densa espuma emotiva, que se mostra na polarização entre alas, na expressão indignada de grupos contrários, que escolhem a arena das redes sociais para vituperar uns contra outros, expandindo a bílis que escorre pelas veias das correntes guerreiras.

Do desenho acima, seria possível inferir que, se não fizer as reformas necessárias à retomada do crescimento, o governo poderia tentar uma saída pela via populista. Afinal, a demanda por populismo é maior entre as camadas sofridas. Felizmente, tal alternativa é inviável no Brasil por um conjunto de razões.

Em primeiro lugar, é oportuno lembrar que uma solução como essa jamais seria abraçada pelo núcleo que atua na frente econômica encabeçada por Paulo Guedes. Os gestores que com ele trabalham vestem a camisa liberal e jamais iriam topar deixar a coerência de ideário por uma aventura populista. Não topariam bancar a demagogia.

Segundo, nossa “revolução castrense” (militar), essa imaginada pelos generais que estão no governo, tem por meta o desenvolvimento da Nação, com o qual se identificam e que integra o manual governamental que decidiram adotar na administração Bolsonaro. Repelem a volta ao autoritarismo.

Terceiro, há um forte núcleo racional que habita o centro da pirâmide, composto por amplos nichos de classes médias – profissionais liberais, empresários, áreas da intelligentzia -, movidos pela preocupação de ver o país trilhando a rota do meio, onde o Estado do Bem-Estar Social encontra as políticas liberais, âncora da livre iniciativa. Portanto, esse contingente não combina com uma virada populista.

O nosso presidente até pode defender, em seu íntimo, programas ou ideias de grande aceitação popular, como atualização da tabela do Imposto de Renda pela inflação, como prometeu nesses últimos dias, algo que não combina com a ameaça de Paulo Guedes, ansioso para acabar com dedução de gastos com saúde e educação no IR. Pior: se a reforma da Previdência não foi aprovada, faltarão recursos para o Bolsa Família. Foi o que alertou Guedes. Imaginaram a grita geral?

Em suma, o que Bolsonaro pode fazer, e está fazendo, mesmo sob sérias críticas de parcela da sociedade, é o atendimento às promessas de campanha, particularmente a pauta das armas (flexibilização do porte e da posse de armas), a descontaminação ideológica (Escola sem partido), sob a régua da extrema-direita, essa que vitamina a polarização social. Agora, no que diz respeito a dinheiro, isso é competência da equipe econômica. O presidente até dá palpites, mas acaba recuando quando percebe que não pode furar o balão da economia.

O desencanto geral com a política e com os políticos dará um gás extra ao presidente, garantindo-lhe uma trajetória cheia de obstáculos, mas, ainda assim, permitindo que chegue ao outro lado do rio das mortes. A não ser que seja ele o propulsor de uma débâcle estrondosa nos quadrantes de nossa economia. Se isso ocorrer, babau. Ademais, o ciclo petista, e o que se passa ao nosso redor em matéria de esquerda, como é o vulcânico desastre venezuelano, funcionam como antídoto contra a volta do lulopetismo. Lembrando: mantida a decisão do STJ, Luiz Inácio só teria condições de voltar como candidato a partir de 2035, quando terá 89 anos.

Por isso, é viável inferir que a travessia de Bolsonaro, mesmo semeada de minas, pode ir até o fim. Mas seu estilo de atirador acabará viabilizando perfis mais moderados.

 

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP, consultor político e de comunicação - Twitter@gaudtorquato>

Mais análises no blog www.observatoriopolitico.org

Governar com o parlamento

Avaliação do Usuário

O objetivo da política, dentro do preceito aristotélico, é a busca incessante do bem comum. E para alcançar esse ideal, nos termos que ensina Maquiavel, a política carece que seus participantes lutem para conquistar o poder. Só assim terão condições de suprir as demandas e expectativas sociais. Sob essa lição, os representantes políticos agem no sentido de prover meios, instrumentos e condições necessárias para realizar promessas feitas junto às bases que os elegeram, por sufrágio universal, para compor a moldura representativa.

O orçamento impositivo, objeto da PEC aprovada terça-feira por votação maciça na Câmara, é um dos desses instrumentos. Difere do orçamento autorizativo, porquanto este permite ao Executivo dispor livremente sobre o grau de execução das despesas constantes do orçamento, consistindo no contingenciamento das dotações ou retenção de recursos do caixa do Tesouro. (Não há interpretação conclusiva sobre o texto aprovado; uma emenda teria mudado a “execução obrigatória das disposições orçamentárias”).

O argumento é o de que o Executivo reavalia periodicamente as contas públicas, podendo reprogramar os gastos dentro do calendário. Já o orçamento impositivo proíbe ao governo tal possibilidade, impedindo contingenciamento de verbas, cortes e reprogramação orçamentária. Dessa forma, teremos um orçamento mais transparente e condizente com maior participação da sociedade no processo decisório.

Em suma, o que está dentro do orçamento impositivo será executado. Inclusive os recursos destinados por parlamentares para programas e obras em suas bases eleitorais.

A aprovação do orçamento impositivo se faz necessária sob a perspectiva de conferir ao Poder Legislativo as condições para que possa agir como ente governativo. Nesse ponto, convém lembrar que governar não é um exercício que compete apenas ao Poder Executivo. Os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário integram o sistema governativo.

Por conseguinte, cabe ao Legislativo participar da estrutura governamental. Se um partido ganha a eleição tem legitimidade para indicar quadros para a administração. Esse é um ponto pouco esclarecido e gerador de conflitos e dissonâncias.

Executivo e Legislativo vivenciam um estado de tensão, provocado pela disposição do presidente em não aceitar o que chama de “jogo de recompensas”, o toma lá dá cá, prática consolidada do nosso presidencialismo de coalizão. Erra Bolsonaro quando atribui essa situação à velha política. A “nova política” que ele defende com expressão dura não é nova e não se inspira pelo ideal aristotélico do bem comum.

O então deputado Bolsonaro passou 27 anos na Câmara Federal, integrava o chamado “baixo clero” e mistifica quando se apresenta como ícone da renovação política. Não se muda uma cultura por decreto ou vontade unilateral do presidente. O jogo de poder no Brasil, jogado desde os tempos coloniais, abarca o costume de inserção de quadros de partidos políticos na malha administrativa.

O que tem ocorrido, isso sim, é o abuso nessa prática, com infiltração de desqualificados nas administrações – federal, estadual e municipal. Muitos deles foram ou agem como fontes de corrupção. Que a sociedade, tão submetida a escândalos nos últimos anos, queira filtrar o processo – é um anseio compreensível. Mas nenhum governo tem condições de governar sem o apoio do Parlamento. Isso precisa ficar claro. Collor fechou as comportas de diálogo com o Congresso. Deu no que deu. Dilma desprezava políticos. Deu no que deu.

Por isso mesmo, Sua Excelência, o presidente Jair, precisa se convencer que não fará uma administração eficiente sem o engajamento da representação parlamentar. Como um veterano como ele pode pensar diferente? Não se trata de cooptar deputados e senadores com “mesadas”, como se viu na época do mensalão. Trata-se de dar vazão ao sistema governativo, do qual faz parte o Legislativo. São os membros da representação parlamentar que dão apoio e sustentação aos governos.

A oxigenação da vida pública se faz a conta gotas. E leva em consideração a indicação de nomes respeitados, técnicos ou mesmo políticos capacitados a exercer com alta competência sua missão.

O que importa é fechar os buracos que propiciam corrupção. Como é sabido, a dilapidação da coisa pública é um fenômeno inerente a todos os regimes políticos, mas nas culturas políticas subdesenvolvidas ganha maior espaço.

Sem essa compreensão, a crise política ameaça inviabilizar a administração. Que, ainda na decolagem, dá a impressão de que, sob intenso nevoeiro, impede ver os horizontes.

 

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP, consultor político e de comunicação - Twitter@gaudtorquato>

A liturgia no brejo

Avaliação do Usuário

Um presidente deve separar o público do privado

 

(por Gaudêncio Torquato*)

 

Tem motivos o presidente da República para se indignar com uma cena escatológica, dessas que assustam o interlocutor que a ela teve acesso? Sim, a indignação é uma reação natural a quaisquer atitudes ou cenas que fogem ao senso comum e que, pelo inusitado dos fatos nelas descritos, entram no dicionário das aberrações. Tem motivos o mandatário número um do país para passar adiante a cena que tanto o indignou, massificando a imagem junto a mais de 3,4 milhões de seus seguidores em uma rede social? Não.

Jair Bolsonaro espalhou junto ao contingente que o segue em uma das redes sociais o vídeo em que um homem dança sobre um ponto de ônibus após introduzir um dedo no próprio ânus, seguido de outra cena em que um deles abre a calça e urina na cabeça do outro. Sob o argumento de “expor a verdade” à população, acentua: “É isto que tem virado muitos blocos de rua no Carnaval brasileiro”.

A atitude do capitão reformado gera inconvenientes. Permite a milhares de seguidores, entre os quais jovens, acesso a um vídeo que não teria sido visto por eles. Que impacto a imagem causaria a esse público?

Usar o Twitter como meio oficial de transmissão de informações, diretrizes e interpretação pessoal sobre o cotidiano constitui uma decisão incompatível com a posição de um dirigente de nação.

O poder, como se sabe, é exercido por um conjunto apreciável de mandatários e participantes das estruturas do Legislativo, do Executivo e do Judiciário. Todos integram a esfera governativa, mas o comandante do Poder Executivo é quem detém o cargo de maior proeminência. Guia-se por um liturgia, um exercício que o obriga a cumprir ritos, cerimônias e atos variados, não podendo a eles escapar sob pena de gerar desvios na rota que lhe é imposta.

O presidente da República tem que obedecer a essa liturgia, evitando comportamentos comuns dos cidadãos. Mesmo situações identificadas com o caráter do mandatário —por exemplo, sair às ruas, fazer feira, ir a jogos de futebol —hão de ser intensamente controladas para evitar transtornos que possam desfigurar a liturgia do poder.

A ele impõe-se separar a seara privada do território público. Não pode fazer com que sua visão peculiar do cotidiano seja transformada em política pública. Esse é o entrelaçamento que o presidente Jair não tem sabido distinguir. Se queria fazer uma denúncia, ao veicular o vídeo da “golden shower”, poderia ter pedido providências aos órgãos de policiamento, inclusive com a identificação dos autores da “façanha”.

Ao não traçar uma fronteira entre os campos público e privado, o presidente ingressa num cipoal de críticas. Tomar a parte pelo todo dribla a análise. Pois o Carnaval deste ano foi o mais cheio de gente nas ruas dos últimos tempos, a par de resultados que se mostram: 20 milhões de empregos temporários e R$ 7 bilhões nas contas do comércio e dos serviços.

Com seu gesto Bolsonaro acirra ânimos ainda nervosos do pleito passado, contribuindo para o tiroteio entre exércitos favoráveis e contrários. O Brasil pós-Carnaval, é pena, sobe ao palanque.

*Jornalista, professor titular da USP e consultor político