Porandubas Políticas 4277

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Abro a Coluna com a graça do Piauí

Dois vereadores da Arena de Parnaíba/PI. Um, da Arena de Petrônio Portela, o outro da Arena de Alberto Silva. Inimigos políticos. Um, dentista, pôs os dentes na boca do outro. Na primeira sessão, os dois brigaram:

- V. Ex.ª é um desonesto.

- Desonesto é você, filho de uma... Devolva meu dente. Pois fui eu que pus.

- Eu paguei, seu sacana.

- E daí que pagou? Falar mal de mim, até pode. Com meu dente, não.

Partiu pra cima. E arrancou os dentes. Sem anestesia.

A nova Carta

Pois é, Luiz Inácio está encomendando a um grupo de economistas e assessores uma nova Carta aos Brasileiros, nos moldes do documento que apresentou em 2002, com a grande ajuda do amigo de então, Antônio Palocci. O objetivo é o mesmo: acalmar o mercado. Pelo menos nesse aspecto, a senadora Gleisi, presidente do PT, não blefa. A carta está sendo confeccionada e vai apontar os rumos da economia em um eventual novo governo petista. O problema é a credibilidade. Diminui sensivelmente no meio da sociedade o número daqueles que botam fé em Lula.

As margens

O discurso lulista continua a ter fortes influências nas margens. Que consideram todos os políticos iguais, com a diferença de que Lula teria lhes dado um cobertor social longo. A pior recessão da história brasileira passa longe do sistema cognitivo das massas. Ao correr da campanha, caso Lula seja confirmado candidato, é possível que parcela das margens seja induzida pela força dos círculos concêntricos, essas ondas que saem do meio, formando marolas até as margens. Ou seja, o aparato discursivo anti-PT será intensificado ao correr da campanha. E a tuba de ressonância tende a ser tocada por núcleos do centro da sociedade.

Lula na urna

Para muitos brasileiros, seria mais útil para a democracia que Lula fosse candidato. Se for impedido, circulará por bom tempo no território a ideia de que Luiz Inácio foi impedido. Uma derrota nas urnas é mais provável que eventual vitória. A considerar a hipótese de melhoria do bem-estar de vida da população, a partir do resgate da economia. Já o cenário de uma vitória do lulopetismo teria como eixo a economia em frangalhos, sob ecos do desespero social. Tudo é possível. Acompanharemos essa trajetória de perto até outubro.

A pressão em Porto Alegre

Não se justifica o estardalhaço que o PT está organizando para pressionar os juízes do TRF da 4ª Região. A democracia pressupõe o jogo dos contrários, as manifestações contra e a favor de Lula. Mas há um limite para tais manifestações. A ordem pública tem de ser mantida. A segurança da população há de ser garantida. Ameaçar juízes, como se tem feito, é um expediente de regimes autoritários. Pior, ainda, é prever "morte", "assassinatos", em caso de eventual prisão de Luiz Inácio. Foi isso que anunciou a senadora Gleisi Hoffmann, do alto de seu cargo de presidente do PT. Menos, senadora, menos.

Maquiavel

Uma de suas lições: "Um príncipe precisa usar bem a natureza do animal; deve escolher a raposa e o leão, porque o leão não tem defesa contra os laços, nem a raposa contra os lobos. Precisa, portanto, ser raposa para conhecer os laços e leão para aterrorizar os lobos." Arremata: "não é necessário ter todas as qualidades, mas é indispensável parecer tê-las."

O oposicionismo na eleição

Os candidatos classificados como de "oposição" aos atuais governantes dos Estados exibem uma extraordinária vantagem: apresentam-se como alternativa às más e péssimas administrações. Só isso lhes confere uma posição melhor. E se forem símbolos do novo, perfis não contaminados pelo vírus da velha política, aumentarão ainda mais as chances. Cofres vazios, funcionários públicos com salários atrasados, greves de polícias, assaltos em profusão deixando a população amedrontada - constituem o pano de fundo que acolherá o pleito deste ano. Mas os candidatos da oposição precisam ser confiáveis. Não serão eleitos apenas com o verbo de destruição do adversário.

O discurso político

Costumo bater nesta tecla. Muita gente se engana com a eficácia do discurso político. Pois bem, o discurso político é uma composição entre a semântica e a estética. O que muitos não sabem é que a eficácia do discurso depende 7% do conteúdo da expressão e 93% da comunicação não verbal. Esse é o resultado de pesquisas que se fazem sobre o tema desde 1960. E vejam só: das comunicações não verbais, 55% provêm de expressões faciais e 38% derivam de elementos paralinguísticos - voz, entonação, gestos, postura, etc. Ou seja, do que se diz, apenas pequena parcela é levada em consideração. O que não se diz, mas se vê, tem muito maior importância. Portanto, senhoras e senhores que encenam peças no programa eleitoral, anotem esta informação.

O perfil do empresário

O perfil do empresário moderno, arrojado e empreendedor, entra com muita naturalidade no figurino do atual pleito. É visto pelo eleitor como alguém que fez e faz sucesso, não está contaminado com o sangue da velha política, e pode, nessa condição, emprestar sua experiência para redimir o Estado, resgatando sua força. O momento do empresário é esse: se o cavalo passar encilhado à sua porta, você, empreendedor com esse perfil, monte nele. E faça boa viagem. Chegará bem a seu destino.

O estrategista na campanha

Dinheiro curto, campanha menor - proibição de doação de recursos por empresas, tempo de campanha de 90 dias nas ruas para 45 dias e de 45 dias no rádio e TV para 35 dias - sugerem a realização de uma campanha racional, focada em prioridades, concisão e precisão no discurso (propostas), intensa articulação social. Esqueçam aqueles filmetes cinematográficos, de belo efeito visual. Não haverá espaço para engodo. O marqueteiro tradicional cederá lugar ao estrategista.

Marketing resgata identidade

Graças à crise, o marketing eleitoral se reencontra com sua verdadeira identidade. Que é formada por cinco eixos; pesquisas (quanti/quali), discurso, comunicação, articulação e mobilização. Os publicitários da era de Duda Mendonça estão dando adeus. Fizeram, vale reconhecer, celebradas campanhas de publicidade - criativas, sem dúvida. Mas os tempos de hoje exigem mais condimentos, outras engrenagens. Marketing eleitoral não se resume a programas de rádio e TV. Ufa! Viva a crise.

Redes sociais

As redes sociais terão papel muito forte na campanha eleitoral. Serão muito acessadas, principalmente na esteira do tiroteio verbal que, aliás, já começou. As redes serão inundadas de fake news. A mentira, a deturpação, o engodo, a mistificação, enfim, situações tendenciosas serão massificadas. O jurídico das campanhas deve ficar atento para as notícias sobre seus candidatos. Convido, desde já, as equipes de plantão e os milhões de internautas a não se deixarem levar pela falsidade.

Feminismo exacerbado

Nos últimos tempos, têm explodido denúncias de assédio sexual envolvendo personalidades do mundo artístico. Urge saudar esses tempos de expressão feminina contra os abusos masculinos. A atriz Catherine Deneuve teve a coragem de fazer um artigo onde defende a liberdade do homem de paquerar. Foi execrada. O fato é que o mundo feminino, ao que parece, divide-se entre mulheres que defendem o feminismo exacerbado e mulheres que enxergam certo exagero nas denúncias. A situação abre muita polêmica. O bom senso haverá de prevalecer. Não se pode confundir uma paquera com assédio. Ou será que este consultor perdeu as estribeiras?

CNJ e leis inconstitucionais

Por falar em polêmica, abriu-se uma, recentemente, que tem por base a decisão do STF de permitir ao Conselho Nacional de Justiça que não aplique leis que considere inconstitucionais. A tese foi definida pelo Supremo Tribunal Federal, por unanimidade, na última sessão do Plenário de 2016, mas o acórdão só foi publicado em dezembro de 2017. A ministra Cármen Lúcia, relatora do caso, permitiu que o Conselho Nacional de Justiça reconheça inconstitucionalidade de leis ao analisar situações específicas. Em seu voto, ela disse que deixar de aplicar uma norma por entendê-la inconstitucional é diferente de declará-la inconstitucional, algo que só pode ser feito pelo Judiciário. Órgãos de controle administrativo têm o "poder implicitamente atribuído" de adotar essa prática. Cármen citou o CNJ, o Conselho Nacional do Ministério Público e o Tribunal de Contas da União.

Vitória das extremidades?

Este consultor tem refletido bastante sobre uma questão recorrente nos debates de que tem participado. Afinal, é possível termos, este ano, a vitória de alguém das extremidades do arco ideológico, Lula ou Bolsonaro? Confesso que vejo o fortalecimento de correntes que não fecham com perfis das margens. Sob essa observação, seria mais viável a vitória de um perfil que transite pelo espaço de centro-direita ou centro-esquerda. As margens não fariam maioria. Mesmo assim, coloco em ênfase a relatividade das coisas no campo da política. Ou seja, o imponderável frequenta nosso meio com certa frequência.

Reversão de expectativas

Outra questão para a qual chamo a atenção é: a renovação no Parlamento será grande? Respondo: paradoxalmente, não. Explico: menos recursos, campanhas mais curtas (de rua e de tempo de rádio e TV), favorecem quais perfis? Os já conhecidos. Ou seja, é mais provável que os atuais parlamentares, na condição de candidatos, sejam reeleitos. Em 1990, a renovação se deu por volta de 63%. Este ano, projeto uma renovação abaixo da média histórica: apenas de 40%. A conferir.

Fecho a Coluna com uma historinha do Espírito Santo.

Robô do prefeito?

Na Câmara Municipal de Mimoso do Sul (ES), Luiz Carlos da Silva, líder do MDB, discutia com Jaime da Rocha Nogueira, líder do PDS, por causa do prefeito Pedro Costa, também do PDS. Luiz Carlos atacava o líder do prefeito:

- V. Exa. é um teleguiado, sem personalidade. Só cumpre ordens.

- Sou líder. E o líder tem de dizer o que o Executivo pensa.

- Critico o comportamento de V. Exa., por ser um homem de recados, robô do prefeito.

- Senhor vereador, até agora discutia com V. Exa. porque não me sentia agredido. Agora, V. Exa. vai ter de provar a esta Casa quando é que eu roubei o prefeito.

A sessão acabou.

Porandubas Políticas n. 4240

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Suavemente...

José Maria Alkmin (sem o C do Alckmin de São Paulo), o sábio das Minas Gerais, foi advogado de um crime bárbaro. No júri, conseguiu oito anos para o réu. Recorreu. Novo júri, 30 anos. O réu ficou desesperado:

- A culpa foi do senhor, dr. Alkmin. Eu pedi para não recorrer. Agora vou passar 30 anos na cadeia.

- Calma, meu filho, não é bem assim. Nada é como a gente pensa da primeira vez. Primeiro, não são 30, são 15. Se você se comportar bem, cumpre só 15. Depois, esses 15 são feitos de dias e noites. Quando a gente está dormindo tanto faz estar solto como preso. Então, não são 15 anos, são 7 e meio. E, por último, meu filho, você não vai cumprir esses 7 anos e meio de uma vez só. Vai ser dia a dia, dia a dia. Suavemente.

(Sebastião Nery conta a historinha em seu Folclore Político).

Conferência da Advocacia

O maior evento da Advocacia brasileira. É a XXIII Conferência Nacional da Advocacia, que se realiza em São Paulo, no Anhembi, após quase 50 anos do último evento na nossa metrópole. Cerca de 30 mil inscritos. Presenças de figuras expressivas da operação do Direito, a partir da presidente do STF, ministra Cármen Lúcia e dos ministros do Supremo, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes, além do ministro Emmanoel Pereira, vice-presidente do TST, representando a Corte. O presidente da OAB/SP, Marcos da Costa, fez peroração destacando a história de lutas da Ordem e as bandeiras levantadas pelos advogados, a partir das prerrogativas profissionais.

Huck desafoga o meio

A decisão do empresário-animador Luciano de desistir de candidatura presidencial em 2018, sonho de alguns partidos, desafoga o meio do espectro ideológico. Como se sabe, nas pontas, dois cavalos de corrida já abriram o páreo: Lula e Bolsonaro. No centro, Geraldo Alckmin prepara-se para ser protagonista de proa. Esse espaço ainda pode ser disputado por Marina Silva, Ciro Gomes, o senador Álvaro Dias, o outsider Joaquim Barbosa, eventualmente Henrique Meirelles e outros que tendem a adensar o grupo. O fato é que Huck era, até a última segunda, o nome mais ventilado. Com sua saída, Alckmin terá a candidatura vitaminada.

Checando as possibilidades

O problema que Geraldo Alckmin enfrentará é a conhecida tendência do PSDB de subir ao muro. Trata-se de um partido cercado de indefinições. E muita vaidade. De muitos caciques. Digamos que o governador de São Paulo tenha condições de unir as duas alas em briga: a do senador Tasso Jereissati e a do governador Marconi Perillo. Mesmo assim, grande desconfiança paira sobre o próprio governador. Ele trabalhou nos bastidores pela saída dos tucanos do governo Temer. E ficou na moita em matéria de posicionamento da bancada sobre a reforma da Previdência. Teria ficado mudo. Como disporia ele de condições para lutar por uma aliança com o PMDB?

Minutos essenciais

O PMDB disporá do maior tempo de TV e rádio na programação eleitoral. Esse espaço será vital para a massificação do nome dos candidatos e de suas propostas. O partido, mesmo execrado, é cobiçado para fazer alianças. Não se sabe quais serão seus passos: uma ala do partido defende candidatura própria; outra ala pensa em fazer aliança com um candidato do centro, podendo até ser Geraldo Alckmin. Se a economia ganhar muito fôlego, haverá pressão para que o próprio Michel seja o candidato. O fato é que o PMDB se esforçará para unir todos os partidos que integram o centrão, a partir do DEM, que possui um nome de grande potencial: Rodrigo Maia, o presidente da Câmara.

A economia ditará o rumo

A economia ditará o rumo a ser seguido. Por isso, não serão fechados acordos antes de maio/junho. Até lá se verá para onde irá a locomotiva econômica. Descarte-se qualquer aceno do PMDB em relação a Marina, Ciro, Joaquim Barbosa, Bolsonaro, Manuela D'Ávila, Álvaro Dias e outros. E Lula? Pois é, o PMDB pragmático será capaz de apoiar eventual candidatura de Lula, como já acenaram Renan Calheiros, em Alagoas, e até Ciro Nogueira, presidente do PP, no Piauí. Lula tem um exército de eleitores no Nordeste. E se a posição do PMDB nacional fechar questão contra eventuais apoios regionais a Lula? Esse será mais um pomo de discórdia.

Ninguém tem provas...

Numa festa, a dona de casa recebe um político famoso.

- Muito prazer! - diz ele.

- O prazer é meu! Saiba que já ouvi muito falar do senhor!

- É possível, minha senhora, mas ninguém tem provas.

Maia subindo

Rodrigo Maia está se saindo muito bem como presidente da Câmara. Articula bem, conversa com gregos e troianos, sabe lidar com correligionários e opositores. Poderia ser o nome de consenso entre os partidos do meio. Mas Rodrigo receia arriscar-se. Prefere uma candidatura certa a deputado Federal que a vaga possibilidade de ganhar o assento presidencial. E o governo do Rio de Janeiro? Na situação em que se encontra o Rio, não será interessante sentar na cadeira de governador. Como presidente da Câmara, teria mais força e visibilidade. Mas o pai, o vereador César Maia, até veste bem o figurino de candidato. Seria uma boa composição.

Michel quer pacificar

Já a intenção de Michel Temer é a de ser reconhecido como o presidente das reformas e o dirigente que pacificou o país, após o terremoto da era petista. Não cogita candidatura presidencial, até porque quer atuar como magistrado na busca do entendimento e do consenso entre os partidos do centro. E se a economia bombar em 2018? Essa é uma recorrente pergunta. Os correligionários poderiam fazer enorme pressão para jogá-lo na corrida. Mesmo assim, seria pouco provável que aceitasse. Mas como a política é a arte do imprevisível, tudo pode acontecer.

Barbosa

Joaquim Barbosa parece muito envaidecido com a possibilidade de vestir o manto de candidato a presidente. Mas, à moda Huck, deve rejeitar a hipótese. Enfrenta problema de coluna - que lhe causa dores - e hoje está confortável no papel de ex-presidente do STF, paparicado em todos os lugares. Deixar essa situação de conforto e optar pela luta política poderia ser má opção. Este consultor não aposta na candidatura de Joaquim Barbosa.

Marina, a Santa

Marina Silva continua etérea, cercada por ares puros e éticos. Mas ainda assim, não teria estrutura - porte, tamanho, fortaleza, tempo de TV, etc. - para sustentar uma campanha pesada. A impressão é a de que lhe faltaria oxigênio para chegar aos últimos 500 metros da corrida. Por isso, poderá ser uma candidata respeitada e admirada, com boa bacia de votos, particularmente de segmentos jovens. Mas sem chance de sentar na cadeira presidencial.

Ciro, o Canhão

Trata-se de um sujeito preparado, falante, destemido. Mas diz o que pensa e um pouco mais. E essa condição lhe subtrai muito voto. Ciro sofre da síndrome do touro: pensa com o coração e ataca com a cabeça. Por isso, se sairá bem nos debates eleitorais entre candidatos, mas será visto com desconfiança por parte de parcela ponderável da sociedade. Fará bonito no Nordeste, onde circula com desenvoltura.

Álvaro e Manuela

O senador Álvaro Dias tem imagem muito regional. Confina-se no Paraná. E seu novo partido, o Podemos, não terá cacife para "poder" alçá-lo a um patamar elevado nas pesquisas. Quanto a Manuela D'Ávila, trata-se de perfil simpático. Encarna o poder jovem. Mas seu PC do B é limitado. Sua imagem também é muito regional (RS).

E Meirelles, hein?

Henrique Meirelles teria chances? Primeiro, vale dizer que o homem é pesado. Não tem um pingo de carisma. Fala de maneira arrastada, como se estivesse com dificuldade de concluir o pensamento. Mas vai que a economia dê um enorme salto... Se isso ocorrer, poderá surgir na frente dele um cavalo corredor. Milagres acontecem. E, na política, o imponderável nos faz visita de tempos em tempos.

Bolsonaro emplaca?

Tudo é possível. Meu amigo Lavareda, perito nas pesquisas e um grande pesquisador da "alma brasileira", acentua que "o posicionamento dele é bom". Concordo que o deputado Jair Bolsonaro se aproveita das circunstâncias. Do Brasil que clama por ordem, disciplina, autoridade. Bolsonaro encarna esse espírito. Só que precisamos verificar o que irá ocorrer: terá tempo disponível de mídia para massificar sua pregação? Não será canibalizado por protagonistas com maior poder midiático? Não será destroçado em debates? Terá tranquilidade suficiente para responder às inquietantes indagações que certamente lhe serão feitas?

Lula e seu bolsão

Seja ou não candidato, Lula terá bom quinhão de votos. Poderá ajudar candidatos majoritários em alguns Estados. Se for condenado em 2ª instância, abrirá a polêmica: "não querem deixar que seja candidato". A novela Lula terá muitos capítulos por todo o ano de 2018. O PT continuará na linha do ataque. E suas bandeiras vermelhas tenderão a amimar os exércitos contrários. As batalhas não serão poucas.

O poder midiático

A campanha de 2018 será ainda balizada por eventos da Lava Jato. Quer dizer, eventuais competidores poderão ter seus nomes ventilados, aqui e acolá, ao sabor das investigações e consequentes denúncias. Por isso, é possível que tenhamos altos e baixos nas intenções de voto. A corrida eleitoral, cheia de tropeços, poderá até desestabilizar grandes protagonistas. Os desfechos serão imprevisíveis.

Baixo astral

Os atores do circo eleitoral estarão submetidos, ainda, à avaliação dos eleitores. Governadores mal avaliados deverão perder a reeleição, a não ser que os adversários façam parte da velha política; senadores e deputados, da mesma forma, serão vistos como continuidade ao tradicional sistema. Candidaturas novas terão melhores condições de desempenho. O discurso será importante: o que prometer e como viabilizar as promessas.

Pesquisa qualitativa

Para conhecer bem o que pensa o eleitor, a indicação é a pesquisa qualitativa. Grupos bem escolhidos e representativos do colégio eleitoral poderão mostrar o que pensam, como pensam, expectativas, anseios, angústias, indignação, esperanças. Os candidatos precisam mergulhar fundo na consciência coletiva.

Peru não morre de véspera

A eleição de um candidato depende do momento, das circunstâncias, da temperatura social, dos versos e reversos da economia, do perfil dos adversários, dos debates e combates na arena eleitoral, dos climas regionais, da força da mídia eleitoral (significando tamanho dos programas eleitorais), dos inputs momentâneos (uma crise abrupta, um caso espetaculoso) - enfim, de uma escala de elementos ponderáveis e imponderáveis. Os fatores imprevisíveis abrem as possibilidades. Única verdade: peru não morre de véspera.

A viabilidade de candidatos

Carlos Matus, cientista social chileno, em um magistral estudo sobre Estratégias Políticas, demonstra que a viabilidade de um ator na política tem a muito que ver com a estratégia e seus princípios fundamentais. Eis alguns princípios estratégicos: a) Avaliar a situação; b) Adequar a relação recurso/objetivo; c) Concentrar-se no foco; d) Planejar rodeios táticos e explorar a fraqueza do adversário; e) Economizar recursos; f) Escolher a trajetória de menor expectativa; g) Multiplicar os efeitos das decisões; h) Relacionar estratégias; i) Escolher diversas possibilidades; j) Evitar o pior; k) Não enfrentar o adversário quando ele estiver esperando; l) Não repetir, de imediato, uma operação fracassada; m) Não confundir "reduzir a incerteza" com "preferir a certeza"; n) Não se distrair com detalhes insignificantes; o) Minimizar a capacidade de retaliação do adversário.

Fecho a coluna com uma historinha de Tenório Cavalcanti.

Armado de admiração

Tenório Cavalcanti, udenista e adversário político de Vargas, foi ao Catete numa comissão de deputados. Andava nas manchetes dos jornais por causa de suas estripulias em Caxias, na base da "Lourdinha" (metralhadora) e da capa preta. Getúlio o cumprimentou, olhou bem para o volume do revólver embaixo do braço esquerdo, sob o paletó:

- Deputado, o senhor está armado?

Tenório ficou vermelho, mas não perdeu o bote:

- Sim, presidente, armado de admiração por V. Excelência.

Porandubas Políticas n. 4239

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Abro a coluna com uma historinha cheia de graça que presenciei e que envolve o grande e saudoso governador Franco Montoro.

Agrário e urbano

Franco Montoro ficou famoso pela troca de nomes que fazia. Há muitas histórias envolvendo essa modalidade de dislexia ou dislogia. Uma delas ocorreu comigo, no restaurante dos professores no campus da USP. Montoro havia sido convidado por um grupo de professores para fazer uma palestra sobre o Brasil e a América Latina, dentro do fórum de debates que desenvolvia na Fundação que criou e dirigiu. Certo momento, ao falar do RN, meu Estado, ele passou a se referir a nomes de amigos comuns e conhecidos. Foi quando, de repente, depois de vários acertos, ele me pega de surpresa com a indagação:

"E o Agrário, como vai o Agrário"?

Respondi: "Agrário, governador, não sei quem é, não me lembro...".

Comecei a mapear os nomes de pessoas famosas. Aí lembrei-me de um nome: Urbano. E repus a pergunta:

"Por acaso, governador, não é Urbano, Francisco Urbano"?

Era. Na época, Urbano dirigia a Contag - Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura. Daí a confusão. Em respeito ao grande homem público, contive a risada!

A política avança

A articulação política ganha volume à medida que os protagonistas - partidos e lideranças - veem aproximar-se o tempo de grandes decisões voltadas ao pleito de 2018. Alguns movimentos deixam ver passos e sinais. À direita, sobe o tom da candidatura Bolsonaro, que abre um leque de conversações com lideranças e faz peregrinação em alguns países (até nos EUA) tentando se mostrar ao mundo. À esquerda, Lula se apresenta como o eixo que gira a máquina petista e seu entorno, o PC do B, o PSOL, parcela do PSB e outras pequenas fatias. No centro, a movimentação tem dois grandes articuladores, o presidente Michel Temer e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Cada área está querendo ver além do horizonte.

À direita

O deputado Bolsonaro começa a se desfazer de adjetivos que o tornam canhão amedrontador. E ensaia um discurso liberal como forma de agradar ao mercado. Mas suas peripécias discursivas não serão esquecidas. Negocia entrada no Patriota, que faz uma limpeza de área nos Estados para colocar nomes confiáveis e comprometidos com o deputado. Como é, hoje, o único nome com grande visibilidade na direita, torna-se o principal bastião contra Lula. Doria perde essa condição em face da quase certeza que Alckmin deverá ser o candidato do PSDB.

À esquerda

Luiz Inácio é um caixeiro-viajante. Corre o mundo. Faz-se presente aqui e ali, inclusive em atos de lançamento de candidaturas de outros partidos. Foi assim que se fez presente no Congresso do PC do B, em Brasília, quando foi lançado o nome da deputada estadual Manuela D'Ávila à presidência da República. Manuela fez, naquele evento, a defesa de Lula, dizendo que é condenado sem provas. O objetivo fica claro: união de PT e PC do B em eventual segundo turno. O PSOL, por sua vez, mapeia os quadros para decidir se sai com Lula ou com candidatura própria. A questão esbarra na hipótese: se o candidato for um parlamentar (Chico Alencar, Marcelo Freixo ou outro), enfrentará a ameaça de perder a condição de deputado em 2018. Afinal, este partido não tem capital eleitoral para eleger um presidente.

No centro

Os partidos do centro precisarão de muito esforço de seus articuladores para chegar a um consenso. A ideia que passa pelas cabeças de suas lideranças é a de formar um amplo espaço central, acolhendo PMDB, DEM, PP, PTB, PRB, Podemos, etc. - e escolher um nome capaz de aglutinar no centro pedaços da esquerda e da direita. Esse perfil canalizaria os esperados bons feitos do governo, a partir da economia com números saudáveis - inflação de 2,5%, Selic de 7%, emprego crescendo, setores primário, secundário e terciário com bons dados de crescimento, PIB podendo chegar a 1,5. Quem será o nome?

PSDB com dificuldades

O PSDB caminha na direção de Geraldo Alckmin. Mas entrará com força diminuída no pleito. A pendenga aberta por Tasso Jereissati e os cabeças-pretas (deputados mais jovens) contra o governo deixa sequelas. Há visível contrariedade de peemedebistas e outros partidos da base em relação aos tucanos, sob a hipótese, que ganha corpo, de que o PSDB não será apoiado pelo PMDB e outros. Nesse caso, preciosos minutos de rádio e televisão seriam perdidos pelo PSDB, arrefecendo a visibilidade de seu candidato na campanha. Alckmin não saiu bem na fita do afastamento do PSDB do governo.

E Doria?

João Doria se afasta um pouco da guerrilha que se trava hoje entre grupos tucanos para se dedicar com mais afinco à administração. Foi criticado pelas viagens que fez aos Estados. Mesmo assim continua a ser um player forte no campo eleitoral. Trata-se de um perfil determinado. Se perceber que tem chances, não se descarta a possibilidade de sair como candidato por outras siglas, a partir do próprio PMDB. João mantém excelente relacionamento com o presidente Temer. O recuo de hoje, portanto, faz parte do jogo. Fala-se, ainda, da possibilidade de vir a ser candidato a vice na chapa de Geraldo Alckmin ou ao governo do Estado. Este consultor descarta essas alternativas, eis que será praticamente impossível uma chapa puro-sangue paulista ou uma candidatura ao governo de SP, coisa que aumentaria o racha na floresta tucana.

E Huck?

Luciano Huck está sendo paparicado por alguns partidos, a partir do PPS comandado por Roberto Freire. Poderá ser uma candidatura viável em 2018? Sim. Na política, tudo é possível, principalmente levando-se em consideração a indignação social contra os políticos tradicionais. Acontece que os palanques eleitorais são bem diferentes dos palcos de animação de programas de auditório. E se Huck não dispuser de tempo de TV para massificar suas ideias? Este consultor não acredita na viabilidade político-eleitoral do empresário Luciano Huck. Mas deixa no ar a famosa lição: em política, tudo é possível.

E Moro?

Pois é, o Instituto Paraná Pesquisas acaba de mostrar uma pesquisa dando conta do bom potencial do juiz Sérgio Moro. Teria ele melhores condições de que Huck, mais precisamente 35,5%, caso fosse o candidato. A mesma pesquisa diz que pouco mais da metade dos brasileiros votaria em um candidato estreante na política.

Voltando a Lula

Lula fará das tripas coração para tentar viabilizar sua candidatura. Usará todas as brechas possíveis para conseguir sua meta, a partir da sinalização de que só uma condenação transitada em julgado, na terceira instância, o impediria de seguir o caminho. Seja qual for o desenlace, Lula será o principal semeador na roça eleitoral das esquerdas. É exímio em palanque, dá nó em ponta de faca. Vai atribuir o desemprego ao atual governo. E queimará as reformas do governo Temer, mesmo diante de números que mostram o Brasil entrando nos trilhos. Este consultor tende a acreditar que Luis Inácio deverá esquentar o clima eleitoral, seja como candidato seja como fogueteiro.

Voltando ao centro

Os partidos do centro chegarão ao consenso em torno de um nome ou tendem a ir à luta com seus quadros? Esse é o x da questão. Unidos, poderão ir longe; desunidos, abrirão espaço para a chegada ao segundo turno do candidato da esquerda ou o candidato da direita. A hipótese do candidato da esquerda chegar ao segundo turno é mais provável que a chegada de um candidato da direita. Mais viável seria a chegada do candidato do centro. Claro, caso os partidos do bloco não se dividam.

Temer e Maia

O presidente Michel Temer e o presidente Rodrigo Maia estão afinados. Temer ouve muito Maia, que teria endossado o nome de Alexandre Baldy para o Ministério das Cidades. A hipótese também é viável: sob apoio do presidente da Câmara, é possível se chegar aos 308 votos necessários para a aprovação da reforma da Previdência na primeira quinzena de dezembro. Caso aprovada, ganharia o aplauso do mercado. Em 2018, (Eunício quer votar apenas em março) seria votada no Senado. Se os dados da economia mostrarem boa recuperação do país, certamente a tendência dos senadores seria de aprovação da matéria. E se isso ocorrer, o presidente da República será um grande eleitor no pleito de 7 de outubro.

Imbróglio está no ar

O TRF da 2ª região mandou prender novamente o presidente da Alerj, Jorge Picciani, e mais os dois deputados do PMDB que estavam presos. O imbróglio está no ar. O que acontecerá? E se a Assembleia voltar a contrariar a Justiça? E se o caso bater no STF? Diz-se que não está fora de cogitação intervenção na Casa Legislativa. O fato é que a brecha aberta pelo STF no caso Aécio Neves está produzindo denso contencioso. A palavra final será a da nossa mais Alta Corte.

A força do Nordeste

O Sudeste concentra mais da metade do eleitorado brasileiro. Geraldo Alckmin confia muito na boa avaliação dos paulistas ao seu governo. Só São Paulo tem 35 milhões de eleitores. Mas o Rio e Minas Gerais serão dois polos fortes de oposição. Dito isso, surge o voto nordestino. Será decisivo. O NE tem 27% dos votos do país. Daí a busca frenética do nome do vice na região. Alckmin procura um nome do Nordeste. Quem? Um quadro de respeito é o deputado Jarbas Vasconcelos, do PMDB de Pernambuco. A questão é: como o PMDB encararia esta escolha? O deputado tem lastro e história.

AT&T/Times Warner

O Departamento de Justiça dos EUA ajuizou ação na segunda-feira para anular a compra pela AT&T da Time Warner, dona dos estúdios Warner Bros e das redes de TV HBO e CNN. O movimento foi classificado como incomum por especialistas do setor, uma vez que o acordo entre as duas empresas, de US$ 85 bilhões, foi anunciado há mais de ano. A AT&T é operadora de telefonia e provedora de TV a cabo e internet móvel e fixa. No Brasil, tem participação na TV por assinatura Sky. O governo argumenta que o contrato viola leis antitruste, pois a AT&T poderia "usar o controle sobre a programação popular da Time Warner para causar danos à concorrência ... e resultar em oferta de conteúdo menos inovador e contas mais altas para as famílias americanas". Na nota, o estilo rompante e ameaçador de Trump.

Fecho a coluna com uma historinha de Morro Agudo/SP.

Tape os ouvidos

Em Morro Agudo, a 80 quilômetros de Ribeirão Preto/SP, havia um comerciante de muito prestígio, mas analfabeto (verdade). Tinha um empregado que lia as coisas para ele. Um dia, o comerciante brigou com a mulher, separaram-se, contrataram advogados, foram para a Justiça. Certo dia, chegou uma carta da mulher com inúmeras folhas, passando a limpo (ou a sujo) os longos anos de vida em comum. Ele não poderia pedir ao empregado para ler. Tinha vergonha. Chamou seu melhor amigo:

- Você pode ler esta carta para mim? Mas você vai me fazer um favor. Eu sei que ela vem falando tudo, contando tudo. Então você leia alto para mim, mas, se quiser continuar meu amigo, tape os ouvidos.

Porandubas Políticas nº 553

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por Gaudêncio Torquato.

 

Abro a coluna com a Paraíba do grande José Américo.

Cancelando chuvas

A seca era medonha. A Paraíba em desespero, o governador aflito. Um dia, caiu uma chuva fininha no município de Monteiro. Inácio Feitosa, o prefeito, correu ao telégrafo: "Governador José Américo: chuvas torrenciais cobriram todo município de Monteiro. População exultante: Saudações, Feitosa". Os comerciantes da cidade, quando souberam do telegrama, ficaram desesperados. O município não ia mais receber ajuda. Ainda mais porque a mensagem era falsa e apressada. Feitosa correu de novo ao telégrafo: "Governador José Américo: cancelo chuvas. População continua aflita. Feitosa, prefeito".

O clima político

A tensão pode ter diminuído com o fechamento da porta da 2ª denúncia contra o presidente, mas o ambiente parlamentar ainda é cheio de interrogações. E de muita pressão. Dúvidas: o governo terá forças para levar adiante a agenda reformista? Conseguirá ter suficiente número de votos para aprovar a reforma da Previdência? E a simplificação tributária? A pressão está alta. Partidos do centro querem ver tucanos fora da base e tomar seu lugar. PMDB, inclusive, faz pressão. O presidente ouve muita gente no confessionário do Planalto.

PSDB, taquara rachada

O tom é, como se diz no vulgo, de taquara rachada. Meio agudo, meio grave. E muito sustenido. (Desculpem os musicólogos se este escriba cometeu heresia com a partitura). O fato é que o tucanato continua sem saber que rumo tomar. Parte quer sair logo do governo, parte quer ficar até abril, prazo de desincompatibilização de ministros que serão candidatos nas eleições de outubro. A impressão é de que a saída será antecipada. O desgaste para a imagem do governo com as trapalhadas do PSDB já foi contabilizada. O que mais está em jogo?

Imagens dos candidatos

O que está em jogo é a imagem de candidatos. Imaginam que permanecer na máquina faria um dano a suas imagens. Ora, os tucanos não vão melhorar sua imagem com saída antecipada. Já estão depreciados sob esse prisma. O guru do partido, FHC, quer ver logo a saída. Alckmin, idem. Mas essa posição não atenuará a posição dúbia do partido. O eleitorado sabe quem é quem. E acompanha até as maquinações de efeito eleitoreiro. É evidente que o partido manteve um cordão umbilical com o governo. Constatar que a protelação da saída ligaria o PSDB ao peemedebismo, como escreveu Fernando Henrique, é sandice. Execrar agora a aliança com o PMDB é burrice. Que santidade FHC está querendo apregoar?

As chances de Alckmin

Se Geraldo Alckmin acha que vai ganhar mais votos com o afastamento dos tucanos do governo Temer cometerá um desatino. A real politik, governador, se ancora em parcerias entre siglas. Se não por identificação ideológica - eis que todas nadam no pântano da desideologização -, pelo menos por conveniência. Afinal, os bons minutos que o PMDB e outras execradas siglas possuem serão vitais para a massificação do discurso de candidatos. O PMDB não vai deixar seus minutos migrarem com facilidade. Detalhemos essa questão.

Tempo de TV

O tempo de TV e rádio será fundamental na campanha de 2018. Mais que em campanhas anteriores. Por uma simples razão: a campanha será mais curta - 35 dias de mídia e não mais 45 -, recursos financeiros também bem mais curtos, eleitorado desconfiado e indignado, expectativa por um discurso convincente. Partamos de um exemplo: João Doria, em São Paulo, fez o maior leque de alianças partidárias dos últimos tempos. Teve um tempo longo de rádio e TV para expor suas propostas. Ganhou muita visibilidade. E deixou seu opositor para trás em matéria de articulação com as massas.

Articulação e mobilização

A campanha de 2018 vai se amparar, além do eixo da comunicação, nos eixos da articulação e da mobilização. O primeiro diz respeito aos contatos, parcerias e efetivos vínculos que os candidatos deverão estabelecer com entidades organizadas, líderes comunitários, bases políticas nas regiões e bairros, etc. Já a mobilização diz respeito aos contatos diretos com o povo. Se o candidato em campanhas passadas chegava a gastar sola ou borracha de dois pares de sapatos, deve se preparar para gastar quatro pares. Vai ter muita andança. O eleitor indignado vai querer ver o candidato - olho no olho, ombro a ombro, testa a testa, mão na mão, porta a porta, casa a casa.

Campanha mais direta

Candidatos não são sabonete ou pacote de macarrão. Não adianta fazer uma bela campanha de marketing televisivo, com a fosforescência de luzes e efeitos cinematográficos. O eleitor está desconfiado de tantas promessas. Quer sentir a alma do candidato. E não apenas sua voz pelo rádio ou TV. Quer conferir o grau de verdade. E isso será objeto da maior proximidade entre candidato e eleitor. Os valores pessoais serão checados. Mas o projeto, a ideia central, as propostas, enfim, deverão ganhar substância. Programas devem ser oportunos, diretos, objetivos, de forma a atender aos reclamos mais urgentes das populações, dos Estados e regiões.

Um bom candidato

Em 2018, o eleitor buscará um candidato com as seguintes qualidades: experiência, honestidade; vida limpa e passado decente; assepsia; equilíbrio/ponderação; preparo; coragem/determinação; autoridade (não confundir com autoritarismo). Há uma saturação de perfis antigos, que usam as esteiras da velha política. O eleitor quer ver perfis mais identificados com suas grandes demandas: segurança, saúde, educação, melhoria das condições de vida nas regiões, nos bairros, nas ruas. Quem apresentar propostas mais condizentes com as necessidades do eleitor terá melhores condições de ser escolhido.

E o medo? Lula e Bolsonaro passam

Lula e Bolsonaro aparecem hoje como finalistas das eleições de 2018. Este consultor político não acredita nesta hipótese que tem sido defendida por analistas de todos os espectros. Por quê? Primeiro, porque um deve ser impedido pela Justiça e o outro, porque, além de ser considerado um perigo radical, deverá ser engolfado pela avalanche de discursos de outros. Bolsonaro terá muito pouco tempo de mídia. Não resistirá. E Lula, mesmo que garanta sua condição de candidato, passa hoje mais medo do que esperança. Em 2002, expressava esperança. Hoje é a extensão do medo. Principalmente junto aos bolsões médios, que funcionam como os clarinetes e trompetes da orquestra.

Esperança

Essa é a virtude mais ansiada pelos conjuntos eleitorais. Das margens carentes aos grupamentos mais altos da pirâmide social. Os pobres esperam que seu candidato abra as portas da esperança, sob a ilusão de que ele trará progresso, encherá seu bolso de dinheiro, garantirá a educação de seus filhos, comida barata, transporte ligeiro. Enfim, a felicidade está atrás da porta que o candidato promete abrir. Já as classes médias querem ver políticas mais ajustadas ao estado do país e que se reflitam em segurança, harmonia social, melhoria dos serviços públicos, conforto. O candidato que mais se identificar com estas expectativas e políticas será escolhido no momento do voto. (É claro que haverá sempre bolsões tradicionais que votarão de "cabresto").

Segurança

O país está tomado pela violência, que se espraia por todo o território. Por isso, o discurso da segurança será bem acolhido. Mas as promessas vãs e banais - bandido bom é bandido morto, bandido irá para a cadeia - não conseguirão convencer. Propostas devem ser demonstradas quanto à viabilidade. O discurso exigirá comprovação sobre a aplicação das ideias. Onde estarão os recursos? De onde virão? Maná não cai do céu. Quem desejar ser crível, precisa comprovar aquilo que dirá.

Rio de Janeiro

O Rio de Janeiro é um caso sério. Garantir segurança no Rio de Janeiro parecerá tarefa para um semi-deus. Como? As Unidades de Polícia Pacificadora estão enfrentando problemas. No Rio, o furo é mais em cima. Conluio de corrupção. O ministro Torquato Jardim pôs o dedo na ferida.

Lula perdoa

Lula está dizendo que "perdoa" os golpistas. Pragmático, acena a aliança com Renan Calheiros, em Alagoas, e Eunício Oliveira, no Ceará. A Democracia Socialista (DS) reage. Combate essa formação. Gleisi, a presidente do PT, acena com parcerias de esquerda, o que faz fechando o olho direito, que reabre para ver Lula entrando de soslaio pela banda direita. Eita, PT.

A invasão chinesa

Os chineses iniciaram a invasão no Brasil. De janeiro a outubro deste ano, movimentaram cerca de US$ 10,84 bilhões - mais de R$ 35 bilhões. As aquisições chinesas saltaram de 6, no ano passado, para 17. E vão subir muito. Em 2018, espera-se uma enxurrada de recursos. Pelo menos 10 grandes empresas demonstram interesse em investir em áreas como energias renováveis, ferrovias, portos, mineração, papel e celulose e até em telecomunicações.

Reforma trabalhista

Sábado, 11, entrarão em vigor os dispositivos aprovados na reforma trabalhista. Parcela de juízes do trabalho e membros do Ministério Público do Trabalho prometem não cumprir a nova legislação. Seria um caso clássico de desobediência civil, que baterá inevitavelmente nos Tribunais Superiores. Só estes poderão sustar os "violadores" da lei. Só mesmo no Brasil pode-se constatar a aberração de um juiz - o servidor por excelência para fazer cumprir a lei - desobedecer o estatuto legal.

Neil Ferreira

Um nome que fez história na propaganda brasileira. Um dos mais criativos publicitários. Um contador de belas histórias. Um gozador. Um grande papo. Um crítico feroz da política e de seus protagonistas. Um amigo. Deu-nos adeus, ontem. Que Deus o acolha.

Fecho a coluna com uma historinha do Paraná.

Conversando no jardim

Manuel Ribas, interventor no Paraná (1932/1935), depois governador (1935/1937), despachava no palácio, mas gostava de morar em sua casa. Bem cedinho, chega um rapaz e encontra o jardineiro regando o jardim:

- Seu Ribas está? Sou filho de um grande amigo dele. Meu pai me mandou pedir um emprego a ele. Eu podia falar com ele?

- Poder, pode. Mas, e se ele não lhe arrumar o emprego?

- Bem, meu pai me disse que, se ele não arranjasse o emprego, eu mandasse ele à merda.

- Olhe, rapaz, passe às 4 da tarde lá no palácio, que é a hora das audiências, e você fala com ele.

Às 4 horas, o rapaz estava lá. Deu o nome, esperou, esperou. No salão comprido, sentado atrás da mesa, o jardineiro. Ou seja, o governador. O rapaz ficou branco de surpresa.

- O que é que você quer mesmo?

Repetiu a história. "Meu pai me mandou pedir um emprego ao senhor".

- E se eu não arranjar o emprego?

- Então, seu Ribas, fica valendo aquela nossa conversa de hoje de manhã, lá no jardim.

Porandubas Políticas nº 552

Avaliação do Usuário

por Gaudêncio Torquato.

 

Ronaldo Cunha Lima.
Abro a coluna com engraçadas historinhas envolvendo o poeta, historiador, ex-senador, ex-deputado e ex-governador da Paraíba, Ronaldo Cunha Lima, figura sempre bem lembrada nos causos de política. Quem conta é Diógenes da Cunha Lima, o grande poeta e escritor, seu primo e presidente da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras em seu livro sobre "Ronaldo Cunha Lima, um nordestino de todo canto".
O nome é Glauce
Quando lhes nasceu a filha, a princesa da casa, "A doce paz que me aquieta" foi sugerido o belo nome Raquel. Ronaldo nega. Queria Glauce. E atacou com a caricatura da fala do nordestino:
- Quando ela pedir alguma coisa e não souberem bem o que é, vão dizer : Qué qui Raqué qué?
Bondade
Na "Convenção dos Cunha Lima", em Pirangi, mostro a Ronaldo o brasão familiar com o lema que inventei: A bondade vence. Ele acrescenta:
- A Bondade vence, mas é melhor quando... Convence.
O verso alheio
Um escritor carioca, laureado, em roda de admiradores, fala sobre suas desventuras em Recife. Ronaldo não gostou da apresentação:
- Este aqui é um nordestino. Que veio advogar no Rio é poeta sonetista.
O escritor, com ares superiores, proclama:
- Soneto é a minha pátria. Hoje mesmo, pela manhã, fiz este soneto. E recita.
Ronaldo contesta:
- Não pode ser. Só se lhe baixou um espírito, foi psicografado. Conheço este soneto desde menino. Penso que é de um velho poeta português.
- Que história é essa?
- Posso provar, diz Ronaldo. E recita os 14 versos.
Depois, sorrindo, explica que decorou o poema na hora, ao ouvir a leitura.
Lula e Bolsonaro
Leio e pasmo: Bolsa cai e dólar sobe por causa de pesquisa do Ibope, que mostra Lula, com 35%, e Bolsonaro, 13%. O mercado estaria reagindo negativamente ao quadro apresentado. O pior é constatar que analistas e comentaristas entram na onda dessas pesquisas que não retratam o que efetivamente ocorrerá no país em outubro de 2018. A partir da possibilidade de Lula vir a se candidatar, tudo gira em torno de uma grande interrogação.
Condenação na 2ª instância
A maioria das projeções, hoje, aponta para eventual condenação de Lula na 2ª instância. Mas, se não houver consenso na Turma em que será julgado, a candidatura de Lula será levada adiante, na esteira de uma interpretação ensejada pelo STJ, a de que nesses casos, recursos (de embargos infringentes) podem ser apresentados. Portanto, a tese de que só poderá ser impedido após sentença transitada em julgado continua sendo defendida.
As circunstâncias
Aceitemos, portanto, a hipótese da candidatura Lula. Terá ele adversários e um repertório pesado de denúncias e acusações o espera. O legado que o PT deixou no país não passará em brancas nuvens. O país deverá continuar a recuperar seus níveis de emprego, a inflação deve continuar seu controle e os juros tendem a permanecer em índice de queda. Lula aguentará? Difícil responder, mas a lógica dos tempos eleitorais indica que as circunstâncias do momento determinarão sua posição no ranking.
BO+BA+CO+CA
A economia puxará o trem da política. Logo, a velha equação que sempre lembro dará o tom: Bolso com dinheiro, Barriga satisfeita, Coração Agradecido, Cabeça tende a votar com os patrocinadores da boa situação. A recíproca é verdadeira. Lula será, claro, uma vedete no Nordeste, onde o eleitorado, mesmo sob bombardeio sobre ele, o admira, considerando-o o Pai dos Pobres. Mas o Sudeste, com o maior bolsão eleitoral do país, pode funcionar como a pedra jogada no lago. Ondas concêntricas se formarão até chegar às margens. O Sudeste, nesse caso, será a tuba de ressonância eleitoral.
Transferência
Lula terá condições de transferir sua votação caso seja impossibilitado de ser candidato? Pouco provável. Apenas uma parcela de seus eleitores poderia seguir sua recomendação. A parcela mais engajada e contrita e restrita ao Norte, Nordeste e Centro-Oeste. A campanha será realizada sob um novena de palavrórios contra a roubalheira e contra a bandidagem na política. Poucos escaparão ao bombardeio. Será um verdadeiro tiro ao alvo.
Bolsonaro
Este deputado, ao contrário das projeções de alguns analistas políticos, não terá chances de chegar ao segundo turno. As galeras que hoje lhe fazem festa nos aeroportos não conseguirão ter votos suficientes para torná-lo altamente competitivo. Há uma tendência de querer ver um candidato de direita para se contrapor a Lula, mas será pouco provável uma escapada das massas pela banda direita. Da mesma forma que Lula, a identidade de Bolsonaro será exposta e seu despreparo será evidenciado.
Perfil do centro
Este consultor insiste em manter sua visão de que o país examinará a moldura de perfis, mas, na reta final, tenderá a adotar a linha do meio. In médium, virtus - a virtude está no meio. Não há nomes a citar nesse momento. Mas os valores da harmonia, do equilíbrio, do bom senso, do apaziguamento de ânimos, da pacificação do país devem compor o discurso ansiado pela comunidade. Paz e não guerra continuada - essa seria a bandeira hasteada no coração nacional.
Outsiders?
A eleição de um outsider não é coisa fora de propósito no contexto da política pós-sociedade industrial, onde se amontoam as mazelas que corroem as democracias, como a desideologização, o declínio dos partidos, o declínio dos parlamentos, o declínio das oposições, a personalização do poder, a ascensão das tecnoestruturas e o aparecimento de novos circuitos de representação, como associações, sindicatos, federações, núcleos, grupos, movimentos de toda a ordem. O deslocamento da política tradicional para outros espaços é uma realidade aqui e alhures.
Cacareco
O momento e as circunstâncias induzem a comportamentos inusuais da base política, como a eleição de um Cacareco. Lembremos: em 1959, com a morte de Getúlio Vargas, sob o governo de Adhemar de Barros, em São Paulo, o eleitorado indignava-se contra vereadores paulistanos. Na campanha, apareceu o rinoceronte Cacareco (na verdade uma fêmea), vindo do Rio emprestado para abrilhantar a inauguração do zoológico. O empréstimo era por seis meses. Passado o tempo, os paulistanos fizeram um movimento para que o animal de 230 quilos aqui ficasse. Um movimento decidiu pela candidatura de Cacareco a vereador com este slogan: "vale quanto pesa". Um matreiro candidato saiu à rua carregando uma onça, apostando no slogan: "eleitor inteligente vota no amigo da onça".
100 mil votos
Na época o voto era num pedaço de papel que o eleitor colocava em envelope recebido do mesário. Gráficas imprimiram milhares de cédulas com o nome do bicho. Cacareco recebeu 100 mil votos, quando o candidato mais votado naquele ano não ultrapassou 110 mil votos. Infelizmente, Cacareco não pode comemorar. Foi devolvido ao zoológico do Rio, vindo a morrer poucos anos depois, antes de completar 10 anos. (O coração não resistiu a tanta emoção). A revista Time acabou dando ênfase à frase de um eleitor: "é melhor eleger um rinoceronte do que um asno".
Um perigo
A revolta do eleitorado se faz ver na frase comum em todos os rincões: "todo político é ladrão". Infelizmente, o país corre esse risco, que o levaria a uma crise de proporções inimagináveis, porquanto um Huck ou outra celebridade não teria condição de "pôr o guizo no gato", administrar a complexidade da nossa política: 35 partidos, sistema bicameral com duas casas congressuais, presidencialismo de coalizão, etc. Teria de se submeter ao DNA de uma cultura, cujas raízes estão fincadas nas roças do fisiologismo, do nepotismo, do grupismo, do coronelismo. Nem Marina Silva, com roupagem ética, ou mesmo Ciro Gomes, com sua metralhadora expressiva, resistiriam ao poder de mando da nossa representação, 513 na Câmara e 81 no Senado. Nomes fora da política terão condições de administrar um país com sua crise política crônica.
Rodrigo Maia
A CEBRASSE - Central Brasileira de Serviços homenageará Rodrigo Maia, presidente da Câmara, com o Título de Personalidade Política do Ano, graças ao seu empenho e ao seu comando na esfera parlamentar, principalmente por ocasião da aprovação da Lei da Terceirização e da Reforma Trabalhista. Rodrigo foi, inquestionavelmente, figura de primeira grandeza na aprovação de projetos importantes para o país. Graças a ele, a agenda do Executivo conseguiu caminhar bem. Merece todas as homenagens. Será no dia 4/12, no Buffet Dell'Orso à rua Tuim, 1.041 - Moema, na capital paulista. O almoço reunirá 200 empresários dos setores de serviços.
Meirelles
O ministro Henrique Meirelles diz achar "interessante" uma candidatura a vice-presidente da República. Se a economia efetivamente se recuperar bem, vale a pena trocar a declaração: "serei candidato à presidência da República". Meirelles só pensa nisso. E o PSD do ministro Gilberto Kassab alimenta a ideia.
Justiça trabalhista
Deve esbarrar no STF a disposição do MPT e alguns juízes de não cumprirem as disposições emanadas na Reforma Trabalhista e na Lei da Terceirização. A Anamatra, Associação dos Magistrados do Trabalho, pilota a contrariedade. O ministro Ives Gandra Filho acredita que o enquadramento de juízes e procuradores deve ser feito pelo cabresto do Supremo. A conferir.