Porandubas Políticas n. 4370

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Abro a coluna com JK.

JK?

Anos de chumbo grosso. Tempos magros, época de fechadura braba. Falar em Juscelino Kubitschek (JK) era, no mínimo, pecado mortal. Mudança das placas dos carros, as chamadas alfanuméricas. A Câmara Municipal de Diamantina oficia ao CONTRAN solicitando as letras JK para as placas dos carros do município, "como uma forma de homenagear o grande estadista John Kennedy". O CONTRAN não atende. Um conterrâneo de Juscelino desabafa:

- Esse pessoal do Conselho deve ser republicano, eleitor do Nixon.

(Historinha de Zé Abelha)

Estado de expectativa

Passada a turbulência da greve dos caminhoneiros, o país passa a viver um estado de expectativa. Existe alguma pedrinha do dominó a ser empurrada? Que setores poderão gerar desarmonia social, mobilização das ruas, confusão? Sabemos que alguns "exércitos" estão de prontidão. Não me refiro à prontidão das Forças Armadas, mas à articulação que setores radicais podem estabelecer para influenciar o clima do "quanto pior, melhor". Oportunistas, aventureiros, doidivanas, mercenários estão de olho nos horizontes.

Urubus

Como urubus disputando a carniça, vândalos querem tirar proveito para disputar o melhor pedaço político. Pedem ordem, mas pregam a bagunça, querem o império da lei, mas defendem intervenção militar. Faixas com esse apelo são usadas em movimentos de 10, 20 ou 100 pessoas. Mas o povão mesmo está afastado dessa artificial movimentação. A cúpula militar, por meio de seus chefes, entre eles o comandante do Exército, general Villas Bôas, já repeliu as insinuações.

Prandi

"Há uns malucos querendo a ditadura. Eles não sabem o que querem. Nunca viram, não têm ideia do que foi a intervenção militar no país, porque não têm formação. Não sabem isso e também não sabem mais nada". Sociólogo Reginaldo Prandi, um dos desenvolvedores das pesquisas de opinião no Brasil.

Classes médias

Vejamos. As classes médias, A, B e C, tendem a decidir sob critérios racionais. O poderoso grupamento de profissionais liberais, que forma opinião, está atento, observando o cenário, avaliando quadros e começando a se posicionar. O estrato médio mais baixo, o de classe C, tende a desenvolver um posicionamento mais duro, menos flexível e mais condizente com a ordem pública. Nele estão incluídos núcleos bolsonaristas. A esse contingente, juntam-se pequenos e médios proprietários de terras, comerciantes e alguns cantões mais conservadores. Mas as classes médias A e B tendem a formar um pensamento mais comedido, menos espalhafatoso e mais compromissado com valores democráticos.

As margens

As margens sociais procuram acalento, segurança, um pouquinho mais de grana no bolso, e muitos ainda procuram refúgio no cobertor do Estado. São propensos a aceitar e a admirar perfis populistas, demagogos ou representantes da política de cabresto, que abriga benesses e bolsas. Constituem massas amorfas que votam na esteira do fisiologismo em pleno vigor em espaços menos desenvolvidos do país. Como tal, são passíveis dos balões de ensaio e de inputs que saem dos polos de informação e opinião encaixados no meio da pirâmide. Portanto, o voto mais volúvel habita com intensidade a base social.

A agitação e a eleição

Uma das indagações recorrentes é: qual a influência da agitação de rua no processo eleitoral? Outra: quem está interessado na desorganização social? É claro que ruas sedentas de demandas terão peso no processo eleitoral. Principalmente em matérias que afetem diretamente o bolso do consumidor. Digamos que daqui a 60 dias, quando termina o prazo do desconto de R$ 0,46 no litro do diesel, organizações tentem voltar ao tema e cobrem do governo a continuidade do movimento. Políticos identificados com demandas mais claras e fortes poderão se beneficiar. Uma eleição sob tumulto melhora ou piora a situação de alguns protagonistas.

Mas há um perigo

Se as ondas sociais forem conduzidas sob a bitola eleitoreira, as massas poderão flagrar interesses espúrios, misturados a interesses legítimos de categorias, e dar o troco, que tende a ocorrer em forma de bumerangue: castigo, desprezo e o NV - não voto - em determinados candidatos. Os partidos de esquerda, a partir do PT, podem querer se aproveitar do tumulto social para melhorar sua performance. A operação corre o risco de ser um fracasso. Mesmo que tenha como meta tirar Lula da prisão.

Brancos, nulos e abstenção

A indignação social, com a consequente repulsa aos políticos, poderá aumentar, no pleito deste ano, o número de votos brancos, nulos e abstenções. Da média histórica entre 30% a 32%, podemos saltar para 40%. Vejam o que acaba de acontecer em Tocantins: abstenções, brancos e nulos somaram mais de 49% na eleição do último domingo para governo do Estado, maior que a soma dos dois candidatos que vão ao 2º turno. Aliás, em pelo menos 11 cidades do Tocantins, as abstenções, votos nulos e brancos superaram a quantidade de votos válidos.

Kátia e Lula I

A senadora Kátia Abreu (PDT-Tocantins) tornou-se mais conhecida fora de seu Estado como presidente da Confederação Nacional da Agricultura (2008-2011) e, mais tarde, como ministra da área no segundo mandato de sua amiga Dilma Rousseff (PT). Embora então no PMDB, votou contra o impeachment de Dilma e tornou-se feroz adversária do presidente Michel Temer. Acabou expulsa do partido no ano passado e passou para o PDT de Ciro Gomes.

Kátia e Lula II

Neste último domingo, concorreu ao cargo de governadora de Tocantins com o apoio do PT e do ex-presidente Lula, que fez uma carta lida em vídeo pela senadora Gleisi Hoffmann. O vídeo foi um bumerangue. Afundou Kátia Abreu. A eleição para substituir o governador cassado, Marcelo Miranda, vai para o segundo turno, a será disputado por Mauro Carlesse (PHS), governador interino, e o senador Vicentinho Alves (PR). Se vale como aperitivo para as eleições de outubro, a demonstração de força de Lula e do PT foi um tremendo fracasso.

Greve de caminhoneiros

O governador Márcio França, de São Paulo, teve um bom desempenho na negociação com os caminhoneiros. Enquanto o governo Federal tateava na solução, não contando com a presença de parcela ponderável das lideranças, o governo de São Paulo tomou a iniciativa de fechar o acordo. Mas a empreitada foi bem-sucedida graças à forte articulação empreendida por Marcos da Costa, presidente da OAB/SP, que funcionou como um elo entre os governos estadual, Federal e lideranças. Marcos foi imprescindível e, graças ao seu esforço, ocorreu o desbloqueio da rodovia Regis Bittencourt. Onde a resistência era maior.

França, habilidade

Já o governador Marcio França, às voltas com a questão do desconhecimento de seu nome, ganhou ampla cobertura da mídia, podendo sua disposição e sua liderança na condução do processo e conciliação vir a ter grande efeito na eleição de outubro. O governador, que assumiu o lugar de Geraldo Alckmin, é candidato à reeleição pelo PSB.

Articulação social

Na eleição deste ano, na esteira da organicidade social, o fator articulação será um dos mais importantes do marketing eleitoral. Nunca a sociedade brasileira esteve tão organizada. Uma miríade de entidades - sindicatos, federações, núcleos, associações, grupamentos, setores, áreas e categoriais profissionais - leva adiante a tarefa de mover a sociedade. Logo, a articulação com entidades e líderes se torna fundamental para o bom desempenho dos atores políticos. Mas os velhos marqueteiros não entendem disso. Acham que comunicação é apenas propaganda eleitoral. Muitos ainda não abandonaram a Idade da Pedra.

Os limites do marketing

Os administradores públicos se esforçam para criar uma identidade. Criam símbolos, sejam marcas, logotipos, slogans, etc. para serem reconhecidos pelo eleitor. A cruz de Cristo é, seguramente, um dos mais fortes símbolos da Humanidade. O sistema cognitivo das pessoas o associa imediatamente a Jesus. Essa tradição de uso de sinais é milenar. O marketing político faz uso deles para deixar o candidato mais próximo ao eleitor. Já o marketing governamental também neles se apoia para identificar o gestor - presidente, governador, prefeito e outros protagonistas. Ora, separar os limites entre marketing governamental e marketing eleitoral é uma tarefa quase impossível. Os limites são tênues. Candidatos se esforçam para ser reconhecidos por sua obra, que é geralmente associada a um sinal. É a estética estabelecendo ligação com a semântica.

A multa de Doria

Feita a análise conceitual acima, vamos ao caso. A juíza Cynthia Tomé, da 6ª vara da Fazenda Pública de São Paulo, impõe multa de R$ 200 mil, abrindo nova ação de improbidade contra o ex-prefeito João Doria (PSDB). Argumenta que ele faz promoção pessoal com o uso da expressão "Acelera SP". Tem sentido isso? Jânio usava o cabelo desgrenhado e olhos esbugalhados como marca. Juscelino Kubitschek usava o famoso JK como marca. Hoje, sua identidade seria proibida.

Insensatez?

Muitos usam ainda o V da Vitória, símbolo usado por Winston Churchill por ocasião da vitória das forças aliadas contra as forças nazistas de Hitler. Coisa natural. Tentar, agora, despregar o sinal do "Acelera SP" da imagem de João Doria é arrematado viés jurídico. Ele está terminantemente proibido de usá-lo. Imaginemos o ex-prefeito flagrado ao brincar com uma criança e usar o gesto. Mais 200 paus de multa. Ou mais. Meu Deus, quanta insensatez.

Fecho a coluna com o presidente Dutra.

Escola para quê?

O presidente Dutra tinha um auxiliar capixaba, oficial do Exército, gago. Quando Dutra dava uma ordem, ele ficava mais gago ainda. Resolveu dar um jeito de curar a gagueira. Soube que o Méier tinha uma escola para gagos, tocou para lá. O endereço que levou não coincidia. Procurou no bairro todo, nada. Foi ao português da esquina, desses de bigode e tamanco, cara de quem desceu na praça Mauá:

- O sesesenhor popopodia me inininformar se aaaqui temtemtem uma escola para gagagago?

- Mas o senhor já fala gago tão bem, para que quer escola?

(Do acervo do imperdível Sebastião Nery).

O uso dos nomes em vão

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A incorporação de sobrenomes e apelidos aos nomes próprios de conjuntos parlamentares faz parte do jogo eleitoral

 

“Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão, porque o Senhor não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão”. (Êxodo, capítulo 20, versículo 7).

O estágio civilizatório de um povo é medido por grandes e pequenos atos, entre as quais avanços, descobertas, tecnologia, desenvolvimento econômico e social, este último compreendendo formas de pensar e de agir, atitudes e gestos. A cultura política, portanto, deriva da forma de pensar e agir daqueles que dela participam, representantes do povo, governantes e simpatizantes, entrando aqui os militantes.

Quando esses grupos assumem posições que descambam para o perigoso terreno da galhofa, é razoável intuir que a régua civilizatória do território em que habitam está meio torta. Algo parece fora do tom. Sinais extraídos dos climas emotivos que animam bandas partidárias apontam para resquícios de barbárie, passos erráticos, movimentos canhestros, coisas ridículas. Querem um exemplo?

A decisão de deputados e senadores do PT de solicitar aos presidentes das duas Casas congressuais a adição do nome Lula às suas respectivas designações parlamentares. Na contrapartida, adversários começam a solicitar que também a seus nomes seja agregado o sobrenome Moro, em referência ao prestigiado juiz Sérgio, de Curitiba. Uma ridicularia de primeira grandeza. Manobra oportunista, demagógica, sob o cobertor de um marketing mentiroso a ser intensificado nos próximos tempos, face à polarização aberta e ao tiroteio recíproco entre as alas do lulo-petismo e adversários encastelados em alguns partidos. Na ponta direita, a decisão destemperada dos petistas gera também a incorporação do sobrenome Bolsonaro aos nomes dos parlamentares alinhados ao presidenciável e deputado Jair.

Uma comédia.

É evidente que a incorporação de sobrenomes e apelidos aos nomes próprios de conjuntos parlamentares faz parte do jogo de pressões e contrapressões que permeará todo o processo eleitoral, que ora se inicia. Que significado os recém batizados tentam impingir ao eleitor? A luta do Bem contra o Mal. Cada lado quer aparecer como o Bem. Todos vestem a pele do mocinho, deixando o traje de bandido para o outro. Repúdio a Darth Vader e aplausos para Luke Skywalter, de Star Wars. Robin Hood contra os ricos. Mas a questão é: quem pode no PT envergar o manto de Robin Hood quando se sabe que este partido se meteu na rapinagem geral? As bandas tentarão amplificar seus slogans até as eleições.

O fato é que as “qualidades morais” dos protagonistas da esfera eleitoral serão exibidas, sob uma teia de simulações e dissimulações, versões sem eira nem beira, e, pior, com a apropriação de sobrenomes de outros. O eleitor menos esclarecido poderá ser engabelado. Seu voto seria também em personagens que não o representante. Arrematada mistificação.

Ninguém será inocente usando o nome de Deus em vão, diz a Bíblia. Na esfera política, os oportunistas terão mais chance de entrar nos desvãos do inferno.

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP, consultor político e de comunicação - Twitter@gaudtorquato>

 

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Porandubas Políticas de 11/4

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Abro a coluna com duas historinhas, uma da Bahia, outra do Maranhão.

Deu-se o vice-versa

Dr. Dantinhas, deputado da Bahia, elo de todo um clã político do Estado (neto do barão de Geremoabo), foi convidado para padrinho de casamento da filha de um coronel de uma cidade do sertão. No dia de viajar, recebeu telegrama:

- Compadre, não precisa vir. Deu-se o vice-versa. Menina morreu.

Puxa-sacos

Tempos eleitorais. Tempos de fidelidade e infidelidade. Guararé era cabo eleitoral do governador Sebastião Archer, do Maranhão. Convenção do PSD, alguém acusou Guararé de puxa-saco. Guararé argumentou:

- Cada um puxa o saco de quem pode. Eu puxo o saco do senhor, governador Archer. O senhor já puxa o saco do senador Vitorino Freire. E o senador puxa o saco do general Dutra. É a lei da fidelidade partidária.

Nuvens pesadas

As nuvens da política continuam pesadas. Não há como evitar a montanha de interrogações à nossa frente. Por mais que partidos, alas, grupos de um lado e de outro queiram enxergar um ambiente claro, não conseguem. A prisão de Lula deixa muitas dúvidas no ar. Se há algo que parece transparente, é certamente o aumento do nível de tensões dentro do petismo e fora dele. O discurso do ódio é coisa visível e sobre isso não há dúvidas.

Para onde vai o PT?

Este consultor, por dever de ofício, tentará fazer uma análise da situação, mesmo sabendo que a emoção de um leitor aqui, outro leitor ali, vai considerá-la parcial. Vamos lá. O que será do PT nesse percurso imediato à prisão de Lula? Não arrefecerá, como se pode imaginar. E menos ainda desaparecerá. Lula, individualmente, é o maior eleitor do país. Terá influência sobre o processo eleitoral. Para começo de conversa, mesmo vivendo uma crise, o PT é o partido com a maior bancada após o fechamento da janela partidária: 57 deputados (data de hoje). O PP está atrás, com 54. O MDB tem hoje 53. Mas os números oficiais só serão conhecidos sexta-feira, 13. Pode ser que haja ligeira alteração.

Bancadas estaduais

É evidente que o PT deverá usar o "eleitor Lula" como alavanca das bancadas nos Estados, seja a da Assembleia Legislativa seja a da Câmara Federal. A militância, que se agita ao calor da prisão e fazendo pequenos comícios todos os dias defronte à PF de Curitiba, quer se transformar na tuba de ressonância do lulopetismo.

Entre a cruz e a caldeirinha

Gleisi Hoffmann, presidente da sigla, que ganhou status de advogada e porta-voz de Lula, está sendo mestre de cerimônia de orações e perorações que ali se realizam. Mas Gleisi precisa atualizar sua situação na OAB e, como advogada, ameaça perder o cargo de senadora, eis que o regulamento proíbe a um profissional da advocacia na condição de parlamentar é vetada a tarefa de defender uma causa contra uma empresa pública. No caso, Lula versus Petrobras. A senadora está entre a cruz e a caldeirinha.

Arrufos e querelas

Em alguns Estados, veremos pequenas mobilizações sob o desfraldar de bandeiras vermelhas do PT e de suas extensões, MST e MTST. Grupos contrários, sob a estética do verde-amarelo da bandeira nacional, tentarão fazer o contraponto. Arrufos, querelas, brigas e algum sangue correndo por faces e cabeças, farão parte da paisagem. Nas entranhas do PT, é provável um racha entre alas, uns defendendo linha aguerrida de ataques, outros tentando arrumar o discurso para entregá-lo ao substituto de Luis Inácio. Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo, encabeça a lista.

Pressão sobre os tribunais

Numa outra frente, o PT deverá continuar a fazer pressão sobre o STF, particularmente na direção do julgamento das ADCs - Ações Diretas de Constitucionalidade - que permanecem sob a relatoria do ministro Marco Aurélio. O PEN está desistindo de uma. Mas o ministro Marco Aurélio dá sinais de que pretende entrar com um requerimento amanhã para forçar a votação de outra ADC, que trata da prisão após decisão em 2ª instância.

Novamente Weber

Vai depender da aceitação do requerimento pela ministra Cármen Lúcia. A ministra Rosa Weber continua a ser um ponto de interrogação. Comenta-se que, mesmo defendendo a ideia de prisão após esgotados todos os recursos, tende a votar pela manutenção da jurisprudência já firmada pelo STF. Se assim for, o imbróglio chega a um ponto final.

STJ em junho

Mas a defesa de Lula vai insistir no STJ e até no STF. Recursos devem ser interpostos contra decisão do ministro Fachin. Faz parte da estratégia petista adiar ad aeternum a decisão final dos Tribunais Superiores. Se o STF der uma resposta imediata ao caso das ADCs, a situação estará finalizada. Há quem veja o problema sendo levado até mais adiante.

Lula candidato?

Difícil será sustentar a candidatura de Lula com ele na prisão. Mas o PT confia em seus recursos protelatórios. É provável que o TSE o enquadre na Lei da Ficha Limpa. 17 de setembro será a data final para torná-lo inelegível. Espera-se que o Tribunal dê uma decisão antes, eis que a eleição se daria apenas 18 dias depois. Ademais, duvida-se que o PT corra o risco de deixar o nome de Lula na urna para sofrer impugnação depois. Interrogações e dúvidas no ar.

PT e seu entorno

As pressões também emergem do paredão partidário. Governadores petistas e outros que aderiram ao PT, como Renan Filho, do MDB de Alagoas, correm à Curitiba para participar da vigília que a militância faz nas imediações da PF. Maneira demagógica de dizer que estão ao lado de Lula. Na campanha, usarão as fotografias para iludir a boa-fé dos eleitores. O anfitrião da caravana governista em Curitiba é o senador medebista Roberto Requião.

O povo sabe das coisas

7 de abril, sábado, por volta de 21h, em Monte Verde, Minas Gerais, agradável estância climática a 1.560 metros de altitude. 14º C. Ao levar o carro a um estacionamento próximo ao restaurante, este consultor, recebido pelo manobrista, depara-se com abrupta pergunta: "professor, e agora que Lula foi preso, quem tem condições de levar a melhor no pleito de outubro"? Após pequeno susto e tomando ciência do acompanhamento que o manobrista faz do Jornal da Cultura (TV Cultura, 21h15 às 22h15), passei a discorrer sobre o cenário político-jurídico. Saí impressionado desta primeira cruzada de pontos de vista.

E as ADCs?

Ao voltar para pegar o carro, o manobrista se fazia acompanhar de outro rapaz, que exigiu mais uma rodada de conversa, desta feita para saber minha visão sobre os ministros do STF, particularmente sobre os ministros Gilmar Mendes, Rosa Weber e Marco Aurélio. Mais uma pergunta reveladora do nível de entendimento do clima vivido pelo país: "o senhor acha que as ADCs poderão ser votadas na próxima quarta-feira como promete o ministro Marco Aurélio"? Espantei-me com o domínio temático. E, mais ainda, com o vocabulário técnico empregado.

O povo acompanha

As ADCs entraram em nossa conversa, introduzidas por eles de maneira natural. Lá fui eu tentar fazer inferências sobre a insistência do ministro Marco Aurélio, sobre a possibilidade de ele apresentar a questão "em mesa" ou um requerimento à mineira presidente Cármen Lúcia. Quase uma hora de papo com duas extraordinárias figuras do povo. De igual para igual. A certa altura, não tive como deixar de cumprimentá-los pela boa conversa. Responderam: "nós não sabemos os nomes dos 11 jogadores da seleção brasileira, mas os 11 ministros do Supremo sabemos quem são". Podem crer. O Brasil está mudando.

PEC da prisão

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, pré-candidato do DEM à presidência da República, promete colocar em votação uma PEC sobre a prisão após condenação em 2ª instância. Claro, só depois da intervenção na segurança pública no Rio de Janeiro. A legislação não permite votação de PEC enquanto houver intervenção Federal em algum Estado da Federação, ou seja, como a intervenção no RJ pode acabar ao final do ano, é possível que os parlamentares a votem em final de novembro ou em início de dezembro. Com forte possibilidade de mudar a jurisprudência, deixando a prisão para após sentença transitada em julgado.

O parlamento em 2019

O corpo parlamentar de 2019, a ser eleito em outubro, deverá internalizar muitas lições tiradas da cartilha política da era Lava Jato. Podemos dizer que teremos parlamentares mais maduros, mais compromissados com as demandas de suas bases e, ainda, seriamente inclinados a dar passos avançados na fronteira das reformas. Não dá mais para protelar decisões fundamentais como reforma da previdência, reforma fiscal e a própria reforma política, esta de maneira profunda. Se isso não ocorrer, o castigo de Sísifo tomará conta do país (tentar depositar a pedra no topo da montanha; tarefa que desempenhará todos os dias por toda a eternidade).

Ambição desmesurada

No meu livro Marketing Político e Governamental, cito um pensamento do cientista político Robert Lane, em Political Life, que explica como a ambição desmesurada pelo poder funciona como um bumerangue. "A fim de ser bem-sucedida em política, uma pessoa deve ter habilidades interpessoais para estabelecer relações efetivas com outras e não deve deixar-se consumir por impulsos de poder, a ponto de perder o contato com a realidade. A pessoa possuída por um ardente e incontrolável desejo de poder afastará, constantemente os que a apóiam, tornando, assim, impossível a conquista do poder".

Livro Porandubas Políticas

A partir das colunas recheadas de humor para uma obra consagrada com a experiência do jornalista Gaudêncio Torquato.

Em forma editorial, o livro "Porandubas Políticas" apresenta saborosas narrativas folclóricas do mundo político acrescidas de valiosas dicas de marketing eleitoral.

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Porandubas Políticas n. 4325

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Abro a coluna com uma deliciosa historinha de Apodi, no Rio Grande do Norte.

O coronel Lucas Pinto, que comandava a UDN no Vale do Apodi/RN, não dormia em serviço. Quando o Tribunal Eleitoral exigiu que os títulos eleitorais fossem documentados com a foto do eleitor, mandou um fotógrafo "tirar a chapa" do seu rebanho, aliás, do seu eleitorado. Numa fazenda, um eleitor tirava o leite da vaca quando foi orientado a posar para a foto. Não teve dúvida: escolheu a vaca como companheira do flagrante. Mas o fotógrafo, por descuido, deixou-o fora. O coronel Lucas Pinto não teve dúvida. Ao entregar as fotos aos eleitores, deparando-se com a vaca, não perdeu tempo e ordenou ao eleitor: "prega a foto aí, vote assim mesmo, na próxima eleição, nós arrumamos a situação". Noutra feita, o coronel levou as urnas de Apodi para o juiz, em Mossoró, quase 15 dias após as eleições. Tomou uma bronca.

- Coronel, isso não se faz. As eleições ocorreram há 15 dias.

- Pode deixar, seu juiz. Na próxima, vou trazer bem cedo.

Não deu outra. Na eleição seguinte, três dias antes do pleito, o velho Lucas Pinto chegava com um comboio de burros carregando as urnas. Chegando ao cartório, surpreendeu o juiz:

- Taqui, seu juiz, as urnas de Apodi.

- Mas coronel, as eleições serão daqui a três dias.

- Ah, seu juiz, não quero levar mais bronca. Tá tudo direitinho. Todos os eleitores votaram. Trouxe antes para não ter problema.

Idos das décadas de 50/60. Não havia empreiteiras financiando campanhas. A empreitada ficava mesmo a cargo dos coronéis.

Moro em Roda Viva

Foi uma bela entrevista de Sérgio Moro no melhor programa jornalístico da TV brasileira: o Roda Viva, da TV Cultura. Começou meio inseguro. Acabou firme e passando muita credibilidade em suas colocações. Foi instigado e pressionado. Citou ministros que admira. Lembrou que já trabalhou com a ministra Rosa Weber, em quem distingue seriedade. Weber é a incógnita no dia 4 de abril no STF. Dela, dependerá a mudança de orientação da Corte sobre prisão após condenação em 2ª instância. Hoje, a contagem estaria em 5 a 5. A ministra desempataria.

Efeito dominó

Se a Suprema Corte decidir pela prisão após a confirmação da condenação pelo STJ ou a causa transitada em julgado, haverá um efeito dominó nas prisões. Os presos condenados na 2ª instância começarão a recorrer. A tendência é a de saírem das prisões. O decano Celso de Mello defende essa postura, ao lado de quatro outros, inclusive o ministro Gilmar Mendes, que mudou de posição.

Revisão

Em 2016, o Supremo já decidira, por 6 votos a 5, que o cumprimento de pena poderia ocorrer após condenação em 2ª instância. Petistas e advogados defendem que a prisão só pode ocorrer após o trânsito em julgado no STF. A presidente Cármen Lúcia, a quem cabe definir a pauta, foi pressionada para colocar o tema em discussão. Além do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, outros protagonistas estão apreensivos sobre o julgamento dia 4 de abril, entre eles José Dirceu, João Vaccari Neto e André Vargas; Sérgio Cabral, Eduardo Cunha; Gim Argello e Anthony Garotinho. Há duas Ações Diretas de Constitucionalidade a serem avaliadas e julgadas pelo Supremo. A ministra Cármen não quer colocá-las antes do julgamento do habeas corpus de Lula.

A imagem do Supremo

Está em jogo a imagem do Supremo. Nunca a alta Corte foi tão execrada como se viu nos últimos dias. A viagem do ministro Marco Aurélio ao Rio de Janeiro, onde iria tomar posse na presidência de um Conselho, azedou o clima. O ministro tirou do bolso o bilhete do seu vôo e a sessão foi suspensa, mesmo podendo continuar com a maioria dos ministros presentes. As redes sociais puseram lenha na fogueira. Lula apareceu como o grande beneficiado pelo STF.

E por falar em Lula...

A caravana de Luiz Inácio pelo Sul do país foi um tiro no pé. Por todos os lados, os opositores ao PT e ao lulismo reagiram com paus, pedras e ovos jogados sobre o palanque do ex-presidente. Tratores impediram a passagem da caravana. RS, SC e PR mostraram sua revolta contra o petismo. O ex-deputado Paulo Frateschi foi atingido na orelha. Lula se indignou, acusando fazendeiros, trabalhadores e desempregados que participaram das manifestações. Para ele, trabalhadores deveriam fazer sua defesa.

Puxão de orelha

Recebeu, por isso, forte puxão de orelhas da senadora Ana Amélia, que, falando no Senado, lembrou ao ex-presidente não ser ele o dono da vontade de trabalhadores. Luiz Inácio, é sabido, não enxerga o buraco em que o lulo-dilmismo abriu no país. Considera-se o salvador da pátria. Ou será que começou a cair sua ficha?

Centro embolado

O centro está embolado. Geraldo Alckmin, Michel Temer, Rodrigo Maia, Henrique Meirelles, Álvaro Dias, João Amoedo, Fernando Collor, Flávio Rocha (mais à direita) formam um núcleo que aposta fichas no centro da sociedade - classes médias. Se não houver um processo de decantação das águas centrais, é provável um fortalecimento dos candidatos das margens, tanto à direita, quanto à esquerda. Bolsonaro e o candidato das esquerdas seriam beneficiados. Ciro Gomes, na ausência de Lula, se fortalece. Final de junho é o prazo que os eventuais candidatos estão se dando para análise de sua viabilidade eleitoral.

Cuidado com promessas

Leitores e eleitores. Muita precaução, desde já, contra promessas mirabolantes. Lembro uma delas, feita por Antônio Luvizaro, candidato ao governo da Guanabara nos idos de 60. Indagado sobre uma questão que provoca dores de cabeça no cidadão, o trânsito, disparou a resposta: "Tenho um programa com soluções rápidas e práticas. Vejam que solução barata: carro novo vai pelo túnel novo, carro velho só entra no túnel velho".

Amoedo

Cobram deste consultor uma análise sobre João Amoedo, o candidato do Partido Novo. Pelo que ouço de amigos (não ouvi discurso dele ainda), trata-se de um empresário com experiência no campo financeiro, um liberal de alto coturno. Preparado, é o que me dizem. Tenho minhas restrições ao Partido Novo, que não aceita filiação de políticos militantes. Só aceitam figurantes sem experiência política. Um paradoxo. Política sem políticos. Se esse partido, caso chegasse ao topo do poder, poderia governar? Sem alianças? Uma utopia. Deixem o Amoedo sonhar. Faz bem.

Álvaro Dias

Outros me cobram uma avaliação do senador Álvaro Dias. Trata-se de um perfil que merece respeito. Foi um bom líder do PSDB. Não sei bem as razões de sua saída da floresta tucana. Deve ser por conta de conveniências locais (do Paraná). Mas o senador está muito restrito ao Paraná. Não é conhecido em outras regiões. E seu partido - Podemos -, criado mais recentemente, não tem força e tradição. Estrutura frágil para suportar uma campanha renhida.

Rio violento

A intervenção na Segurança Pública do Rio de Janeiro ainda não deu respostas satisfatórias aos anseios sociais. A violência continua dando mostras de que desconhece o aparato policial. Todos os dias, registros de tiroteio e mortes. Ao que se ouve, as forças ainda estão se exercitando, aprendendo a conviver com a violência. O general Braga é visto como a luz no fim do túnel.

STF no centro das atenções

Nunca a Suprema Corte foi tão monitorada quanto nesses tempos de decisão com viés político. Juízes são divididos em compartimentos partidários, a favor ou contra alguém. Uma mancha sobre a imagem sagrada do STF. Lembrem-se, senhores juízes, do conselho de Francis Bacon: "os juízes devem ser mais instruídos que sutis, mais reverendos do que aclamados, mais circunspetos do que audaciosos. Acima de todas as coisas, a integridade é a virtude que na função os caracteriza".

Trump torpedeado

Donald Trump, o desajeitado presidente norte-americano, continua cometendo sandices e tomando decisões surpreendentes. Analistas da política norte-americana falam abertamente que se aproxima dele um torpedo destruidor: o impeachment. Difícil, mas não impossível.

116 expulsos

EUA, países europeus e aliados estão expulsando 116 diplomatas russos. Impressão é que uma borrasca daqueles tempos da Guerra Fria se aproxima das Nações mais poderosas. O momento é de intranquilidade.

Tirem Lula do páreo

Apesar da insistente peroração da senadora Gleisi, que preside o PT, de que Lula será o candidato do partido às eleições de outubro, é mais aconselhável tirá-lo da lista. Virou ficha-suja. E com essa estampa estará fora do jogo presidencial. A não ser que Luiz Inácio seja melhor e maior entre os iguais brasileiros.

As vias

O PT promete inscrever Lula como candidato. O TSE pode negar a inscrição, ao constatar que ele não cumpre os requisitos da lei. Mas ele pode recorrer ao próprio TSE. E, ainda, se perder, pode apresentar recurso ao STF. Mantém-se candidato até que a Corte julgue seu recurso. Se o STF lhe conceder uma liminar, poderá continuar a concorrer. Minha régua: 90% de derrota no Supremo. Após a conclusão do processo no TRF-4, a Corte poderá mandar ofício a Sérgio Moro a fim de que ele decrete a prisão. Claro, a depender do HC preventivo a ser julgado dia 4 no Supremo.

4 tipos de sociedade

Costumo contar uma historinha que serve para definir a cultura brasileira. Há quatro tipos de sociedade no mundo. A primeira é a inglesa, a mais civilizada, onde tudo é permitido, salvo o que é proibido. A segunda é a alemã, sob rígidos controles, onde tudo é proibido, salvo o que é permitido. A terceira é a totalitária, pertinente às ditaduras, na qual tudo é proibido, mesmo o que é permitido. E, coroando a tipologia, a sociedade brasileira, onde tudo é permitido, mesmo o que é proibido.

Municipalização x nacionalização

Questões importantes que florescem no jardim do Marketing Eleitoral: campanhas tendem a ser municipalizadas ou a receber inputs Federais? Micropolítica - política das pequenas coisas - ou macropolítica, temáticas abrangentes? O discurso da forma (estética) suplantará o discurso semântico? Campanhas privilegiarão pequenas ou grandes concentrações? Qual é o papel das entidades de intermediação social (associações, movimentos, sindicatos, federações, clubes, etc.)? Telegráficas respostas: 1) Ambiente geral - estado geral de satisfação/insatisfação - acaba adentrando a esfera regional/local (temas locais darão o tom, mas a temperatura ambiental será sentida); 2) Micropolítica, escopo que diz respeito ao bolso e à saúde, estará no centro dos debates; 3) O discurso semântico - propostas concretas e viáveis - suplantará a moldura estética; 4) Pequenas concentrações, em série, gerarão mais efeito que grandes concentrações; 5) Organizações sociais mobilizarão eleitorado.

Porandubas Políticas 4277

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Abro a Coluna com a graça do Piauí

Dois vereadores da Arena de Parnaíba/PI. Um, da Arena de Petrônio Portela, o outro da Arena de Alberto Silva. Inimigos políticos. Um, dentista, pôs os dentes na boca do outro. Na primeira sessão, os dois brigaram:

- V. Ex.ª é um desonesto.

- Desonesto é você, filho de uma... Devolva meu dente. Pois fui eu que pus.

- Eu paguei, seu sacana.

- E daí que pagou? Falar mal de mim, até pode. Com meu dente, não.

Partiu pra cima. E arrancou os dentes. Sem anestesia.

A nova Carta

Pois é, Luiz Inácio está encomendando a um grupo de economistas e assessores uma nova Carta aos Brasileiros, nos moldes do documento que apresentou em 2002, com a grande ajuda do amigo de então, Antônio Palocci. O objetivo é o mesmo: acalmar o mercado. Pelo menos nesse aspecto, a senadora Gleisi, presidente do PT, não blefa. A carta está sendo confeccionada e vai apontar os rumos da economia em um eventual novo governo petista. O problema é a credibilidade. Diminui sensivelmente no meio da sociedade o número daqueles que botam fé em Lula.

As margens

O discurso lulista continua a ter fortes influências nas margens. Que consideram todos os políticos iguais, com a diferença de que Lula teria lhes dado um cobertor social longo. A pior recessão da história brasileira passa longe do sistema cognitivo das massas. Ao correr da campanha, caso Lula seja confirmado candidato, é possível que parcela das margens seja induzida pela força dos círculos concêntricos, essas ondas que saem do meio, formando marolas até as margens. Ou seja, o aparato discursivo anti-PT será intensificado ao correr da campanha. E a tuba de ressonância tende a ser tocada por núcleos do centro da sociedade.

Lula na urna

Para muitos brasileiros, seria mais útil para a democracia que Lula fosse candidato. Se for impedido, circulará por bom tempo no território a ideia de que Luiz Inácio foi impedido. Uma derrota nas urnas é mais provável que eventual vitória. A considerar a hipótese de melhoria do bem-estar de vida da população, a partir do resgate da economia. Já o cenário de uma vitória do lulopetismo teria como eixo a economia em frangalhos, sob ecos do desespero social. Tudo é possível. Acompanharemos essa trajetória de perto até outubro.

A pressão em Porto Alegre

Não se justifica o estardalhaço que o PT está organizando para pressionar os juízes do TRF da 4ª Região. A democracia pressupõe o jogo dos contrários, as manifestações contra e a favor de Lula. Mas há um limite para tais manifestações. A ordem pública tem de ser mantida. A segurança da população há de ser garantida. Ameaçar juízes, como se tem feito, é um expediente de regimes autoritários. Pior, ainda, é prever "morte", "assassinatos", em caso de eventual prisão de Luiz Inácio. Foi isso que anunciou a senadora Gleisi Hoffmann, do alto de seu cargo de presidente do PT. Menos, senadora, menos.

Maquiavel

Uma de suas lições: "Um príncipe precisa usar bem a natureza do animal; deve escolher a raposa e o leão, porque o leão não tem defesa contra os laços, nem a raposa contra os lobos. Precisa, portanto, ser raposa para conhecer os laços e leão para aterrorizar os lobos." Arremata: "não é necessário ter todas as qualidades, mas é indispensável parecer tê-las."

O oposicionismo na eleição

Os candidatos classificados como de "oposição" aos atuais governantes dos Estados exibem uma extraordinária vantagem: apresentam-se como alternativa às más e péssimas administrações. Só isso lhes confere uma posição melhor. E se forem símbolos do novo, perfis não contaminados pelo vírus da velha política, aumentarão ainda mais as chances. Cofres vazios, funcionários públicos com salários atrasados, greves de polícias, assaltos em profusão deixando a população amedrontada - constituem o pano de fundo que acolherá o pleito deste ano. Mas os candidatos da oposição precisam ser confiáveis. Não serão eleitos apenas com o verbo de destruição do adversário.

O discurso político

Costumo bater nesta tecla. Muita gente se engana com a eficácia do discurso político. Pois bem, o discurso político é uma composição entre a semântica e a estética. O que muitos não sabem é que a eficácia do discurso depende 7% do conteúdo da expressão e 93% da comunicação não verbal. Esse é o resultado de pesquisas que se fazem sobre o tema desde 1960. E vejam só: das comunicações não verbais, 55% provêm de expressões faciais e 38% derivam de elementos paralinguísticos - voz, entonação, gestos, postura, etc. Ou seja, do que se diz, apenas pequena parcela é levada em consideração. O que não se diz, mas se vê, tem muito maior importância. Portanto, senhoras e senhores que encenam peças no programa eleitoral, anotem esta informação.

O perfil do empresário

O perfil do empresário moderno, arrojado e empreendedor, entra com muita naturalidade no figurino do atual pleito. É visto pelo eleitor como alguém que fez e faz sucesso, não está contaminado com o sangue da velha política, e pode, nessa condição, emprestar sua experiência para redimir o Estado, resgatando sua força. O momento do empresário é esse: se o cavalo passar encilhado à sua porta, você, empreendedor com esse perfil, monte nele. E faça boa viagem. Chegará bem a seu destino.

O estrategista na campanha

Dinheiro curto, campanha menor - proibição de doação de recursos por empresas, tempo de campanha de 90 dias nas ruas para 45 dias e de 45 dias no rádio e TV para 35 dias - sugerem a realização de uma campanha racional, focada em prioridades, concisão e precisão no discurso (propostas), intensa articulação social. Esqueçam aqueles filmetes cinematográficos, de belo efeito visual. Não haverá espaço para engodo. O marqueteiro tradicional cederá lugar ao estrategista.

Marketing resgata identidade

Graças à crise, o marketing eleitoral se reencontra com sua verdadeira identidade. Que é formada por cinco eixos; pesquisas (quanti/quali), discurso, comunicação, articulação e mobilização. Os publicitários da era de Duda Mendonça estão dando adeus. Fizeram, vale reconhecer, celebradas campanhas de publicidade - criativas, sem dúvida. Mas os tempos de hoje exigem mais condimentos, outras engrenagens. Marketing eleitoral não se resume a programas de rádio e TV. Ufa! Viva a crise.

Redes sociais

As redes sociais terão papel muito forte na campanha eleitoral. Serão muito acessadas, principalmente na esteira do tiroteio verbal que, aliás, já começou. As redes serão inundadas de fake news. A mentira, a deturpação, o engodo, a mistificação, enfim, situações tendenciosas serão massificadas. O jurídico das campanhas deve ficar atento para as notícias sobre seus candidatos. Convido, desde já, as equipes de plantão e os milhões de internautas a não se deixarem levar pela falsidade.

Feminismo exacerbado

Nos últimos tempos, têm explodido denúncias de assédio sexual envolvendo personalidades do mundo artístico. Urge saudar esses tempos de expressão feminina contra os abusos masculinos. A atriz Catherine Deneuve teve a coragem de fazer um artigo onde defende a liberdade do homem de paquerar. Foi execrada. O fato é que o mundo feminino, ao que parece, divide-se entre mulheres que defendem o feminismo exacerbado e mulheres que enxergam certo exagero nas denúncias. A situação abre muita polêmica. O bom senso haverá de prevalecer. Não se pode confundir uma paquera com assédio. Ou será que este consultor perdeu as estribeiras?

CNJ e leis inconstitucionais

Por falar em polêmica, abriu-se uma, recentemente, que tem por base a decisão do STF de permitir ao Conselho Nacional de Justiça que não aplique leis que considere inconstitucionais. A tese foi definida pelo Supremo Tribunal Federal, por unanimidade, na última sessão do Plenário de 2016, mas o acórdão só foi publicado em dezembro de 2017. A ministra Cármen Lúcia, relatora do caso, permitiu que o Conselho Nacional de Justiça reconheça inconstitucionalidade de leis ao analisar situações específicas. Em seu voto, ela disse que deixar de aplicar uma norma por entendê-la inconstitucional é diferente de declará-la inconstitucional, algo que só pode ser feito pelo Judiciário. Órgãos de controle administrativo têm o "poder implicitamente atribuído" de adotar essa prática. Cármen citou o CNJ, o Conselho Nacional do Ministério Público e o Tribunal de Contas da União.

Vitória das extremidades?

Este consultor tem refletido bastante sobre uma questão recorrente nos debates de que tem participado. Afinal, é possível termos, este ano, a vitória de alguém das extremidades do arco ideológico, Lula ou Bolsonaro? Confesso que vejo o fortalecimento de correntes que não fecham com perfis das margens. Sob essa observação, seria mais viável a vitória de um perfil que transite pelo espaço de centro-direita ou centro-esquerda. As margens não fariam maioria. Mesmo assim, coloco em ênfase a relatividade das coisas no campo da política. Ou seja, o imponderável frequenta nosso meio com certa frequência.

Reversão de expectativas

Outra questão para a qual chamo a atenção é: a renovação no Parlamento será grande? Respondo: paradoxalmente, não. Explico: menos recursos, campanhas mais curtas (de rua e de tempo de rádio e TV), favorecem quais perfis? Os já conhecidos. Ou seja, é mais provável que os atuais parlamentares, na condição de candidatos, sejam reeleitos. Em 1990, a renovação se deu por volta de 63%. Este ano, projeto uma renovação abaixo da média histórica: apenas de 40%. A conferir.

Fecho a Coluna com uma historinha do Espírito Santo.

Robô do prefeito?

Na Câmara Municipal de Mimoso do Sul (ES), Luiz Carlos da Silva, líder do MDB, discutia com Jaime da Rocha Nogueira, líder do PDS, por causa do prefeito Pedro Costa, também do PDS. Luiz Carlos atacava o líder do prefeito:

- V. Exa. é um teleguiado, sem personalidade. Só cumpre ordens.

- Sou líder. E o líder tem de dizer o que o Executivo pensa.

- Critico o comportamento de V. Exa., por ser um homem de recados, robô do prefeito.

- Senhor vereador, até agora discutia com V. Exa. porque não me sentia agredido. Agora, V. Exa. vai ter de provar a esta Casa quando é que eu roubei o prefeito.

A sessão acabou.