Porandubas Políticas n. 4239

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Abro a coluna com uma historinha cheia de graça que presenciei e que envolve o grande e saudoso governador Franco Montoro.

Agrário e urbano

Franco Montoro ficou famoso pela troca de nomes que fazia. Há muitas histórias envolvendo essa modalidade de dislexia ou dislogia. Uma delas ocorreu comigo, no restaurante dos professores no campus da USP. Montoro havia sido convidado por um grupo de professores para fazer uma palestra sobre o Brasil e a América Latina, dentro do fórum de debates que desenvolvia na Fundação que criou e dirigiu. Certo momento, ao falar do RN, meu Estado, ele passou a se referir a nomes de amigos comuns e conhecidos. Foi quando, de repente, depois de vários acertos, ele me pega de surpresa com a indagação:

"E o Agrário, como vai o Agrário"?

Respondi: "Agrário, governador, não sei quem é, não me lembro...".

Comecei a mapear os nomes de pessoas famosas. Aí lembrei-me de um nome: Urbano. E repus a pergunta:

"Por acaso, governador, não é Urbano, Francisco Urbano"?

Era. Na época, Urbano dirigia a Contag - Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura. Daí a confusão. Em respeito ao grande homem público, contive a risada!

A política avança

A articulação política ganha volume à medida que os protagonistas - partidos e lideranças - veem aproximar-se o tempo de grandes decisões voltadas ao pleito de 2018. Alguns movimentos deixam ver passos e sinais. À direita, sobe o tom da candidatura Bolsonaro, que abre um leque de conversações com lideranças e faz peregrinação em alguns países (até nos EUA) tentando se mostrar ao mundo. À esquerda, Lula se apresenta como o eixo que gira a máquina petista e seu entorno, o PC do B, o PSOL, parcela do PSB e outras pequenas fatias. No centro, a movimentação tem dois grandes articuladores, o presidente Michel Temer e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Cada área está querendo ver além do horizonte.

À direita

O deputado Bolsonaro começa a se desfazer de adjetivos que o tornam canhão amedrontador. E ensaia um discurso liberal como forma de agradar ao mercado. Mas suas peripécias discursivas não serão esquecidas. Negocia entrada no Patriota, que faz uma limpeza de área nos Estados para colocar nomes confiáveis e comprometidos com o deputado. Como é, hoje, o único nome com grande visibilidade na direita, torna-se o principal bastião contra Lula. Doria perde essa condição em face da quase certeza que Alckmin deverá ser o candidato do PSDB.

À esquerda

Luiz Inácio é um caixeiro-viajante. Corre o mundo. Faz-se presente aqui e ali, inclusive em atos de lançamento de candidaturas de outros partidos. Foi assim que se fez presente no Congresso do PC do B, em Brasília, quando foi lançado o nome da deputada estadual Manuela D'Ávila à presidência da República. Manuela fez, naquele evento, a defesa de Lula, dizendo que é condenado sem provas. O objetivo fica claro: união de PT e PC do B em eventual segundo turno. O PSOL, por sua vez, mapeia os quadros para decidir se sai com Lula ou com candidatura própria. A questão esbarra na hipótese: se o candidato for um parlamentar (Chico Alencar, Marcelo Freixo ou outro), enfrentará a ameaça de perder a condição de deputado em 2018. Afinal, este partido não tem capital eleitoral para eleger um presidente.

No centro

Os partidos do centro precisarão de muito esforço de seus articuladores para chegar a um consenso. A ideia que passa pelas cabeças de suas lideranças é a de formar um amplo espaço central, acolhendo PMDB, DEM, PP, PTB, PRB, Podemos, etc. - e escolher um nome capaz de aglutinar no centro pedaços da esquerda e da direita. Esse perfil canalizaria os esperados bons feitos do governo, a partir da economia com números saudáveis - inflação de 2,5%, Selic de 7%, emprego crescendo, setores primário, secundário e terciário com bons dados de crescimento, PIB podendo chegar a 1,5. Quem será o nome?

PSDB com dificuldades

O PSDB caminha na direção de Geraldo Alckmin. Mas entrará com força diminuída no pleito. A pendenga aberta por Tasso Jereissati e os cabeças-pretas (deputados mais jovens) contra o governo deixa sequelas. Há visível contrariedade de peemedebistas e outros partidos da base em relação aos tucanos, sob a hipótese, que ganha corpo, de que o PSDB não será apoiado pelo PMDB e outros. Nesse caso, preciosos minutos de rádio e televisão seriam perdidos pelo PSDB, arrefecendo a visibilidade de seu candidato na campanha. Alckmin não saiu bem na fita do afastamento do PSDB do governo.

E Doria?

João Doria se afasta um pouco da guerrilha que se trava hoje entre grupos tucanos para se dedicar com mais afinco à administração. Foi criticado pelas viagens que fez aos Estados. Mesmo assim continua a ser um player forte no campo eleitoral. Trata-se de um perfil determinado. Se perceber que tem chances, não se descarta a possibilidade de sair como candidato por outras siglas, a partir do próprio PMDB. João mantém excelente relacionamento com o presidente Temer. O recuo de hoje, portanto, faz parte do jogo. Fala-se, ainda, da possibilidade de vir a ser candidato a vice na chapa de Geraldo Alckmin ou ao governo do Estado. Este consultor descarta essas alternativas, eis que será praticamente impossível uma chapa puro-sangue paulista ou uma candidatura ao governo de SP, coisa que aumentaria o racha na floresta tucana.

E Huck?

Luciano Huck está sendo paparicado por alguns partidos, a partir do PPS comandado por Roberto Freire. Poderá ser uma candidatura viável em 2018? Sim. Na política, tudo é possível, principalmente levando-se em consideração a indignação social contra os políticos tradicionais. Acontece que os palanques eleitorais são bem diferentes dos palcos de animação de programas de auditório. E se Huck não dispuser de tempo de TV para massificar suas ideias? Este consultor não acredita na viabilidade político-eleitoral do empresário Luciano Huck. Mas deixa no ar a famosa lição: em política, tudo é possível.

E Moro?

Pois é, o Instituto Paraná Pesquisas acaba de mostrar uma pesquisa dando conta do bom potencial do juiz Sérgio Moro. Teria ele melhores condições de que Huck, mais precisamente 35,5%, caso fosse o candidato. A mesma pesquisa diz que pouco mais da metade dos brasileiros votaria em um candidato estreante na política.

Voltando a Lula

Lula fará das tripas coração para tentar viabilizar sua candidatura. Usará todas as brechas possíveis para conseguir sua meta, a partir da sinalização de que só uma condenação transitada em julgado, na terceira instância, o impediria de seguir o caminho. Seja qual for o desenlace, Lula será o principal semeador na roça eleitoral das esquerdas. É exímio em palanque, dá nó em ponta de faca. Vai atribuir o desemprego ao atual governo. E queimará as reformas do governo Temer, mesmo diante de números que mostram o Brasil entrando nos trilhos. Este consultor tende a acreditar que Luis Inácio deverá esquentar o clima eleitoral, seja como candidato seja como fogueteiro.

Voltando ao centro

Os partidos do centro chegarão ao consenso em torno de um nome ou tendem a ir à luta com seus quadros? Esse é o x da questão. Unidos, poderão ir longe; desunidos, abrirão espaço para a chegada ao segundo turno do candidato da esquerda ou o candidato da direita. A hipótese do candidato da esquerda chegar ao segundo turno é mais provável que a chegada de um candidato da direita. Mais viável seria a chegada do candidato do centro. Claro, caso os partidos do bloco não se dividam.

Temer e Maia

O presidente Michel Temer e o presidente Rodrigo Maia estão afinados. Temer ouve muito Maia, que teria endossado o nome de Alexandre Baldy para o Ministério das Cidades. A hipótese também é viável: sob apoio do presidente da Câmara, é possível se chegar aos 308 votos necessários para a aprovação da reforma da Previdência na primeira quinzena de dezembro. Caso aprovada, ganharia o aplauso do mercado. Em 2018, (Eunício quer votar apenas em março) seria votada no Senado. Se os dados da economia mostrarem boa recuperação do país, certamente a tendência dos senadores seria de aprovação da matéria. E se isso ocorrer, o presidente da República será um grande eleitor no pleito de 7 de outubro.

Imbróglio está no ar

O TRF da 2ª região mandou prender novamente o presidente da Alerj, Jorge Picciani, e mais os dois deputados do PMDB que estavam presos. O imbróglio está no ar. O que acontecerá? E se a Assembleia voltar a contrariar a Justiça? E se o caso bater no STF? Diz-se que não está fora de cogitação intervenção na Casa Legislativa. O fato é que a brecha aberta pelo STF no caso Aécio Neves está produzindo denso contencioso. A palavra final será a da nossa mais Alta Corte.

A força do Nordeste

O Sudeste concentra mais da metade do eleitorado brasileiro. Geraldo Alckmin confia muito na boa avaliação dos paulistas ao seu governo. Só São Paulo tem 35 milhões de eleitores. Mas o Rio e Minas Gerais serão dois polos fortes de oposição. Dito isso, surge o voto nordestino. Será decisivo. O NE tem 27% dos votos do país. Daí a busca frenética do nome do vice na região. Alckmin procura um nome do Nordeste. Quem? Um quadro de respeito é o deputado Jarbas Vasconcelos, do PMDB de Pernambuco. A questão é: como o PMDB encararia esta escolha? O deputado tem lastro e história.

AT&T/Times Warner

O Departamento de Justiça dos EUA ajuizou ação na segunda-feira para anular a compra pela AT&T da Time Warner, dona dos estúdios Warner Bros e das redes de TV HBO e CNN. O movimento foi classificado como incomum por especialistas do setor, uma vez que o acordo entre as duas empresas, de US$ 85 bilhões, foi anunciado há mais de ano. A AT&T é operadora de telefonia e provedora de TV a cabo e internet móvel e fixa. No Brasil, tem participação na TV por assinatura Sky. O governo argumenta que o contrato viola leis antitruste, pois a AT&T poderia "usar o controle sobre a programação popular da Time Warner para causar danos à concorrência ... e resultar em oferta de conteúdo menos inovador e contas mais altas para as famílias americanas". Na nota, o estilo rompante e ameaçador de Trump.

Fecho a coluna com uma historinha de Morro Agudo/SP.

Tape os ouvidos

Em Morro Agudo, a 80 quilômetros de Ribeirão Preto/SP, havia um comerciante de muito prestígio, mas analfabeto (verdade). Tinha um empregado que lia as coisas para ele. Um dia, o comerciante brigou com a mulher, separaram-se, contrataram advogados, foram para a Justiça. Certo dia, chegou uma carta da mulher com inúmeras folhas, passando a limpo (ou a sujo) os longos anos de vida em comum. Ele não poderia pedir ao empregado para ler. Tinha vergonha. Chamou seu melhor amigo:

- Você pode ler esta carta para mim? Mas você vai me fazer um favor. Eu sei que ela vem falando tudo, contando tudo. Então você leia alto para mim, mas, se quiser continuar meu amigo, tape os ouvidos.

Porandubas Políticas nº 553

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por Gaudêncio Torquato.

 

Abro a coluna com a Paraíba do grande José Américo.

Cancelando chuvas

A seca era medonha. A Paraíba em desespero, o governador aflito. Um dia, caiu uma chuva fininha no município de Monteiro. Inácio Feitosa, o prefeito, correu ao telégrafo: "Governador José Américo: chuvas torrenciais cobriram todo município de Monteiro. População exultante: Saudações, Feitosa". Os comerciantes da cidade, quando souberam do telegrama, ficaram desesperados. O município não ia mais receber ajuda. Ainda mais porque a mensagem era falsa e apressada. Feitosa correu de novo ao telégrafo: "Governador José Américo: cancelo chuvas. População continua aflita. Feitosa, prefeito".

O clima político

A tensão pode ter diminuído com o fechamento da porta da 2ª denúncia contra o presidente, mas o ambiente parlamentar ainda é cheio de interrogações. E de muita pressão. Dúvidas: o governo terá forças para levar adiante a agenda reformista? Conseguirá ter suficiente número de votos para aprovar a reforma da Previdência? E a simplificação tributária? A pressão está alta. Partidos do centro querem ver tucanos fora da base e tomar seu lugar. PMDB, inclusive, faz pressão. O presidente ouve muita gente no confessionário do Planalto.

PSDB, taquara rachada

O tom é, como se diz no vulgo, de taquara rachada. Meio agudo, meio grave. E muito sustenido. (Desculpem os musicólogos se este escriba cometeu heresia com a partitura). O fato é que o tucanato continua sem saber que rumo tomar. Parte quer sair logo do governo, parte quer ficar até abril, prazo de desincompatibilização de ministros que serão candidatos nas eleições de outubro. A impressão é de que a saída será antecipada. O desgaste para a imagem do governo com as trapalhadas do PSDB já foi contabilizada. O que mais está em jogo?

Imagens dos candidatos

O que está em jogo é a imagem de candidatos. Imaginam que permanecer na máquina faria um dano a suas imagens. Ora, os tucanos não vão melhorar sua imagem com saída antecipada. Já estão depreciados sob esse prisma. O guru do partido, FHC, quer ver logo a saída. Alckmin, idem. Mas essa posição não atenuará a posição dúbia do partido. O eleitorado sabe quem é quem. E acompanha até as maquinações de efeito eleitoreiro. É evidente que o partido manteve um cordão umbilical com o governo. Constatar que a protelação da saída ligaria o PSDB ao peemedebismo, como escreveu Fernando Henrique, é sandice. Execrar agora a aliança com o PMDB é burrice. Que santidade FHC está querendo apregoar?

As chances de Alckmin

Se Geraldo Alckmin acha que vai ganhar mais votos com o afastamento dos tucanos do governo Temer cometerá um desatino. A real politik, governador, se ancora em parcerias entre siglas. Se não por identificação ideológica - eis que todas nadam no pântano da desideologização -, pelo menos por conveniência. Afinal, os bons minutos que o PMDB e outras execradas siglas possuem serão vitais para a massificação do discurso de candidatos. O PMDB não vai deixar seus minutos migrarem com facilidade. Detalhemos essa questão.

Tempo de TV

O tempo de TV e rádio será fundamental na campanha de 2018. Mais que em campanhas anteriores. Por uma simples razão: a campanha será mais curta - 35 dias de mídia e não mais 45 -, recursos financeiros também bem mais curtos, eleitorado desconfiado e indignado, expectativa por um discurso convincente. Partamos de um exemplo: João Doria, em São Paulo, fez o maior leque de alianças partidárias dos últimos tempos. Teve um tempo longo de rádio e TV para expor suas propostas. Ganhou muita visibilidade. E deixou seu opositor para trás em matéria de articulação com as massas.

Articulação e mobilização

A campanha de 2018 vai se amparar, além do eixo da comunicação, nos eixos da articulação e da mobilização. O primeiro diz respeito aos contatos, parcerias e efetivos vínculos que os candidatos deverão estabelecer com entidades organizadas, líderes comunitários, bases políticas nas regiões e bairros, etc. Já a mobilização diz respeito aos contatos diretos com o povo. Se o candidato em campanhas passadas chegava a gastar sola ou borracha de dois pares de sapatos, deve se preparar para gastar quatro pares. Vai ter muita andança. O eleitor indignado vai querer ver o candidato - olho no olho, ombro a ombro, testa a testa, mão na mão, porta a porta, casa a casa.

Campanha mais direta

Candidatos não são sabonete ou pacote de macarrão. Não adianta fazer uma bela campanha de marketing televisivo, com a fosforescência de luzes e efeitos cinematográficos. O eleitor está desconfiado de tantas promessas. Quer sentir a alma do candidato. E não apenas sua voz pelo rádio ou TV. Quer conferir o grau de verdade. E isso será objeto da maior proximidade entre candidato e eleitor. Os valores pessoais serão checados. Mas o projeto, a ideia central, as propostas, enfim, deverão ganhar substância. Programas devem ser oportunos, diretos, objetivos, de forma a atender aos reclamos mais urgentes das populações, dos Estados e regiões.

Um bom candidato

Em 2018, o eleitor buscará um candidato com as seguintes qualidades: experiência, honestidade; vida limpa e passado decente; assepsia; equilíbrio/ponderação; preparo; coragem/determinação; autoridade (não confundir com autoritarismo). Há uma saturação de perfis antigos, que usam as esteiras da velha política. O eleitor quer ver perfis mais identificados com suas grandes demandas: segurança, saúde, educação, melhoria das condições de vida nas regiões, nos bairros, nas ruas. Quem apresentar propostas mais condizentes com as necessidades do eleitor terá melhores condições de ser escolhido.

E o medo? Lula e Bolsonaro passam

Lula e Bolsonaro aparecem hoje como finalistas das eleições de 2018. Este consultor político não acredita nesta hipótese que tem sido defendida por analistas de todos os espectros. Por quê? Primeiro, porque um deve ser impedido pela Justiça e o outro, porque, além de ser considerado um perigo radical, deverá ser engolfado pela avalanche de discursos de outros. Bolsonaro terá muito pouco tempo de mídia. Não resistirá. E Lula, mesmo que garanta sua condição de candidato, passa hoje mais medo do que esperança. Em 2002, expressava esperança. Hoje é a extensão do medo. Principalmente junto aos bolsões médios, que funcionam como os clarinetes e trompetes da orquestra.

Esperança

Essa é a virtude mais ansiada pelos conjuntos eleitorais. Das margens carentes aos grupamentos mais altos da pirâmide social. Os pobres esperam que seu candidato abra as portas da esperança, sob a ilusão de que ele trará progresso, encherá seu bolso de dinheiro, garantirá a educação de seus filhos, comida barata, transporte ligeiro. Enfim, a felicidade está atrás da porta que o candidato promete abrir. Já as classes médias querem ver políticas mais ajustadas ao estado do país e que se reflitam em segurança, harmonia social, melhoria dos serviços públicos, conforto. O candidato que mais se identificar com estas expectativas e políticas será escolhido no momento do voto. (É claro que haverá sempre bolsões tradicionais que votarão de "cabresto").

Segurança

O país está tomado pela violência, que se espraia por todo o território. Por isso, o discurso da segurança será bem acolhido. Mas as promessas vãs e banais - bandido bom é bandido morto, bandido irá para a cadeia - não conseguirão convencer. Propostas devem ser demonstradas quanto à viabilidade. O discurso exigirá comprovação sobre a aplicação das ideias. Onde estarão os recursos? De onde virão? Maná não cai do céu. Quem desejar ser crível, precisa comprovar aquilo que dirá.

Rio de Janeiro

O Rio de Janeiro é um caso sério. Garantir segurança no Rio de Janeiro parecerá tarefa para um semi-deus. Como? As Unidades de Polícia Pacificadora estão enfrentando problemas. No Rio, o furo é mais em cima. Conluio de corrupção. O ministro Torquato Jardim pôs o dedo na ferida.

Lula perdoa

Lula está dizendo que "perdoa" os golpistas. Pragmático, acena a aliança com Renan Calheiros, em Alagoas, e Eunício Oliveira, no Ceará. A Democracia Socialista (DS) reage. Combate essa formação. Gleisi, a presidente do PT, acena com parcerias de esquerda, o que faz fechando o olho direito, que reabre para ver Lula entrando de soslaio pela banda direita. Eita, PT.

A invasão chinesa

Os chineses iniciaram a invasão no Brasil. De janeiro a outubro deste ano, movimentaram cerca de US$ 10,84 bilhões - mais de R$ 35 bilhões. As aquisições chinesas saltaram de 6, no ano passado, para 17. E vão subir muito. Em 2018, espera-se uma enxurrada de recursos. Pelo menos 10 grandes empresas demonstram interesse em investir em áreas como energias renováveis, ferrovias, portos, mineração, papel e celulose e até em telecomunicações.

Reforma trabalhista

Sábado, 11, entrarão em vigor os dispositivos aprovados na reforma trabalhista. Parcela de juízes do trabalho e membros do Ministério Público do Trabalho prometem não cumprir a nova legislação. Seria um caso clássico de desobediência civil, que baterá inevitavelmente nos Tribunais Superiores. Só estes poderão sustar os "violadores" da lei. Só mesmo no Brasil pode-se constatar a aberração de um juiz - o servidor por excelência para fazer cumprir a lei - desobedecer o estatuto legal.

Neil Ferreira

Um nome que fez história na propaganda brasileira. Um dos mais criativos publicitários. Um contador de belas histórias. Um gozador. Um grande papo. Um crítico feroz da política e de seus protagonistas. Um amigo. Deu-nos adeus, ontem. Que Deus o acolha.

Fecho a coluna com uma historinha do Paraná.

Conversando no jardim

Manuel Ribas, interventor no Paraná (1932/1935), depois governador (1935/1937), despachava no palácio, mas gostava de morar em sua casa. Bem cedinho, chega um rapaz e encontra o jardineiro regando o jardim:

- Seu Ribas está? Sou filho de um grande amigo dele. Meu pai me mandou pedir um emprego a ele. Eu podia falar com ele?

- Poder, pode. Mas, e se ele não lhe arrumar o emprego?

- Bem, meu pai me disse que, se ele não arranjasse o emprego, eu mandasse ele à merda.

- Olhe, rapaz, passe às 4 da tarde lá no palácio, que é a hora das audiências, e você fala com ele.

Às 4 horas, o rapaz estava lá. Deu o nome, esperou, esperou. No salão comprido, sentado atrás da mesa, o jardineiro. Ou seja, o governador. O rapaz ficou branco de surpresa.

- O que é que você quer mesmo?

Repetiu a história. "Meu pai me mandou pedir um emprego ao senhor".

- E se eu não arranjar o emprego?

- Então, seu Ribas, fica valendo aquela nossa conversa de hoje de manhã, lá no jardim.

Porandubas Políticas nº 552

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por Gaudêncio Torquato.

 

Ronaldo Cunha Lima.
Abro a coluna com engraçadas historinhas envolvendo o poeta, historiador, ex-senador, ex-deputado e ex-governador da Paraíba, Ronaldo Cunha Lima, figura sempre bem lembrada nos causos de política. Quem conta é Diógenes da Cunha Lima, o grande poeta e escritor, seu primo e presidente da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras em seu livro sobre "Ronaldo Cunha Lima, um nordestino de todo canto".
O nome é Glauce
Quando lhes nasceu a filha, a princesa da casa, "A doce paz que me aquieta" foi sugerido o belo nome Raquel. Ronaldo nega. Queria Glauce. E atacou com a caricatura da fala do nordestino:
- Quando ela pedir alguma coisa e não souberem bem o que é, vão dizer : Qué qui Raqué qué?
Bondade
Na "Convenção dos Cunha Lima", em Pirangi, mostro a Ronaldo o brasão familiar com o lema que inventei: A bondade vence. Ele acrescenta:
- A Bondade vence, mas é melhor quando... Convence.
O verso alheio
Um escritor carioca, laureado, em roda de admiradores, fala sobre suas desventuras em Recife. Ronaldo não gostou da apresentação:
- Este aqui é um nordestino. Que veio advogar no Rio é poeta sonetista.
O escritor, com ares superiores, proclama:
- Soneto é a minha pátria. Hoje mesmo, pela manhã, fiz este soneto. E recita.
Ronaldo contesta:
- Não pode ser. Só se lhe baixou um espírito, foi psicografado. Conheço este soneto desde menino. Penso que é de um velho poeta português.
- Que história é essa?
- Posso provar, diz Ronaldo. E recita os 14 versos.
Depois, sorrindo, explica que decorou o poema na hora, ao ouvir a leitura.
Lula e Bolsonaro
Leio e pasmo: Bolsa cai e dólar sobe por causa de pesquisa do Ibope, que mostra Lula, com 35%, e Bolsonaro, 13%. O mercado estaria reagindo negativamente ao quadro apresentado. O pior é constatar que analistas e comentaristas entram na onda dessas pesquisas que não retratam o que efetivamente ocorrerá no país em outubro de 2018. A partir da possibilidade de Lula vir a se candidatar, tudo gira em torno de uma grande interrogação.
Condenação na 2ª instância
A maioria das projeções, hoje, aponta para eventual condenação de Lula na 2ª instância. Mas, se não houver consenso na Turma em que será julgado, a candidatura de Lula será levada adiante, na esteira de uma interpretação ensejada pelo STJ, a de que nesses casos, recursos (de embargos infringentes) podem ser apresentados. Portanto, a tese de que só poderá ser impedido após sentença transitada em julgado continua sendo defendida.
As circunstâncias
Aceitemos, portanto, a hipótese da candidatura Lula. Terá ele adversários e um repertório pesado de denúncias e acusações o espera. O legado que o PT deixou no país não passará em brancas nuvens. O país deverá continuar a recuperar seus níveis de emprego, a inflação deve continuar seu controle e os juros tendem a permanecer em índice de queda. Lula aguentará? Difícil responder, mas a lógica dos tempos eleitorais indica que as circunstâncias do momento determinarão sua posição no ranking.
BO+BA+CO+CA
A economia puxará o trem da política. Logo, a velha equação que sempre lembro dará o tom: Bolso com dinheiro, Barriga satisfeita, Coração Agradecido, Cabeça tende a votar com os patrocinadores da boa situação. A recíproca é verdadeira. Lula será, claro, uma vedete no Nordeste, onde o eleitorado, mesmo sob bombardeio sobre ele, o admira, considerando-o o Pai dos Pobres. Mas o Sudeste, com o maior bolsão eleitoral do país, pode funcionar como a pedra jogada no lago. Ondas concêntricas se formarão até chegar às margens. O Sudeste, nesse caso, será a tuba de ressonância eleitoral.
Transferência
Lula terá condições de transferir sua votação caso seja impossibilitado de ser candidato? Pouco provável. Apenas uma parcela de seus eleitores poderia seguir sua recomendação. A parcela mais engajada e contrita e restrita ao Norte, Nordeste e Centro-Oeste. A campanha será realizada sob um novena de palavrórios contra a roubalheira e contra a bandidagem na política. Poucos escaparão ao bombardeio. Será um verdadeiro tiro ao alvo.
Bolsonaro
Este deputado, ao contrário das projeções de alguns analistas políticos, não terá chances de chegar ao segundo turno. As galeras que hoje lhe fazem festa nos aeroportos não conseguirão ter votos suficientes para torná-lo altamente competitivo. Há uma tendência de querer ver um candidato de direita para se contrapor a Lula, mas será pouco provável uma escapada das massas pela banda direita. Da mesma forma que Lula, a identidade de Bolsonaro será exposta e seu despreparo será evidenciado.
Perfil do centro
Este consultor insiste em manter sua visão de que o país examinará a moldura de perfis, mas, na reta final, tenderá a adotar a linha do meio. In médium, virtus - a virtude está no meio. Não há nomes a citar nesse momento. Mas os valores da harmonia, do equilíbrio, do bom senso, do apaziguamento de ânimos, da pacificação do país devem compor o discurso ansiado pela comunidade. Paz e não guerra continuada - essa seria a bandeira hasteada no coração nacional.
Outsiders?
A eleição de um outsider não é coisa fora de propósito no contexto da política pós-sociedade industrial, onde se amontoam as mazelas que corroem as democracias, como a desideologização, o declínio dos partidos, o declínio dos parlamentos, o declínio das oposições, a personalização do poder, a ascensão das tecnoestruturas e o aparecimento de novos circuitos de representação, como associações, sindicatos, federações, núcleos, grupos, movimentos de toda a ordem. O deslocamento da política tradicional para outros espaços é uma realidade aqui e alhures.
Cacareco
O momento e as circunstâncias induzem a comportamentos inusuais da base política, como a eleição de um Cacareco. Lembremos: em 1959, com a morte de Getúlio Vargas, sob o governo de Adhemar de Barros, em São Paulo, o eleitorado indignava-se contra vereadores paulistanos. Na campanha, apareceu o rinoceronte Cacareco (na verdade uma fêmea), vindo do Rio emprestado para abrilhantar a inauguração do zoológico. O empréstimo era por seis meses. Passado o tempo, os paulistanos fizeram um movimento para que o animal de 230 quilos aqui ficasse. Um movimento decidiu pela candidatura de Cacareco a vereador com este slogan: "vale quanto pesa". Um matreiro candidato saiu à rua carregando uma onça, apostando no slogan: "eleitor inteligente vota no amigo da onça".
100 mil votos
Na época o voto era num pedaço de papel que o eleitor colocava em envelope recebido do mesário. Gráficas imprimiram milhares de cédulas com o nome do bicho. Cacareco recebeu 100 mil votos, quando o candidato mais votado naquele ano não ultrapassou 110 mil votos. Infelizmente, Cacareco não pode comemorar. Foi devolvido ao zoológico do Rio, vindo a morrer poucos anos depois, antes de completar 10 anos. (O coração não resistiu a tanta emoção). A revista Time acabou dando ênfase à frase de um eleitor: "é melhor eleger um rinoceronte do que um asno".
Um perigo
A revolta do eleitorado se faz ver na frase comum em todos os rincões: "todo político é ladrão". Infelizmente, o país corre esse risco, que o levaria a uma crise de proporções inimagináveis, porquanto um Huck ou outra celebridade não teria condição de "pôr o guizo no gato", administrar a complexidade da nossa política: 35 partidos, sistema bicameral com duas casas congressuais, presidencialismo de coalizão, etc. Teria de se submeter ao DNA de uma cultura, cujas raízes estão fincadas nas roças do fisiologismo, do nepotismo, do grupismo, do coronelismo. Nem Marina Silva, com roupagem ética, ou mesmo Ciro Gomes, com sua metralhadora expressiva, resistiriam ao poder de mando da nossa representação, 513 na Câmara e 81 no Senado. Nomes fora da política terão condições de administrar um país com sua crise política crônica.
Rodrigo Maia
A CEBRASSE - Central Brasileira de Serviços homenageará Rodrigo Maia, presidente da Câmara, com o Título de Personalidade Política do Ano, graças ao seu empenho e ao seu comando na esfera parlamentar, principalmente por ocasião da aprovação da Lei da Terceirização e da Reforma Trabalhista. Rodrigo foi, inquestionavelmente, figura de primeira grandeza na aprovação de projetos importantes para o país. Graças a ele, a agenda do Executivo conseguiu caminhar bem. Merece todas as homenagens. Será no dia 4/12, no Buffet Dell'Orso à rua Tuim, 1.041 - Moema, na capital paulista. O almoço reunirá 200 empresários dos setores de serviços.
Meirelles
O ministro Henrique Meirelles diz achar "interessante" uma candidatura a vice-presidente da República. Se a economia efetivamente se recuperar bem, vale a pena trocar a declaração: "serei candidato à presidência da República". Meirelles só pensa nisso. E o PSD do ministro Gilberto Kassab alimenta a ideia.
Justiça trabalhista
Deve esbarrar no STF a disposição do MPT e alguns juízes de não cumprirem as disposições emanadas na Reforma Trabalhista e na Lei da Terceirização. A Anamatra, Associação dos Magistrados do Trabalho, pilota a contrariedade. O ministro Ives Gandra Filho acredita que o enquadramento de juízes e procuradores deve ser feito pelo cabresto do Supremo. A conferir.

Porandubas Políticas nº 551

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por Gaudêncio Torquato.

 

Uma historinha da terra do ministro Carlos Ayres Britto, Sergipe.

Mamãe, pode morrer tranquila

Fernando Leite, filho do senador Júlio Leite, presidia a Assembleia de Sergipe quando Seixas Dória era governador. Seixas teve de ir ao Rio enquanto o vice-governador Celso Carvalho estava no Rio Grande do Norte assistindo ao enterro da sogra. Assumiu o governo o presidente da Assembleia por dois dias. Fernando Leite mandou telegramas a todas as embaixadas comunicando ao mundo sua governança. Orgulhoso, como bom filho, telegrafou à mãe, internada e gravemente enferma em hospital do Rio:

- Mamãe, pode morrer tranquila. Seu filho é governador. Beijos, Fernando.

Mais um atrito

Mais um atrito entre o presidente da Câmara Rodrigo Maia e o governo foi administrado. Rodrigo defendeu a "harmonia" entre os Poderes e afirmou que agirá com imparcialidade no processo de tramitação da segunda denúncia contra o presidente Michel Temer na Casa. Garante que o episódio sobre a divulgação dos vídeos da delação do operador Lúcio Funaro está superado. "Não há nada por trás da minha imparcialidade que seja pra ajudar ou atrapalhar o presidente Michel Temer". O fato é que há poderosas forças fazendo pressão para inflar o balão de tensões. Entre essas forças, um poderoso grupo de mídia.

Voto aberto no Senado

O ministro Alexandre de Moraes, do STF, decidiu nesta terça-feira, 17, que o Senado deve fazer votação aberta para decidir sobre o afastamento de Aécio Neves. Foi o que se cumpriu. O voto aberto tirou votos favoráveis ao tucano mineiro. Jader, Anastasia, Jucá e Renan fizeram discursos importantes. O resultado era imprevisível ante a manifestação prévia de 30 senadores, que se manifestaram contra Aécio, o qual ganhou com 44 votos a favor e 26 contra. Derrubada a decisão da 1ª Turma do STF.

Vetores de força para 2018

Mesmo nebuloso, o tempo em que desenvolverá o pleito de 2018 já permite inferir sobre alguns eixos que calibrarão as campanhas eleitorais. Tentemos explicitá-los:

- proposições substantivas - o discurso será substantivo, recheado de propostas densas, factíveis, com foco na aplicação imediata;

- inovação, vigor, assepsia - esses três conceitos andarão juntos. O eleitor tende a querer ver um perfil sem máculas, sem passado sujo, asséptico. Isso não quer dizer que empresários, fora da política, ou profissionais liberais, apenas pelo fato de se apresentarem como novidade, terão sucesso. Precisam mostrar experiência;

- representatividade - os perfis deverão ter uma clara representação das parcelas/setores/segmentos que formam a sociedade. A tendência à distritalização ou à categorização profissional estará em destaque. Perfis hão de preencher os nichos sociais ou regionais;

- a verdade, centralidade - o discurso político sempre fica no contorno, com os perfis tentando prometer coisas, dourar a pílula com imagens espetaculares, ou seja, engabelando a audiência por meio de recursos estéticos. Desta feita, o eleitor vai dispensar a lábia;

- força no indivíduo - o pleito praticamente nivelará os partidos, com exceção para aqueles entes encravados nas pontas do arco ideológico. As siglas do meio tendem a se misturar na geleia partidária. Por isso, o pleito de 2018 acentuará o peso do individualismo.

Maior participação

Na esteira das grandes mudanças que se operam na vida institucional, sob o signo das investigações de escândalos, a sociedade vai aproveitar o momento para sair da tradicional linha de conforto. Significa que vai se empenhar para analisar perfis, analisar propostas, revisar pontos de vista. Perderá mais tempo na observação da política. Acompanhará mais de perto o desenrolar do pleito.

Execração de perfis e siglas

Veremos uma campanha de execração de figuras carimbadas da velha política. O esculacho partirá principalmente das classes médias e, dentre estas, dos profissionais liberais - médicos, engenheiros, professores, empresários, economistas, etc. Esses polos de crítica e influência terão importância capital na organização de nomes e seleção de quadros que saírem candidatos por partidos.

Grandes comunicadores

Voltar-se-á a prestigiar os bons mocinhos que aparecem nos picos de programas de grande audiência, como Luciano Huck, com quem identificam-se milhares de jovens de áreas centrais e periféricas. Os comunicadores, face a um pleito mais franciscano (de poucos recursos financeiros) voltarão a ser prestigiados e a ser chamados para integrar a lista de candidatos.

Os mais ricos

As campanhas eleitorais de 2018 privilegiarão as identidades pessoais, beneficiando candidatos com maiores recursos, aqueles que têm melhores condições de bancar a liturgia do espetáculo político. O pleito, mais franciscano, será uma corrida de obstáculo. Muita sola de sapato será gasta.

Marketing de valores

O marketing eleitoral de 2018 terá como foco forças e valores dos protagonistas, a partir da questão da honestidade. Compromissos, propósitos, propostas para a micropolítica (educação, saúde, mobilidade urbana, segurança, creches, moradia) liderarão as planilhas programáticas.

Pausa...para um riso.

Filosofia de Vitorino

Vitorino Freire, ex-manda chuva que filosofava sobre o Maranhão:

- Quando o pasto pega fogo, preá cai no brejo.

- O risco que corre o pau, corre o machado.

- Não quero que ajudem meu roçado. Só quero que os bois do vizinho não entrem nele.

- O Sarney não conhece o tamanho do meu roçado. De um lado da cerca eu grito e ele não ouve do outro lado.

- Política no Maranhão é um Bumba meu boi que não sai sem mim.

São Paulo, o emblema do país

São Paulo será o fator emblemático do país. Como o Estado com a maior população e a maior densidade eleitoral, São Paulo é, por excelência, o laboratório das experiências nacionais. Por isso mesmo, tende a disseminar pelo território os ideários e os tipos de discurso que ganharão ênfase em 2018. São Paulo abriga uma exemplar coleção da gente brasileira.

A teoria do 1/3

Este consultor continua a pôr fé em sua resumida equação para a disputa presidencial de 2018: 1/3 para a direita, 1/3 para a esquerda e 1/3 para o centro. Sobram 10%, que deverão correr pelo arco ideológico, sendo mais provável a fixação da maior parte nos espaços do centro, que deverá atrair parcelas à direita e à esquerda.

Poderes desbalanceados

A constatação de que a representação política se apequena a olhos vistos é mais surpreendente quando se atenta para a equação tripartite do barão de Montesquieu. Resgatemos sua argumentação. O Poder Legislativo é formado por representantes do povo soberano; por conseguinte, a lei constitui um produto direto da democracia representativa. E os juízes? Nada mais são, segundo o autor de O Espírito das Leis, "senão a boca que pronuncia as palavras da lei, seres inanimados que não podem moderar-lhe a força nem o vigor". Resulta como paradigma liberal do Estado de Direito a submissão do Judiciário à lei e, nesse caso, sob o abrigo do Parlamento, já que este Poder exprime a vontade geral.

A interpenetração

Ao longo do tempo, as funções típicas dos Poderes foram se distinguindo de funções atípicas, passando a dominar, cada um, escopos delimitados nos campos Legislativo, Administrativo e Judiciário. Nem por isso a invasão do espaço de um Poder por outro deixa de ocorrer. Quando há espaços não preenchidos por falta de legislação, a invasão ocorre. A justificativa é que a intromissão se faz por necessidade de se preservar a vida institucional. E é nesse ponto que o Poder Legislativo amortece sua força. Acanhado, parecendo submisso, permite que outros Poderes avancem sobre seu território.

Direitos sociais

Como pano de fundo do definhamento, registra-se uma inversão na cronologia da cidadania: os direitos sociais chegaram para os brasileiros antes que os direitos políticos. E isso contribuiu para a formação de um Executivo forte. Desde Getúlio Vargas, na década de 30, o povo sente-se mais atraído por um Estado de longos braços protetores - sob um regime presidencialista e centralizador - do que por uma representação sem força, de baixo conceito e pouca confiabilidade. Hoje, apenas 3% dos brasileiros acham que os parlamentares merecem confiança.

Igualdade social

Cada homem, no fundo de seu coração, tem direito de julgar-se inteiramente igual aos outros homens. Depois de reconhecer este direito, em seu tratado sobre a igualdade, Voltaire retrata o cozinheiro do cardeal filosofando sobre as diferenças entre as classes do gênero humano: "sou um homem como o cardeal; nasci chorando como ele, e ele morrerá como eu. Temos as mesmas funções animais. Se os turcos conquistarem Roma e se eu vier a ser cardeal e o cardeal vier a ser cozinheiro, eu o tomarei a meu serviço".

Leitura na campanha política

Nosso partido cumpre o que promete.

Só os tolos podem crer que.

não lutaremos contra a corrupção.

Porque, se há algo certo para nós, é que

a honestidade e a transparência são fundamentais

para alcançar nossos ideais

Mostraremos que é grande estupidez crer que

as máfias continuarão no governo, como sempre.

Asseguramos sem dúvida que

a justiça social será o alvo de nossa ação.

Apesar disso, há idiotas que imaginam que

se possa governar com as manchas da velha política.

Quando assumirmos o poder, faremos tudo para que

se termine com os marajás e as negociatas.

Não permitiremos de nenhum modo que

nossas crianças morram de fome.

Cumpriremos nossos propósitos mesmo que

os recursos econômicos do país se esgotem.

Exerceremos o poder até que

Compreendam que

Somos a nova política.

Porandubas Políticas nº 550

Avaliação do Usuário

Abro a coluna com uma historinha da Paraíba.

Sinceridade e sagacidade

Zé Cavalcanti, ex-deputado paraibano, conta em seu livro A Política e os Políticos, que um coronel do sertão, ao passar o comando de seus domínios para o filho, aconselhou:

– Meu rapaz, se queres ser bem sucedido na política, cultiva estas duas verdades: a sinceridade e a sagacidade.

– O que é sinceridade, meu pai?

– É manter a palavra empenhada, custe o que custar.

– E o que é sagacidade?

– É nunca empenhar a palavra, custe o que custar.

O relatório de Bonifácio - I

O deputado Bonifácio de Andrada (PSDB-MG) apresentou ontem o relatório em que recomenda à Câmara barrar a tramitação da denúncia criminal contra o presidente Michel Temer e os ministros Eliseu Padilha (Casa Civil) e Moreira Franco (Secretaria-Geral). Bonifácio fez fortes críticas ao Ministério Público, ao dizer que ele "comanda a Polícia Federal, mancomunado com o Judiciário, causando um desequilíbrio entre os Poderes e se tornando um novo poder".

O relatório de Bonifácio - II

O relator afirmou que o Ministério Público exerce uma atuação policialesca com o apoio "do noticiário jornalístico que fortalece essas atuações espetacularizadas pelos meios de comunicação". Para ele, Judiciário, Ministério Público e Polícia Federal têm tido um poder exacerbado, eivado de abusos, em detrimento do Legislativo e do Executivo. A votação da CCJ deve ficar para a semana que vem, podendo ir a plenário na semana do dia 25. E assim o governo espera mais uma vitória, até mais fácil do que na primeira denúncia.

Homenagem a Mariz

Antônio Claudio Mariz de Oliveira, que brilha na galeria dos advogados criminalistas do país, recebeu bela homenagem da classe, anteontem, em evento de desagravo organizado pela seccional paulista da Ordem e que teve como orador principal o jurista Técio Lins e Silva, representante do IAB - Instituto dos Advogados Brasileiros, a mais antiga entidade da Advocacia. Ali se ouviu um conjunto de perorações sobre a vida de Mariz, com destaque para sua bravura desde os tempos duros do arbítrio, e um painel sobre a importância da Advocacia. Alguns significados merecem destaque.

Tempos nebulosos

Fez-se na sessão de desagravo ampla radiografia desses nossos tormentosos tempos. Tempos de desrespeito aos advogados, a partir da invasão de seus escritórios; tempos de mídia servindo como arauto de uma cultura punitiva, como bem salientou o homenageado Mariz; tempos em que a mídia, de maneira irresponsável e espetaculosa, noticia "fatos que chegam às redações" sem conferir o teor de verdade; tempos em que os advogados são confundidos com a clientela; tempos em que a letra da lei é jogada no lixo, puxando "interpretações" que emergem ao sabor de fluxos e ondas com impacto na mídia; tempos de judicialização da política.

Advocacia nos anos de chumbo

Técio Lins e Silva lembrou os tempos da ditadura, quando a advocacia teve papel fundamental na defesa dos direitos humanos. Mostrou como em nossos estranhos tempos, o arbítrio dá sinais de volta, com o ardor punitivo, na esteira de certo "conluio" entre mídia, juízes e procuradores. A indignação é geral na classe com as invasões de escritórios, o acesso ao sagrado sigilo que resguarda a interlocução do advogado e clientes; as manchetes bombásticas que, a título de informação, acabam mais adiante desmentidas ou corrigidas em parte. O desleixo e a imprudência povoam a divulgação de "fatos".

Mariz e a cultura punitiva

Mariz, com a verve sempre muito bem certeira, mostrou o abandono da apuração de "fatos" pela mídia. A sociedade tem o direito de ser informada. E a imprensa exerce o dever de transmitir as informações que apura, sem acréscimos, elipses ou versões estapafúrdias, de forma a aparelhar o cidadão com a moldura informativa que o ajudará a formar opinião abalizada sobre os acontecimentos. A expressão do grande criminalista foi um chamamento à razão. Os juízes, por sua vez, não podem fazer letras mortas das leis. Ou produzir julgamentos sob a inspiração de manchetes espetaculosas, que servem para irradiar uma "cultura punitiva" no país. Se assim age, a mídia se transforma em arauto dessa cultura, quando deveria apurar fundamentos verdadeiros.

Tempos de ontem e de hoje

A impressão é a de que, nos tempos de ontem, mesmo os mais duros, havia mais respeito pelo exercício da advocacia. Hoje, advogados não são apenas considerados "longa manus" da ilicitude que se espraia no país, como são acusados de ganhos exorbitantes, de servirem apenas aos ricos, esquecendo os acusadores que a advocacia pro bono coloca exércitos de advogados na ajuda às causas de pessoas sem posse. Observação ao pé do ouvido: entre os porta-vozes dos "extraordinários ganhos dos advogados", estão âncoras de TV, cujos salários, pela grandeza, assombram crentes e descrentes.

A responsabilidade da mídia

Este consultor passou três décadas dentro de salas de aula, a partir de 1968, ministrando disciplinas de jornalismo (informativo, interpretativo, opinativo, empresarial, etc.) em algumas escolas de comunicação, entre as quais a ECA-USP e a Cásper Líbero. O eixo da responsabilidade social da imprensa ganhava sempre destaque nos cursos de graduação e pós-graduação. Pois bem, urge constatar que, naquela época, a apuração de fatos se regia por acurado rigor. Hoje, a pressa nas redações – ante a rapidez das redes eletrônicas - acaba amortecendo a apuração completa de informações. A crise da democracia representativa acabou puxando a política para o fundo do poço. E o jornalismo acabou correndo atrás.

Mídia detesta felicidade

Mariz fez um contraponto interessante, ao mostrar que a mídia prefere notícias escandalosas, negativas, bombásticas a fatos positivos. E arrematou, cáustico: a mídia não gosta da felicidade, só de coisas ruins. Observação: o principal telejornal do país virou uma imensa galeria de fatos policiais/policialescos. Sob o signo da condenação ou da morte.

Espetáculo

Na verdade, a informação nesses nossos plúmbeos tempos acaba sendo envelopada com os adereços do Estado-Espetáculo. E os profissionais do espetáculo, da política e, mais recentemente, da mídia compartilham frequentemente as mesmas atitudes e os mesmos vezos. Como diz Roger-Gérard Schwartzenberg: "como se o show business de desdobrasse em um pol'business", e nosso acréscimo, vemos também a mídia'business. Os cidadãos acabam saindo de sua condição de leitores para a condição de espectadores.

Degradação

A política vem se transformando em talk-show. Juízes e políticos se acostumaram a exibir suas performances nas TVs de suas casas de trabalho. Os discursos se atropelam. A democracia se afasta de seus valores centrais. O tom das mensagens busca uma abordagem "euforizante", ou seja, capaz de produzir euforia, catarse, espetáculo. Gérard é duro com os artistas do espetáculo, estejam eles na política, na mídia ou no Judiciário. Diz: "Calígula, o imperador, fez cônsul o seu cavalo. Mas a história recente tem também seus casos de desequilíbrio mental".

Narcisismo

Sobra, ainda, aos protagonistas do Estado moderno a propensão para o desejo de se transformarem em Narcisos. O mito diz que o belo Narciso desdenhou o amor da ninfa Eco. Que morreu de desespero e seus lamentos ainda hoje soam nas florestas. Os deuses puniram Narciso. Condenaram-no a se apaixonar pela própria imagem. Por isso, tomou-se de amores pela imagem, contemplando-a nas águas transparentes de sua fonte. Ficou obcecado pela paixão do reflexo. Definhando até morrer. A mídia não seria, para muitos, o espelho de Narciso? Que parece, parece.

Descrença

O velho Rousseau era um descrente da representação política. Para ele, uma abstração. O filósofo, defensor do ideal da soberania popular, dizia que "toda lei que o povo não tenha ratificado diretamente é nula, não é uma lei". E arrematava: "o povo pensa ser livre, mas está enganado, pois só o é durante a eleição dos membros do Parlamento, assim que são eleitos, ele é escravo".

Como explicar o fundo?

A reforma política produziu uma reversão de expectativas. Ganhou poucos adereços, entre os quais o fim das coligações proporcionais e a cláusula de barreira. As coligações vão durar um pouco mais, até 2020. Mas um estatuto vai gerar muitas críticas: o fundo de campanhas. Como justificar um fundo de quase R$ 2 bilhões para financiar o pleito de 2018? Será difícil explicar ao eleitor. Que vê escândalos por todos os lados. E dinheirama jogada fora com projetos que não lhe farão bem.

História

Nicolas Eymerich, um frade, produziu "O Manual dos Inquisidores em 1376". O Manual mostra os dez truques do inquisidor para neutralizar os truques dos hereges, na verdade um conjunto de manipulações, pressões, ameaças, promessas, benevolências, enfim, um completo arsenal de violência psíquica contra os réus. (A escolha desse roteiro tem o propósito de mostrar como alguns políticos usam artifícios semelhantes em seu discurso cotidiano.).

1. O primeiro consiste em responder de maneira ambígua.

2. O segundo truque consiste em responder acrescentando uma condição.

3. O terceiro truque consiste em inverter a pergunta.

4. O quarto truque consiste em se fingir de surpreso.

5. O quinto truque consiste em mudar as palavras da pergunta.

6. O sexto truque consiste numa clara deturpação das palavras.

7. O sétimo truque consiste numa autojustificação.

8. O oitavo truque consiste em fingir uma súbita debilidade física.

9. O nono truque consiste em simular idiotice ou demência.

10. O décimo truque consiste em se dar ares de santidade.

Nossos mestres

Uma vez, perguntei a Roberto Campos, ministro do Planejamento do presidente Castelo Branco, se sua estratégia não era a de pulverizar as verbas que, na época, em 1965, o governo tinha para aplicar na região Nordeste. O conceito de pulverização era a distribuição das verbas, de maneira franciscana, um pouquinho a cada Estado, uma migalha, o que poderia não gerar os resultados desejados. Contestador, dialético, Bob Fields (como era conhecido), pegou o foca (eu mesmo) de surpresa: "O que o senhor entende por pulverização?". Fiquei calado. Jânio Quadros era perito na arte de se fazer de surpreso. Perguntado por Leon Eliachar se o oval da Esso é mesmo oval ou aval, Jânio se toma de surpresa e arremete: "Sugiro-lhe, amistosamente, uma consulta a qualquer psicanalista. O Brasil é tão mencionado nesse seu questionário quanto a Esso". Foi uma tremenda gozação. E diante da pergunta: "Qual será seu slogan, 50 anos em 5 ou 5 anos em 60?". Jânio não hesita: "50 anos em 5, mais o pagamento dos atrasados". O truque de mudar as palavras das perguntas é muito comum no meio político. Ao político, é perguntado algo assim: "O senhor vai dizer tudo que sabe aos procuradores?". E ele responde: "Quem diz a verdade tem tudo a seu favor. Quem não deve não teme". O truque de deturpar as palavras é usual. Exemplo: "O senhor acredita que o relatório do BNDES não vai condená-lo?". Resposta: "O relatório pode ser uma peça de condenação ou de inocência. Se não comprova nada sobre minha pessoa, sou inocente. Quem me condena não é o Banco. É a imprensa".

Fecho a coluna com tiradas mineiras.

Mineirice

Frases de Augusto Zenun, de Campestre, sul de Minas - político, industrial, filósofo e, antes de tudo, udenista ortodoxo da linha bilaqueana (Bilac Pinto, o Bilacão, seu dileto amigo). Sempre infernou a vida de seus adversários, com as suas atitudes destemidas e sua natural mineirice.

"Quando estamos no governo, todo adversário que quer se encaixar, diz ser técnico".

"O preço do voto de um eleitor mentiroso é sempre o mais caro".

"Há um fato na política que a torna bastante interessante: o choque dos falsos políticos com os políticos falsos".

"Político é dividido em duas partes. Uma trabalha para ser eleito. A outra trabalha para conseguir um cargo público se for derrotado".

"Muita campanha eleitoral se parece com sauna: depois do calorão vem uma ducha fria". (De A Mineirice, de José Flávio Abelha)