Porandubas Políticas n. 4239

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Abro a coluna com uma historinha cheia de graça que presenciei e que envolve o grande e saudoso governador Franco Montoro.

Agrário e urbano

Franco Montoro ficou famoso pela troca de nomes que fazia. Há muitas histórias envolvendo essa modalidade de dislexia ou dislogia. Uma delas ocorreu comigo, no restaurante dos professores no campus da USP. Montoro havia sido convidado por um grupo de professores para fazer uma palestra sobre o Brasil e a América Latina, dentro do fórum de debates que desenvolvia na Fundação que criou e dirigiu. Certo momento, ao falar do RN, meu Estado, ele passou a se referir a nomes de amigos comuns e conhecidos. Foi quando, de repente, depois de vários acertos, ele me pega de surpresa com a indagação:

"E o Agrário, como vai o Agrário"?

Respondi: "Agrário, governador, não sei quem é, não me lembro...".

Comecei a mapear os nomes de pessoas famosas. Aí lembrei-me de um nome: Urbano. E repus a pergunta:

"Por acaso, governador, não é Urbano, Francisco Urbano"?

Era. Na época, Urbano dirigia a Contag - Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura. Daí a confusão. Em respeito ao grande homem público, contive a risada!

A política avança

A articulação política ganha volume à medida que os protagonistas - partidos e lideranças - veem aproximar-se o tempo de grandes decisões voltadas ao pleito de 2018. Alguns movimentos deixam ver passos e sinais. À direita, sobe o tom da candidatura Bolsonaro, que abre um leque de conversações com lideranças e faz peregrinação em alguns países (até nos EUA) tentando se mostrar ao mundo. À esquerda, Lula se apresenta como o eixo que gira a máquina petista e seu entorno, o PC do B, o PSOL, parcela do PSB e outras pequenas fatias. No centro, a movimentação tem dois grandes articuladores, o presidente Michel Temer e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Cada área está querendo ver além do horizonte.

À direita

O deputado Bolsonaro começa a se desfazer de adjetivos que o tornam canhão amedrontador. E ensaia um discurso liberal como forma de agradar ao mercado. Mas suas peripécias discursivas não serão esquecidas. Negocia entrada no Patriota, que faz uma limpeza de área nos Estados para colocar nomes confiáveis e comprometidos com o deputado. Como é, hoje, o único nome com grande visibilidade na direita, torna-se o principal bastião contra Lula. Doria perde essa condição em face da quase certeza que Alckmin deverá ser o candidato do PSDB.

À esquerda

Luiz Inácio é um caixeiro-viajante. Corre o mundo. Faz-se presente aqui e ali, inclusive em atos de lançamento de candidaturas de outros partidos. Foi assim que se fez presente no Congresso do PC do B, em Brasília, quando foi lançado o nome da deputada estadual Manuela D'Ávila à presidência da República. Manuela fez, naquele evento, a defesa de Lula, dizendo que é condenado sem provas. O objetivo fica claro: união de PT e PC do B em eventual segundo turno. O PSOL, por sua vez, mapeia os quadros para decidir se sai com Lula ou com candidatura própria. A questão esbarra na hipótese: se o candidato for um parlamentar (Chico Alencar, Marcelo Freixo ou outro), enfrentará a ameaça de perder a condição de deputado em 2018. Afinal, este partido não tem capital eleitoral para eleger um presidente.

No centro

Os partidos do centro precisarão de muito esforço de seus articuladores para chegar a um consenso. A ideia que passa pelas cabeças de suas lideranças é a de formar um amplo espaço central, acolhendo PMDB, DEM, PP, PTB, PRB, Podemos, etc. - e escolher um nome capaz de aglutinar no centro pedaços da esquerda e da direita. Esse perfil canalizaria os esperados bons feitos do governo, a partir da economia com números saudáveis - inflação de 2,5%, Selic de 7%, emprego crescendo, setores primário, secundário e terciário com bons dados de crescimento, PIB podendo chegar a 1,5. Quem será o nome?

PSDB com dificuldades

O PSDB caminha na direção de Geraldo Alckmin. Mas entrará com força diminuída no pleito. A pendenga aberta por Tasso Jereissati e os cabeças-pretas (deputados mais jovens) contra o governo deixa sequelas. Há visível contrariedade de peemedebistas e outros partidos da base em relação aos tucanos, sob a hipótese, que ganha corpo, de que o PSDB não será apoiado pelo PMDB e outros. Nesse caso, preciosos minutos de rádio e televisão seriam perdidos pelo PSDB, arrefecendo a visibilidade de seu candidato na campanha. Alckmin não saiu bem na fita do afastamento do PSDB do governo.

E Doria?

João Doria se afasta um pouco da guerrilha que se trava hoje entre grupos tucanos para se dedicar com mais afinco à administração. Foi criticado pelas viagens que fez aos Estados. Mesmo assim continua a ser um player forte no campo eleitoral. Trata-se de um perfil determinado. Se perceber que tem chances, não se descarta a possibilidade de sair como candidato por outras siglas, a partir do próprio PMDB. João mantém excelente relacionamento com o presidente Temer. O recuo de hoje, portanto, faz parte do jogo. Fala-se, ainda, da possibilidade de vir a ser candidato a vice na chapa de Geraldo Alckmin ou ao governo do Estado. Este consultor descarta essas alternativas, eis que será praticamente impossível uma chapa puro-sangue paulista ou uma candidatura ao governo de SP, coisa que aumentaria o racha na floresta tucana.

E Huck?

Luciano Huck está sendo paparicado por alguns partidos, a partir do PPS comandado por Roberto Freire. Poderá ser uma candidatura viável em 2018? Sim. Na política, tudo é possível, principalmente levando-se em consideração a indignação social contra os políticos tradicionais. Acontece que os palanques eleitorais são bem diferentes dos palcos de animação de programas de auditório. E se Huck não dispuser de tempo de TV para massificar suas ideias? Este consultor não acredita na viabilidade político-eleitoral do empresário Luciano Huck. Mas deixa no ar a famosa lição: em política, tudo é possível.

E Moro?

Pois é, o Instituto Paraná Pesquisas acaba de mostrar uma pesquisa dando conta do bom potencial do juiz Sérgio Moro. Teria ele melhores condições de que Huck, mais precisamente 35,5%, caso fosse o candidato. A mesma pesquisa diz que pouco mais da metade dos brasileiros votaria em um candidato estreante na política.

Voltando a Lula

Lula fará das tripas coração para tentar viabilizar sua candidatura. Usará todas as brechas possíveis para conseguir sua meta, a partir da sinalização de que só uma condenação transitada em julgado, na terceira instância, o impediria de seguir o caminho. Seja qual for o desenlace, Lula será o principal semeador na roça eleitoral das esquerdas. É exímio em palanque, dá nó em ponta de faca. Vai atribuir o desemprego ao atual governo. E queimará as reformas do governo Temer, mesmo diante de números que mostram o Brasil entrando nos trilhos. Este consultor tende a acreditar que Luis Inácio deverá esquentar o clima eleitoral, seja como candidato seja como fogueteiro.

Voltando ao centro

Os partidos do centro chegarão ao consenso em torno de um nome ou tendem a ir à luta com seus quadros? Esse é o x da questão. Unidos, poderão ir longe; desunidos, abrirão espaço para a chegada ao segundo turno do candidato da esquerda ou o candidato da direita. A hipótese do candidato da esquerda chegar ao segundo turno é mais provável que a chegada de um candidato da direita. Mais viável seria a chegada do candidato do centro. Claro, caso os partidos do bloco não se dividam.

Temer e Maia

O presidente Michel Temer e o presidente Rodrigo Maia estão afinados. Temer ouve muito Maia, que teria endossado o nome de Alexandre Baldy para o Ministério das Cidades. A hipótese também é viável: sob apoio do presidente da Câmara, é possível se chegar aos 308 votos necessários para a aprovação da reforma da Previdência na primeira quinzena de dezembro. Caso aprovada, ganharia o aplauso do mercado. Em 2018, (Eunício quer votar apenas em março) seria votada no Senado. Se os dados da economia mostrarem boa recuperação do país, certamente a tendência dos senadores seria de aprovação da matéria. E se isso ocorrer, o presidente da República será um grande eleitor no pleito de 7 de outubro.

Imbróglio está no ar

O TRF da 2ª região mandou prender novamente o presidente da Alerj, Jorge Picciani, e mais os dois deputados do PMDB que estavam presos. O imbróglio está no ar. O que acontecerá? E se a Assembleia voltar a contrariar a Justiça? E se o caso bater no STF? Diz-se que não está fora de cogitação intervenção na Casa Legislativa. O fato é que a brecha aberta pelo STF no caso Aécio Neves está produzindo denso contencioso. A palavra final será a da nossa mais Alta Corte.

A força do Nordeste

O Sudeste concentra mais da metade do eleitorado brasileiro. Geraldo Alckmin confia muito na boa avaliação dos paulistas ao seu governo. Só São Paulo tem 35 milhões de eleitores. Mas o Rio e Minas Gerais serão dois polos fortes de oposição. Dito isso, surge o voto nordestino. Será decisivo. O NE tem 27% dos votos do país. Daí a busca frenética do nome do vice na região. Alckmin procura um nome do Nordeste. Quem? Um quadro de respeito é o deputado Jarbas Vasconcelos, do PMDB de Pernambuco. A questão é: como o PMDB encararia esta escolha? O deputado tem lastro e história.

AT&T/Times Warner

O Departamento de Justiça dos EUA ajuizou ação na segunda-feira para anular a compra pela AT&T da Time Warner, dona dos estúdios Warner Bros e das redes de TV HBO e CNN. O movimento foi classificado como incomum por especialistas do setor, uma vez que o acordo entre as duas empresas, de US$ 85 bilhões, foi anunciado há mais de ano. A AT&T é operadora de telefonia e provedora de TV a cabo e internet móvel e fixa. No Brasil, tem participação na TV por assinatura Sky. O governo argumenta que o contrato viola leis antitruste, pois a AT&T poderia "usar o controle sobre a programação popular da Time Warner para causar danos à concorrência ... e resultar em oferta de conteúdo menos inovador e contas mais altas para as famílias americanas". Na nota, o estilo rompante e ameaçador de Trump.

Fecho a coluna com uma historinha de Morro Agudo/SP.

Tape os ouvidos

Em Morro Agudo, a 80 quilômetros de Ribeirão Preto/SP, havia um comerciante de muito prestígio, mas analfabeto (verdade). Tinha um empregado que lia as coisas para ele. Um dia, o comerciante brigou com a mulher, separaram-se, contrataram advogados, foram para a Justiça. Certo dia, chegou uma carta da mulher com inúmeras folhas, passando a limpo (ou a sujo) os longos anos de vida em comum. Ele não poderia pedir ao empregado para ler. Tinha vergonha. Chamou seu melhor amigo:

- Você pode ler esta carta para mim? Mas você vai me fazer um favor. Eu sei que ela vem falando tudo, contando tudo. Então você leia alto para mim, mas, se quiser continuar meu amigo, tape os ouvidos.

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