Porandubas Políticas nº 550

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Abro a coluna com uma historinha da Paraíba.

Sinceridade e sagacidade

Zé Cavalcanti, ex-deputado paraibano, conta em seu livro A Política e os Políticos, que um coronel do sertão, ao passar o comando de seus domínios para o filho, aconselhou:

– Meu rapaz, se queres ser bem sucedido na política, cultiva estas duas verdades: a sinceridade e a sagacidade.

– O que é sinceridade, meu pai?

– É manter a palavra empenhada, custe o que custar.

– E o que é sagacidade?

– É nunca empenhar a palavra, custe o que custar.

O relatório de Bonifácio - I

O deputado Bonifácio de Andrada (PSDB-MG) apresentou ontem o relatório em que recomenda à Câmara barrar a tramitação da denúncia criminal contra o presidente Michel Temer e os ministros Eliseu Padilha (Casa Civil) e Moreira Franco (Secretaria-Geral). Bonifácio fez fortes críticas ao Ministério Público, ao dizer que ele "comanda a Polícia Federal, mancomunado com o Judiciário, causando um desequilíbrio entre os Poderes e se tornando um novo poder".

O relatório de Bonifácio - II

O relator afirmou que o Ministério Público exerce uma atuação policialesca com o apoio "do noticiário jornalístico que fortalece essas atuações espetacularizadas pelos meios de comunicação". Para ele, Judiciário, Ministério Público e Polícia Federal têm tido um poder exacerbado, eivado de abusos, em detrimento do Legislativo e do Executivo. A votação da CCJ deve ficar para a semana que vem, podendo ir a plenário na semana do dia 25. E assim o governo espera mais uma vitória, até mais fácil do que na primeira denúncia.

Homenagem a Mariz

Antônio Claudio Mariz de Oliveira, que brilha na galeria dos advogados criminalistas do país, recebeu bela homenagem da classe, anteontem, em evento de desagravo organizado pela seccional paulista da Ordem e que teve como orador principal o jurista Técio Lins e Silva, representante do IAB - Instituto dos Advogados Brasileiros, a mais antiga entidade da Advocacia. Ali se ouviu um conjunto de perorações sobre a vida de Mariz, com destaque para sua bravura desde os tempos duros do arbítrio, e um painel sobre a importância da Advocacia. Alguns significados merecem destaque.

Tempos nebulosos

Fez-se na sessão de desagravo ampla radiografia desses nossos tormentosos tempos. Tempos de desrespeito aos advogados, a partir da invasão de seus escritórios; tempos de mídia servindo como arauto de uma cultura punitiva, como bem salientou o homenageado Mariz; tempos em que a mídia, de maneira irresponsável e espetaculosa, noticia "fatos que chegam às redações" sem conferir o teor de verdade; tempos em que os advogados são confundidos com a clientela; tempos em que a letra da lei é jogada no lixo, puxando "interpretações" que emergem ao sabor de fluxos e ondas com impacto na mídia; tempos de judicialização da política.

Advocacia nos anos de chumbo

Técio Lins e Silva lembrou os tempos da ditadura, quando a advocacia teve papel fundamental na defesa dos direitos humanos. Mostrou como em nossos estranhos tempos, o arbítrio dá sinais de volta, com o ardor punitivo, na esteira de certo "conluio" entre mídia, juízes e procuradores. A indignação é geral na classe com as invasões de escritórios, o acesso ao sagrado sigilo que resguarda a interlocução do advogado e clientes; as manchetes bombásticas que, a título de informação, acabam mais adiante desmentidas ou corrigidas em parte. O desleixo e a imprudência povoam a divulgação de "fatos".

Mariz e a cultura punitiva

Mariz, com a verve sempre muito bem certeira, mostrou o abandono da apuração de "fatos" pela mídia. A sociedade tem o direito de ser informada. E a imprensa exerce o dever de transmitir as informações que apura, sem acréscimos, elipses ou versões estapafúrdias, de forma a aparelhar o cidadão com a moldura informativa que o ajudará a formar opinião abalizada sobre os acontecimentos. A expressão do grande criminalista foi um chamamento à razão. Os juízes, por sua vez, não podem fazer letras mortas das leis. Ou produzir julgamentos sob a inspiração de manchetes espetaculosas, que servem para irradiar uma "cultura punitiva" no país. Se assim age, a mídia se transforma em arauto dessa cultura, quando deveria apurar fundamentos verdadeiros.

Tempos de ontem e de hoje

A impressão é a de que, nos tempos de ontem, mesmo os mais duros, havia mais respeito pelo exercício da advocacia. Hoje, advogados não são apenas considerados "longa manus" da ilicitude que se espraia no país, como são acusados de ganhos exorbitantes, de servirem apenas aos ricos, esquecendo os acusadores que a advocacia pro bono coloca exércitos de advogados na ajuda às causas de pessoas sem posse. Observação ao pé do ouvido: entre os porta-vozes dos "extraordinários ganhos dos advogados", estão âncoras de TV, cujos salários, pela grandeza, assombram crentes e descrentes.

A responsabilidade da mídia

Este consultor passou três décadas dentro de salas de aula, a partir de 1968, ministrando disciplinas de jornalismo (informativo, interpretativo, opinativo, empresarial, etc.) em algumas escolas de comunicação, entre as quais a ECA-USP e a Cásper Líbero. O eixo da responsabilidade social da imprensa ganhava sempre destaque nos cursos de graduação e pós-graduação. Pois bem, urge constatar que, naquela época, a apuração de fatos se regia por acurado rigor. Hoje, a pressa nas redações – ante a rapidez das redes eletrônicas - acaba amortecendo a apuração completa de informações. A crise da democracia representativa acabou puxando a política para o fundo do poço. E o jornalismo acabou correndo atrás.

Mídia detesta felicidade

Mariz fez um contraponto interessante, ao mostrar que a mídia prefere notícias escandalosas, negativas, bombásticas a fatos positivos. E arrematou, cáustico: a mídia não gosta da felicidade, só de coisas ruins. Observação: o principal telejornal do país virou uma imensa galeria de fatos policiais/policialescos. Sob o signo da condenação ou da morte.

Espetáculo

Na verdade, a informação nesses nossos plúmbeos tempos acaba sendo envelopada com os adereços do Estado-Espetáculo. E os profissionais do espetáculo, da política e, mais recentemente, da mídia compartilham frequentemente as mesmas atitudes e os mesmos vezos. Como diz Roger-Gérard Schwartzenberg: "como se o show business de desdobrasse em um pol'business", e nosso acréscimo, vemos também a mídia'business. Os cidadãos acabam saindo de sua condição de leitores para a condição de espectadores.

Degradação

A política vem se transformando em talk-show. Juízes e políticos se acostumaram a exibir suas performances nas TVs de suas casas de trabalho. Os discursos se atropelam. A democracia se afasta de seus valores centrais. O tom das mensagens busca uma abordagem "euforizante", ou seja, capaz de produzir euforia, catarse, espetáculo. Gérard é duro com os artistas do espetáculo, estejam eles na política, na mídia ou no Judiciário. Diz: "Calígula, o imperador, fez cônsul o seu cavalo. Mas a história recente tem também seus casos de desequilíbrio mental".

Narcisismo

Sobra, ainda, aos protagonistas do Estado moderno a propensão para o desejo de se transformarem em Narcisos. O mito diz que o belo Narciso desdenhou o amor da ninfa Eco. Que morreu de desespero e seus lamentos ainda hoje soam nas florestas. Os deuses puniram Narciso. Condenaram-no a se apaixonar pela própria imagem. Por isso, tomou-se de amores pela imagem, contemplando-a nas águas transparentes de sua fonte. Ficou obcecado pela paixão do reflexo. Definhando até morrer. A mídia não seria, para muitos, o espelho de Narciso? Que parece, parece.

Descrença

O velho Rousseau era um descrente da representação política. Para ele, uma abstração. O filósofo, defensor do ideal da soberania popular, dizia que "toda lei que o povo não tenha ratificado diretamente é nula, não é uma lei". E arrematava: "o povo pensa ser livre, mas está enganado, pois só o é durante a eleição dos membros do Parlamento, assim que são eleitos, ele é escravo".

Como explicar o fundo?

A reforma política produziu uma reversão de expectativas. Ganhou poucos adereços, entre os quais o fim das coligações proporcionais e a cláusula de barreira. As coligações vão durar um pouco mais, até 2020. Mas um estatuto vai gerar muitas críticas: o fundo de campanhas. Como justificar um fundo de quase R$ 2 bilhões para financiar o pleito de 2018? Será difícil explicar ao eleitor. Que vê escândalos por todos os lados. E dinheirama jogada fora com projetos que não lhe farão bem.

História

Nicolas Eymerich, um frade, produziu "O Manual dos Inquisidores em 1376". O Manual mostra os dez truques do inquisidor para neutralizar os truques dos hereges, na verdade um conjunto de manipulações, pressões, ameaças, promessas, benevolências, enfim, um completo arsenal de violência psíquica contra os réus. (A escolha desse roteiro tem o propósito de mostrar como alguns políticos usam artifícios semelhantes em seu discurso cotidiano.).

1. O primeiro consiste em responder de maneira ambígua.

2. O segundo truque consiste em responder acrescentando uma condição.

3. O terceiro truque consiste em inverter a pergunta.

4. O quarto truque consiste em se fingir de surpreso.

5. O quinto truque consiste em mudar as palavras da pergunta.

6. O sexto truque consiste numa clara deturpação das palavras.

7. O sétimo truque consiste numa autojustificação.

8. O oitavo truque consiste em fingir uma súbita debilidade física.

9. O nono truque consiste em simular idiotice ou demência.

10. O décimo truque consiste em se dar ares de santidade.

Nossos mestres

Uma vez, perguntei a Roberto Campos, ministro do Planejamento do presidente Castelo Branco, se sua estratégia não era a de pulverizar as verbas que, na época, em 1965, o governo tinha para aplicar na região Nordeste. O conceito de pulverização era a distribuição das verbas, de maneira franciscana, um pouquinho a cada Estado, uma migalha, o que poderia não gerar os resultados desejados. Contestador, dialético, Bob Fields (como era conhecido), pegou o foca (eu mesmo) de surpresa: "O que o senhor entende por pulverização?". Fiquei calado. Jânio Quadros era perito na arte de se fazer de surpreso. Perguntado por Leon Eliachar se o oval da Esso é mesmo oval ou aval, Jânio se toma de surpresa e arremete: "Sugiro-lhe, amistosamente, uma consulta a qualquer psicanalista. O Brasil é tão mencionado nesse seu questionário quanto a Esso". Foi uma tremenda gozação. E diante da pergunta: "Qual será seu slogan, 50 anos em 5 ou 5 anos em 60?". Jânio não hesita: "50 anos em 5, mais o pagamento dos atrasados". O truque de mudar as palavras das perguntas é muito comum no meio político. Ao político, é perguntado algo assim: "O senhor vai dizer tudo que sabe aos procuradores?". E ele responde: "Quem diz a verdade tem tudo a seu favor. Quem não deve não teme". O truque de deturpar as palavras é usual. Exemplo: "O senhor acredita que o relatório do BNDES não vai condená-lo?". Resposta: "O relatório pode ser uma peça de condenação ou de inocência. Se não comprova nada sobre minha pessoa, sou inocente. Quem me condena não é o Banco. É a imprensa".

Fecho a coluna com tiradas mineiras.

Mineirice

Frases de Augusto Zenun, de Campestre, sul de Minas - político, industrial, filósofo e, antes de tudo, udenista ortodoxo da linha bilaqueana (Bilac Pinto, o Bilacão, seu dileto amigo). Sempre infernou a vida de seus adversários, com as suas atitudes destemidas e sua natural mineirice.

"Quando estamos no governo, todo adversário que quer se encaixar, diz ser técnico".

"O preço do voto de um eleitor mentiroso é sempre o mais caro".

"Há um fato na política que a torna bastante interessante: o choque dos falsos políticos com os políticos falsos".

"Político é dividido em duas partes. Uma trabalha para ser eleito. A outra trabalha para conseguir um cargo público se for derrotado".

"Muita campanha eleitoral se parece com sauna: depois do calorão vem uma ducha fria". (De A Mineirice, de José Flávio Abelha)

Porandubas Políticas nº 549

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por Gaudêncio Torquato.

 

Abro a coluna com uma historinha de Arandu/SP.

Empregando o plural

Arandu, em São Paulo, começou sua história como pequeno povoado, no bairro do Barreiro, no município de Avaré. Em 1898, um pedaço de uma fazenda leiteira da região foi doado para a construção de uma capela. Elevado a distrito de Avaré/SP, em 1944, recebeu na ocasião a atual denominação. Em 1964, conquistou a emancipação política. No primeiro comício, os candidatos a prefeito exibiam seus verbos. Dentre eles, o matuto José Ferezin. Subiu ao palanque e mandou brasa:

- "Povo de Arandu, vô botá água encanada, asfaltá as rua, iluminá as praça, dá mantimento nas escola...".

Ao lado, um assessor cochichou:

- Zé, emprega o plural.

O palanqueiro emendou:

- Vô dá emprego pro prural, pro pai do prural e pra mãe do prural, pois no meu governo não terá desemprego.

(Historinha enviada por Marcio Assis)

Bom senso

Prevaleceu o bom senso! Por ampla maioria, venceu a tese de adiamento da questão do afastamento do senador Aécio Neves! Ficou para o dia 17. Recado dado: se o STF confirmar no dia 11 que a palavra final sobre o afastamento é do Judiciário, terá a visão contrária do Senado no dia 17. O senado recuou hoje para ganhar mais adiante!

O perfil da vitória

Que perfil encarna com mais força a possibilidade de vitória em 2018? Tento arriscar: o perfil que exprimir confiança, credibilidade, respeito, experiência, equilíbrio, capacidade de colocar o Brasil nos trilhos. Passado limpo e vida decente. De onde virá esse perfil? Arrisco: do centro. Alguém que possa agregar entre 40% a 50% dos votos. As extremidades direita e esquerda deverão abrigar, cada qual, 20%. Vão sobrar entre 10% e 20% distribuídos em duas bandas: centro-direita e centro-esquerda. O centro terá força de atração para puxar aqueles índices e ganhar o pleito. Este consultor deixa ao leitor a escolha ou indicação do perfil com alguns dos valores e qualidades apontadas.

De quem é a última palavra?

A tensão entre os Poderes Legislativo e Judiciário atinge um grau de fervura. A questão central é: a última palavra para afastar um parlamentar pertence à Suprema Corte ou ao Congresso? Vamos à hipótese que, mesmo absurda, fundamenta-se na lógica: se o STF tem poder para afastar um parlamentar, pode afastar todos, 81 senadores e 513 deputados. Nossa democracia vestiria o manto da "judiocracia", sistema plasmado sob obra e graça do Poder Judiciário. Uma excrescência.

Judicialização

É comum ouvir-se nas rodas políticas o comentário de que os magistrados usurpam funções legislativas. As tensões entre os Poderes se acirram na esteira da própria "judicialização" das relações sociais, fenômeno que se expressa tanto em democracias incipientes quanto em modelos consolidados, como os europeus e o norte-americano, nos quais os mais variados temas envolvendo políticos batem nas portas do Judiciário. O fato é que a tese da judicialização ganha força. E o STF começa a receber fortes críticas de todos os lados.

Montesquieu abandonado

Montesquieu ponderava que juízes significavam a boca que pronuncia as palavras da lei, entes que não podem aumentar ou enfraquecer seu vigor. O tripé dos Poderes alinhava-se numa reta, embora o Legislativo ainda tivesse maior projeção. Com o advento do Welfare State, o Executivo passou a intervir de maneira forte para expandir a rede de proteção social. Passou, inclusive, a legislar, fato hoje medido entre nós pelas medidas provisórias e leis do Executivo. A crise, que se agudiza desde os tempos do mensalão, causa efervescência entre Poderes.

STF em condição superior

E nesses tempos de descrédito, o Judiciário, como intérprete da letra constitucional, aumenta sua força. Ao decidir se os Poderes Executivo e Legislativo, partidos e outros entes agem de acordo com a Constituição, o STF acaba definindo as regras da política na vida nacional, elevando o Judiciário a um patamar superior. Os textos legais, por seu lado, férteis em ambiguidade, propiciam condições para a instalação de um processo de judicialização da vida social. Disputas multiplicaram-se nas esferas pública e privada. A visibilidade dos tribunais se intensifica e seus membros passam a dar interpretação política aos conflitos.

Ativismo do MP

O MP, por sua vez, desenvolve forte ativismo. Promotores e procuradores de Justiça abrem espaço para um arsenal de ações civis públicas, reforçando a ideia de que é o quarto Poder. Lidera investigações na operação Lava Jato. Ganha proeminência. Órgãos governamentais usam-no para acionar outros órgãos públicos. O contencioso político-jurídico se adensa. Daí a esperada reação das casas congressuais. A lei de abuso de autoridade voltará ao centro de debates. O fato é que a crise entre os Poderes tende a se estender por um bom tempo, apesar dos esforços de seus presidentes para tentar amainar as tensões.

Moro e o fim da Lava Jato

O juiz Sérgio Moro está começando a enxergar o fim da Lava Jato. Não se trata de lamento. Parece imbuído da ideia de que o processo deve ter um fim e o país precisa inaugurar um novo ciclo regrado pelo resgate dos legítimos valores republicanos. Partindo de Moro, a hipótese de que a operação Lava Jato está chegando ao final sugere que, da parte que lhe toca, tentará apressar decisões. "Os barões da corrupção", na acepção dele, não terão mais vez. Tudo indica que Luiz Inácio deverá ser condenado em segunda instância e assim, será impedido de concorrer ao pleito de 2018.

Lula em 1º lugar

Vejamos a pesquisa Datafolha. Um amontoado de aparentes contradições. Lula domina todos os cenários, liderando a disputa de outubro de 2018. Ao mesmo tempo, a maioria da população apoia sua detenção. Quer vê-lo preso. Coisa estranha. Será que Lula é mesmo favorito? Este consultor tende a acreditar que não resistirá ao bumbo midiático de acusações, contradições e versões que recairão sobre seu perfil nos próximos tempos. Diminuiria a intenção de voto sobre ele e aumentaria a rejeição. Lula lidera, hoje, porque o tiroteio eleitoral está longe de ocorrer.

Imagem do governo

Da mesma forma, há questões que também precisam ser analisadas e que dizem respeito à imagem do governo. Como se explica que o presidente tem apenas 3% de avaliação positiva (ótimo e bom) e a maioria da população deseja que caminhe até o fim do mandato? Há algo estranho nessa equação. A economia se recupera, a inflação chegará este ano ao menor índice dos últimos tempos (entre 2,5% e 3%), os juros podendo chegar a 7% e o PIB voltando a crescer. O Bolsa Família foi aumentado. Houve liberação do FGTS e o PASEP injetará bilhões no consumo. Portanto, o estômago das margens não reclama. Mas a insatisfação com o governo é o tom das pesquisas.

Coração na cabeça

Se quiserem galgar os degraus mais altos do poder, vale apreender a lição de Kennedy: "guardem o coração na cabeça".

Será o bumbo?

Será que a imagem negativa se dá por conta do bumbo batido pela TV Globo todos os dias? Michel Temer estaria canalizando os dutos de lama que circundam a operação Lava Jato? O fato é que a comunicação do governo não tem conseguido repor índices positivos. É a observação que se faz por todos os lados. As tubas de ressonância da banda negativa abafam qualquer clarinete que tente tocar a música governamental. É um rio Amazonas engolindo um riachinho de águas rasas.

A tragédia americana

Os Estados Unidos voltam às manchetes mundiais com sua bandeira pingando sangue. No maior espaço das liberdades democráticas, a violência chega aos borbotões. Las Vegas é o flagrante do horror. O que explica um aposentado milionário atacar uma multidão com armas de alto calibre, matar 59 pessoas e ferir 530? Só há uma resposta: o germe da violência que se propaga nos corpos das Nações, particularmente as democráticas, e onde o direito de um cidadão possuir uma arma é sagrado.

O popularismo

As administrações popularistas expandem-se pelo desempenho de atores que enxergam a política como negócio, e não como missão. O compromisso fundamental é com a eleição e a lógica que movimenta o negócio é a conquista do poder para usufruto próprio. Assim, o país caminha para trás, somando seus PIBs negativos: o do popularismo funcional, o da irresponsabilidade administrativa, o do desperdício e o da corrupção.

Demagogos

Os popularistas continuam a eleger o povo como referência principal do discurso, mas pregam a conciliação de classes. Saindo daí, emergem as contradições. Na fala, assumem o discurso libertário de Gandhi; nas aparências, a pompa de Luís XIV, o rei Sol. Só que a fala de Gandhi desaparece no calor da luta eleitoral. Nesse momento, aparece a expressão pérfida de Maquiavel para a preservação do território do Príncipe, na sombra da lição "deves parecer clemente, fiel, humano, íntegro, religioso e sê-lo, mas com a condição de estares com o ânimo disposto a tornar-te o contrário".

O paradigma do caos

O professor Samuel P. Huntington assim descreve o paradigma do caos: "A lei e a ordem são o primeiro pré-requisito da Civilização e em grande parte do mundo elas parecem estar evaporando. Quebra no mundo inteiro da lei e da ordem, Estados fracassados e anarquia crescente, onda global de criminalidade, máfias transnacionais e cartéis de drogas, declínio na confiança e na solidariedade social, violência étnica, religiosa e civilizacional e a lei do revólver predominam em grande parte do mundo". Seria esse retrato a explicação para a extrema violência?

Taxa de governismo

Os números pró-governo na CCJ da Câmara estão em torno de 61%, enquanto no Plenário chegam a 79%. Pesquisa feita pelo Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV.

Fachin está isolado?

Lê-se que o ministro Edson Fachin está meio isolado no STF? Ou será que essa posição não reflete mais o desejo de uns? O que se observa também ali é um acentuado "espírito de corpo".

Fux contundente

O ministro Luiz Fux fechou questão: "por força da Constituição, o único poder que pode proferir decisões finais é o Poder Judiciário". Falou e disse.

Mantega sob mira

O ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega, teve rejeitado o acordo que impedia sua prisão. Pode ser um dos próximos alvos da 10ª vara Federal de Brasília.

Ética ou aética?

As pesquisas indicam: eleitores querem candidatos limpos, assépticos, passado limpo, vida decente. Pergunta: quer dizer que os velhos caciques serão rejeitados? Em minha vida de analista político, há três décadas, arrisco a dizer: continuarão a ser eleitos. Principalmente os mais próximos às comunidades e aos distritos. Mudar uma cultura é desafio para mais de uma geração.

Retrato do Brasil

A pergunta emerge naturalmente: por que não há no Brasil planejamento de longo prazo? O Brasil cultiva o gosto pelo instantâneo, pelo provisório. Prefere-se administrar o varejo e não o atacado. É mais vantajoso apagar incêndios que preveni-los. Coisas planejadas com muita antecedência parecem não combinar com a alma lúdica brasileira, brincalhona, irreverente. Se não fosse obrigado a enfrentar o batente para sobreviver, o brasileiro adoraria passar o ano inteiro na folia. Oswald de Andrade traduziu, um dia, tal estado de espírito ao versejar: "quando dá uma vontade louca de trabalhar, eu sento quietinho num canto, e espero a vontade passar".

Fecho a coluna com conselhos aos pré-candidatos de 2018.

Conselho aos pré-candidatos

Já é hora de começar a correr para cima, para baixo e para os lados. Atentem para alguns princípios orientadores na busca do voto:

1. Procurem expressar a característica mais importante de sua identidade – o foco.

2. Não esqueçam que o eleitor deseja travar conhecimento com o personagem. Circular no meio da massa é importante.

3. Façam grande esforço para multiplicar presença em vários locais – a onipresença é um valor insuperável. Planejar eventos rápidos em lugares e cidades diferentes em um mesmo dia.

Pacote de macarrão

Esse é o calcanhar de Aquiles de pré-candidatos e candidatos. Evitar serem flagrados em dissonância. E isso ocorre geralmente quando um candidato é instado a mudar de identidade. O eleitor percebe quando a pessoa torna-se artificial, um mero produto de marketing. E candidato não pode ser trabalhado como se trabalha um sabonete, um pacote de macarrão.

Porandubas Políticas nº 548

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por Gaudêncio Torquato.


Abro a coluna com uma deliciosa historinha mineira

Lei da Gravidade? Ah, de âmbito Federal

A Lei da Gravidade, de vez em quando, dá dor de cabeça aos mineiros. E a lei da gravidez, essa, nem se fala. Na Câmara Municipal de Caeté, terra da família Pinheiro, de onde saíram dois governadores, discutia-se o abastecimento de água para a cidade. O engenheiro enviado pelo governador Israel Pinheiro deu as explicações técnicas aos vereadores, buscando justificar a dificuldade da captação: a água lá em baixo e a cidade, lá em cima. Seria necessário um bombeamento que custaria milhões e, sinceramente, achava o problema de difícil solução a curto prazo, conforme desejavam:

- Mas, doutor - pergunta o líder do prefeito - qual é o problema mesmo?

- O problema mesmo - responde o engenheiro - está ligado à Lei da Gravidade.

- Isso não é problema - diz o líder - nós vamos ao doutor Israel e ele, com uma penada só, revoga essa danada de lei que, no mínimo, deve ter sido votada pela oposição, visando perseguir o PSD.

O líder da oposição, em aparte, contesta o líder do prefeito e informa à edilidade, em tom de deboche, que "o governador Israel nada pode fazer, visto ser a Lei da Gravidade de âmbito Federal". E está encerrada a sessão.

(A historinha é de José Flávio Abelha, em seu livro A Mineirice).

Primavera meio nebulosa

A primavera é a mais bela estação do ano. Há uma explosão de cores nos parques, jardins e alamedas. Mas há algo fora de tom: a impressão é de que, por enquanto, esta explosão ainda não chegou. O amarelo e o roxo dos ipês não estão tão intensos como em anos passados. Será que o clima vivido pelo país é motivo para essa primavera meio nebulosa? O fato é que essa 2ª denúncia contra o presidente Michel Temer e dois ministros deixa o ambiente político mais tenso. A perspectiva é a de que, mais uma vez, a Câmara vetará o pedido de investigação contra Temer. Dessa feita, até com uma votação mais expressiva que a primeira. Mas o país perde o passo e confunde o compasso.

Passo e compasso

Explico. Há uma agenda de reformas posta sobre a mesa política. A economia começa a respirar. O oxigênio chega aos poucos nos poros da indústria, do comércio e dos serviços. O varejo dá sinais de vitalidade. O consumo toma fôlego. O agronegócio está bombando. A confiança de investidores cresce. A inflação desce. Os juros, idem. O PIB volta a ter aumento nas projeções de institutos. Mas o passo do país fica mais devagar. A denúncia de Janot é uma espécie de trava no compasso entre avanço e estática, andar e parar. Esse final de setembro transmite tal sensação. Nuvens ainda plúmbeas teimam em obscurecer o azul do horizonte.

Ensaios presidenciais

Enquanto a pauta fica travada para exame da 2ª denúncia contra o presidente, pré-candidatos ensaiam movimentos eleitoreiros. Geraldo Alckmin, o governador paulista, decidiu se movimentar após ver os passos acelerados de seu pupilo João Doria. Alckmin tem na testa o carimbo do poder paulista. Carece de feição mais nacional. Doria está aqui, ali e acolá. É o mais onipresente dos protagonistas. O excesso de andanças pode lhe dar visibilidade, mas causará canseira. Esgotamento. Marina é quase uma reclusa. Bolsonaro conta com militância aguerrida e simpatizantes nas redes.

A maior interrogação

A maior interrogação diz respeito a Lula. Será candidato? Na visão deste consultor, pela régua de 0 a 100, a possibilidade de emplacar uma candidatura é apenas de 20. Ganhou a sétima denúncia e já tem uma condenação em primeira instância. Vai ser muito difícil passar incólume pela segunda instância. O TRF da 4ª região se mostra muito duro. Vejam o que fez com José Dirceu: aumentou a pena de prisão para 30 anos. Sobram Fernando Haddad e Jaques Wagner. O ex-prefeito parece não ter apetite. E o ex-governador da Bahia possui uma identidade inferior ao tamanho de uma candidatura presidencial.

O palrador

O PDT irá de Ciro Gomes. Atrairia a esquerda se Lula não for candidato? Não. Poderia, isso sim, ter votação ampliada no Nordeste. Ciro é um canhão ambulante. Atira sem medir as consequências. Com seu arsenal linguístico, criará desconfiança junto ao eleitorado. Urge reconhecer, porém, que se trata de um perfil preparado. Em debates, consegue boa performance.

Podemos ou não podemos?

Álvaro Dias ensaia ser candidato pelo PODEMOS, esse partido com um nome bronzeado de marketing. Quem imaginou o nome, deve ter pensado no recado: "hei, leitor amigo, com você junto podemos alcançar a vitória". Ora, de tão óbvia, a asserção cairá no descrédito. Por isso, senador Álvaro, é bem provável que seu PODEMOS não vá muito longe. Conforme-se com a rejeição dos milhões que poderão não seguir seus passos.

As grandes mudanças

Hora de lembrar um preceito da ciência política: as grandes mudanças da História são produzidas quando os favorecidos e apaniguados do poder não têm a capacidade para transformá-lo em força, enquanto os que dispõem de pequeno poderio aproveitam essa capacidade ao máximo para convertê-la em força crescente.

Mulheres

As mulheres deverão fazer uma baciada de representantes maior que a de 2014. Estão muito organizadas. E os escândalos têm preservado a condição feminina. A contaminação do vírus da velha política abarca mais o gênero masculino.

Juízes e procuradores

Os juízes e procuradores estão na crista da onda, puxados pela carruagem de Curitiba. Daí a inferência: terão boa oportunidade caso alguns representantes do Judiciário e do Ministério Público decidam ser candidatos em 2018. Serão vistos como alavanca moral no panorama geral da política. Seria interessante ver alguns procuradores vivendo a real politik. Enfrentariam a dura realidade imposta por nossa cultura política.

Rocinha

O Rio de Janeiro vive a síndrome de Sísifo, aquele condenado pelos deuses a levar uma pedra sobre os ombros para depositá-la no cume da montanha. Quando está prestes a conseguir o feito, eis que a pedra cai e rola ao sopé da montanha. Sísifo volta para tentar novamente. Tentativa que durará por toda a eternidade. Quando imaginamos que o Rio está pacificado, o tiroteio volta intenso com facções criminosas se digladiando e matando inocentes com balas perdidas. O Rio de Janeiro continua lindo... e cada vez mais perigoso.

Manipulação

Em 1922, Walter Lippmann, o famoso jornalista norte-americano, fazia o alerta: "Fabricar consentimento, pela velha arte da manipulação da opinião pública, não morreu com a democracia, como se supunha".

26 recibos

A defesa de Lula apresentou 26 recibos de aluguel da cobertura vizinha ao apartamento dele. Dentre esses, dois com datas inexistentes. Assinados por Glaucos da Costamarques, proprietário do imóvel e primo do pecuarista José Carlos Bumlai, amigo de Lula. Glaucos diz que só recebeu a partir de novembro de 2015. Afinal, a assinatura é dele ou não? E se ele confirmar que assinou, mas não recebeu? Onde está a verdade?

Rebelião das costureiras

O Rio Grande do Norte acaba de presenciar um feito histórico: trabalhadores fazendo uma grande mobilização em defesa de uma empresa, a Guararapes, e mostrando-se revoltados contra o Ministério Público do Trabalho, que está multando a empresa em R$ 38 milhões. A razão? O MPT está vetando as facções de costura (microempresas da área têxtil) que produzem peças adquiridas pela Guararapes.

Pró-Sertão

Trata-se de um projeto chamado Pró-Sertão que dá guarida a cinco mil trabalhadores. O MPT criminaliza a Guararapes, exigindo que essa mão de obra seja incorporada ao quadro efetivo da empresa. Ou seja, o MPT despreza a Lei da Terceirização e joga a Reforma Trabalhista no lixo. Os trabalhadores esperam que a Justiça do Trabalho preserve seus empregos. As facções também chegam a vender seus produtos para outras empresas. Mas o MPT diz que há subordinação das costureiras à Guararapes, daí a exigência para sua incorporação ao quadro de funcionários do grupo. Até quando vamos conviver com essa visão retrógrada?

O Brasil de Campos

Roberto Campos, exímio na arte de atirar contra a improvisação, narra: "O Brasil tem a propriedade de, no começo, anedoticamente divertir, depois exasperar e, por fim, desesperançar aqueles que confiam na racionalidade, na procura de causas e efeitos e na sequência do discurso como sujeito-verbo-predicado".

Cabral, fim de linha

Sérgio Cabral Filho parecia predestinado a chegar ao ápice da política. Tinha o talhe adequado para o alto cargo de presidente da República. Governador do charmoso Estado do Rio de Janeiro, jovial, bom trânsito na esfera política, filho de um grande brasileiro, também de nome Sérgio Cabral, renomado nome das artes e da música popular brasileira, Cabral Filho era um perfil dos mais elevados do PMDB. Preso e condenado a 45 anos de prisão - a pena mais pesada da Lava Jato - acaba de ter seus imóveis postos a leilão, somando um total de R$ 44 milhões. Na política, tudo é possível. Até a ressurreição de mortos. No caso de Cabral, a volta à cena seria um verdadeiro milagre.

CPI da JBS

A CPI da JBS está se apresentando como oportunidade para alguns deputados darem resposta a seus acusadores. Não pode ter esse viés sob pena de cair na desmoralização.

Pleito à moda antiga

O pleito de 2018 poderá ocorrer dentro das velhas regras. O que será um desastre. Havia muita expectativa em torno da reforma política. Que poderá se limitar a detalhes, sem grande significação. Os dois instrumentos mais badalados - cláusula de barreira e fim das coligações proporcionais - ameaçam não passar pelo crivo dos deputados. Temos poucos dias pela frente para aprová-los. Mas o interesse parece concentrado no fundão para financiar as campanhas.

Um sonho

Colombo aferrava-se à obsessão de que poderia chegar ao Oriente pelo caminho do Ocidente. O pensamento não lhe dava trégua. Esta foi a diferença entre Colombo e os seus contemporâneos. Estava convencido. Queria partir. Mas seria forçado a esperar muito. Enquanto aguardava, falava do sonho. D. João II, rei de Portugal, interessou-se pelo assunto e submeteu o projeto de Colombo a uma junta de sábios. Estes condenaram a ideia. Quando morreu a esposa, Colombo gastou a maior parte de suas economias com o enterro. E foi para a Espanha.

Esperou, esperou

Fernando e Isabel, empenhados em dispendiosa guerra com os mouros, deram apenas meio ouvido à proposta do genovês. A rainha, entretanto, foi simpática a ele. Concedeu-lhe uma pensão, enquanto a junta de notáveis do Reino estudava o assunto. Depois de dois anos, a pensão foi suspensa. Foi obrigado a se manter sem ajuda durante os oito anos seguintes com a venda de livros e de mapas que confeccionava. Seus cabelos ficaram brancos. Foi atacado pelo artritismo. Mas nunca desesperou. E, um dia, realizou seu sonho.

Fecho a coluna com Tancredo

Conchavo

Premido pelos casuísmos, Tancredo Neves foi obrigado a fundir o seu PP com o MDB de Itamar. Alguns pepistas pularam do barco e protestaram alegando conchavo. Tancredo foi curto e seco: "Conchavo é a identificação de ideias divergentes formando ideias convergentes". Tinha razão. Há curvas que desembocam em retas.

Porandubas Políticas nº 547

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por Gaudêncio Torquato.

Abro a coluna com uma historinha da Paraíba.

Silêncio, silêncio

Flávio Ribeiro, presidente da Assembleia Legislativa (depois foi governador do Estado), estava irritado com as galerias, que aplaudiram e vaiavam durante um debate entre o deputado comunista Santa Cruz e o udenista Praxedes Pitanga. Tocou a campainha, pediu silêncio, insistiu no pedido e avisou, grave e feroz:

- Se as galerias continuarem a se manifestar, eu evacuo.

Felizmente, as galerias se calaram.

A era Dodge

Raquel Dodge abre um novo tempo na Procuradoria-Geral da República. Será uma era mais focada no equilíbrio, na distensão institucional, o que não significará leniência no cumprimento das funções da PGR. Dodge, ao que sabe, não concordava com o estilo rompante-avassalador de Rodrigo Janot. Vai agir de modo mais harmônico, abrindo diálogo com as esferas política e governativa, analisando com maior profundidade os casos sob sua órbita. E dará força à descentralização das atividades.

Calmaria até certo ponto

É evidente que os tempos de calmaria poderão, eventualmente, desaparecer ante a probabilidade de emergirem novos escândalos, bombas e explosões às voltas da operação Lava Jato. Mas não se pense que a Lava Jato será desativada ou mesmo entrar em ritmo mais lerdo. É certo que as investigações e decisões do Judiciário deverão continuar ao longo do ano eleitoral. E quais seriam as consequências sobre os protagonistas da política?

Impactos eleitorais

Os impactos da operação Lava Jato sobre a política e as eleições começarão com o afastamento de alguns nomes do páreo. Candidatos - proporcionais e majoritários - sairão da corrida, com alguns fechando sua carreira política. Condenações poderão ocorrer às vésperas do pleito, o que elevaria o grau de tensão e a animosidade entre contendores e acusadores/julgadores. Mas algo será muito positivo: teremos uma eleição mais asséptica e menos contaminada pelo vírus da velha política.

Tendências

É bastante provável a hipótese de que a população gostaria de ver o país navegar em águas tranquilas, sem os solavancos desses tempos borrascosos. Desde o mensalão, na era Lula, o país vem atravessando turbulências. A ser verdade, abre-se grande chance para o país acolher um perfil que expresse equilíbrio, harmonia, pacificação. Mas a essa figura se cobrará posição enérgica em relação a atos ilícitos, à corrupção, à bandalheira. Sua missão: pôr ordem na casa, sem estardalhaço. Eis o sentido que deverá nortear as expectativas dos eleitores.

Polarização, sim, com cuidado

Haverá intensa polarização entre alas da direita e grupos da esquerda. Como é sabido, três pessoas de posições radicais, à esquerda, fazem mais barulho que um batalhão de perfis localizados nos espaços centrais e mesmo à direita do arco ideológico. Esses terão de reagir às provocações que, inevitavelmente, surgirão das tubas e das turbas da esquerda. PSOL e PT devem fazer composição, (se não no primeiro turno), provavelmente no segundo, para enfrentar o candidato do centro, que procurará atrair a parceria da direita. A polarização se estabelecerá. É pouco provável que, após a hecatombe do ciclo petista (Lula/Dilma), incluindo os escândalos do mensalão e do petrolão, vejamos um candidato de esquerda chegando ao pódio.

Lindbergh delirando

Lê-se que o senador Lindbergh Farias, do PT, está dizendo que seu partido fará um boicote às eleições, caso Lula seja impedido pela Justiça de ser candidato. Trata-se de bobagem. Ou puro delírio. Basta anotar que, ao não participar do processo eleitoral, o PT estaria assinando seu atestado de óbito. Não seria votado em lugar nenhum. Mas como se sabe que a fala do jovem cacique é lorota, podemos inferir que, na verdade, ele joga com as palavras, fazendo pressão sobre os juízes da segunda instância. Que decidirão sobre o destino de Lula. O fato é que o PT elegerá uma bancada bem menor, algo entre 45 a 50 deputados.

PSOL

O PSOL tem condições de expandir bem sua bancada em 2018. Seus representantes ganham muita visibilidade. Estão sempre na mídia massiva. E o partido tende a abocanhar boa parcela dos eleitores que, até então, têm votado no PT. É até possível que seja um competidor forte na disputa pelo governo do Rio de Janeiro. Alessandro Molon e Chico Alencar são os emblemas do partido.

Partidos do centro

Já os partidos de centro serão beneficiados pelo clima eleitoral de 2018. Puxarão as correntes que evitarão as margens radicais. PMDB, PSDB, PSD E DEM, por suas estruturas mais capilares, tendem a fazer uma boa safra de votos nas regiões mais distantes, onde está sediado o eleitorado tradicional e conservador.

Reversão de expectativas

A reforma política está indo para o brejo. Depois de muitos conchavos, a Comissão Especial que dela tratava chega a final melancólico, reconhecendo que o jacaré virará lagartixa. Há ainda condições de ser aprovada a cláusula de barreira, que imporá uma percentagem mínima de votos em um determinado número de Estados para que um partido político possa existir. E, possivelmente, o fim das coligações proporcionais. Mas o corpo parlamentar não se mostra animado com a possibilidade de fazer vingar já para 2018 esses dois estatutos.

Palocci expulso

Antonio Palocci, que já foi o candidato in pectore de Lula à presidência da República, será expulso do PT. Decisão que não amenizará a situação de Luiz Inácio, às voltas com a Justiça. Palocci se mostra muito auto-confiante. Sua delação premiada, em negociação com o MP, será o ponto final para o futuro de Lula. O ex-todo poderoso ministro da Fazenda certamente deve ter provas sobre o que anda dizendo do ex-presidente da República.

PF x MPF

Na era Dodge, espera-se que as tensões e conflitos entre a Polícia Federal e o Ministério Público sejam amainados. Haverá espaço para uma recíproca colaboração. É o que se espera.

Temer atravessando a barreira

As inferências são praticamente as mesmas entre colunistas e comentaristas: o presidente Michel Temer atravessará mais uma vez a barreira que o ex-procurador Janot construiu contra ele. O STF deve encaminhar para a Câmara a segunda denúncia, mas esta, como a primeira, não será aceita pelos deputados. Infere-se que o presidente terá mais votos favoráveis do que os 263 obtidos por ocasião da votação sobre a primeira denúncia. Como alguns partidos entraram no pacote de Janot, é razoável imaginar que tendem a reforçar sua fortaleza corporativa. E impedir o andamento da denúncia feita pelo ex-procurador.

MPT elimina empregos na crise

O Grupo Guararapes, com matriz em Natal, no Rio Grande do Norte, e dono das Lojas Riachuelo, tem sido o alvo de uma caçada empreendida pelo Ministério Público do Trabalho há quase dez anos, segundo executivos da companhia. Na ação mais recente, a procuradora do MPT, Ileana Mousinho, apontou supostas irregularidades nas facções de costura terceirizadas contratadas pelo grupo e solicita o pagamento de R$ 37 milhões em indenizações. Com isso, a empregabilidade da população está sob ameaça.

"Deixe o ódio de lado e nos deixe trabalhar"

O setor têxtil tem potencial para transformar a realidade socioeconômica do RN, mas encontra no MPT um impeditivo. Flávio Rocha, CEO do Grupo Guararapes, tem usado as redes sociais para esclarecer os fatos e denunciar a procuradora por perseguição. Ileana, segundo Rocha, "envia sistematicamente denúncias infundadas a todas as delegacias do Ministério, com exigências absurdas". O Grupo Guararapes já chegou a empregar 20 mil pessoas, agora são oito mil trabalhadores diretos.

Estado pró-emprego

O empresário não está sozinho na luta pelo emprego potiguar. Autoridades, associações, líderes sindicais e trabalhadores fazem coro por todo Rio Grande do Norte e promovem manifestações contra o Ministério Público do Trabalho e em favor do emprego. Uma grande mobilização está sendo organizada para o próximo dia 21, às 15h30, em frente à sede do Ministério Público do Trabalho, em Natal/RN.

O que está por trás

Esta querela, é forçoso reconhecer, ultrapassa as fronteiras do RN. Trata-se, na verdade, de uma vingança do Ministério Público do Trabalho contra dois instrumentos que acabam de ser aprovados e fazem parte do arsenal da modernização das relações capital-trabalho no Brasil: a reforma trabalhista e a lei da terceirização. O MPT já disse que irá lutar contra essas duas frentes aprovadas no Congresso e sancionadas pelo Executivo. Pelo jeito, não se conformam com a terceirização das atividades meio e fim das empresas. Vai multar, dando vazão a uma estratégia de retaliação e confronto. Até os Tribunais Superiores darem um basta aos impulsos e rompantes do MPT, muito estrago será feito. Ministros do STJ, ministros do STF, até onde o país vai aguentar a guerra que dinossauros querem travar contra a ordem normativa?

Fecho a coluna com uma historinha da Bahia.

Filho inepto

Velhos tempos. Tempos de deboche e criatividade. O deputado Luís Viana Neto estava na tribuna da Câmara:

- Filho e neto de governadores da Bahia...

Lá embaixo, o deputado Francisco Studart (MDB/RJ) gritou:

- Não apoiado!

- Senhor deputado, sou filho e neto de governadores da Bahia.

- Perdão, excelência. Entendi mal. Entendi: "Filho inepto de governadores da Bahia"...

Risadas gerais em plenário.

Porandubas Políticas nº 546

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por Gaudêncio Torquato.

 

Denúncias e canibalização

Freyre com y

Abro a coluna com uma historinha vivida por este consultor.

Idos de 1962, Recife. Os concluintes do científico no Colégio Americano Batista escolheram como paraninfo o sociólogo Gilberto Freyre, que também fizera seus estudos secundários no CAB. Como orador da turma, coordenei a visita à Apipucos para entrega do convite da formatura. Subimos a escadaria da bela mansão e fomos muito bem acolhidos por dona Madalena, a companheira do grande pernambucano. Não faltou o afamado licor de jenipapo, de que tanto falava o escritor. Depois de uns minutos, aparece Gilberto Freyre. Ouviu com atenção os nomes de cada componente da comitiva. Entregue, cerimoniosamente, o convite da formatura. Lá estava escrito: "Ao escritor e sociólogo Gilberto Freire". Pegou o documento, leu o nome do destinatário, mas não abriu o envelope. E foi logo me dizendo:

- Meu filho, meu pai, Alfredo, quando recebia uma correspondência grafada com Freire, sem y, ele não a abria, devolvendo-a com uma mensagem anexada onde se lia:

-Meu Freyre é com y. Por favor, faça a correção e me volte a remeter. Vou aceitar o convite. Mas voltem depois dessa correção.

Ouvimos o puxão de orelha, surpresos, porém agradecidos. Afinal, aceitara o convite, mesmo tendo uma agenda (nacional e internacional) lotada. Uma semana depois, tomamos outro licor. Na companhia do Freyre com y.

(P.S.) Nosso paraninfo fez um dos mais densos discursos que ouvi. Fato ressaltado na mídia. Mesmo tendo "voado" um pouco nas passagens mais filosóficas.

Canibalização

Mais uma denúncia contra Lula veio à tona. Desta feita, uma denúncia de corrupção passiva, ainda do tempo em que era presidente. A questão é: essas denúncias vão surgindo, periodicamente, contra um ou outro personagem. E o leitor acaba se confundindo, não conseguindo diferenciar uma de outra denúncia. Ocorre um processo de canibalização: a última "come" a anterior ou as anteriores, de forma a adensar a capa de sujeira que veste o político. Luiz Inácio já é réu pela 5ª vez. Poucos, muito poucos, conseguem recitar os casos em que ele foi denunciado.

De terço na mão

Este consultor gosta de ver detalhes, essas pequenas coisas que acompanham o cotidiano dos protagonistas da política. Que surpresa verificar, por exemplo, que Joesley Batista, ao ser levado preso para Brasília, levava um terço entre os dedos. Sim, um terço de reza. Não o de contas aritméticas. Quer dizer, o empresário devia aproveitar a aflição para rogar ao céu ou à santa de predileção. Agora, vejam que coisa menos harmônica ou santificada: pensar numa reza contrita de Joesley e reler os termos chulos que usou na conversa com seu assessor, Ricardo Saud, quando disse, por exemplo, que tinha contratado mulher e gay como parte de suas ações "estratégicas". (aspas por conta do consultor)

Ficção

Joesley confessa ter feito contrato fictício com escritório do sócio do advogado José Eduardo Cardozo, Marco Aurélio. A quem repassava somas mensais entre R$ 70 a R$ 80 mil.

Quebra de tijolo

Mais um tijolo caindo no prédio dos Batista, a JBS. A homologação do acordo de leniência do Grupo cai por terra por decisão da Justiça Federal. Efeito dominó.

Aplausos da bolsa?

A Bolsa de Valores ultrapassou a casa dos 74 mil pontos. Analistas fazem conexão da alta com a prisão de Joesley. Será? Se for, significa aplausos do mercado ao ato. Brasil acompanha atento a escalada da Justiça.

E Miller, hein?

O ex-procurador Marcello Miller conseguiu se livrar do pedido de prisão feito pelo PGR Rodrigo Janot. O que não o livrará de eventual condenação mais adiante se for comprovado o favorecimento à JBS ainda na condição de membro do MP. O caso será investigado. Afinal, ele teria orientado ou não Joesley a gravar a conversa com o presidente Temer? Saiu do MP e cumpriu a quarentena para exercer a atividade de advogado do grupo JBS? Essas questões serão analisadas nos próximos dias.

Por quê?

Recebo do grande advogado, mestre dos mestres, Ives Gandra Martins, esta perturbadora pergunta: "Por que a seletividade da prisão de Joesley e não de Marcelo Miller? Será por ser ex-procurador?".

Excesso de confiança

As conversas entre Joesley Batista e Ricardo Saud mostram uma faceta pouco recomendável a um empresário: a maneira debochada com que trata autoridades e instituições; a tendência de igualar todos, sem exceção, jogando-os no meio do conhecido dito: todos são farinha do mesmo saco; a crença no poder do dinheiro, que compra tudo, incluindo o caráter; o uso vexatório (vergonhoso) da Língua Portuguesa, com erros de concordância dos mais primários; a facilidade com que furaram a liturgia do poder, usando, para tanto, o vil metal.

Calmaria e borrascas

Os próximos tempos intermediarão calmarias e borrascas. A calmaria será fruto do grau de previsibilidade que a política sugere, algo sensível às bolsas de valores, cujas altas ocorrem na onda de projeções positivas para as marés da política. Mas como esta gera fatos imponderáveis, é razoável supor que os próximos tempos poderão nos trazer mais borrascas. A calmaria aponta: presidente atravessando a onda de segunda denúncia feita por Janot; continuidade de melhoria dos índices econômicos; continuidade de votação e aprovação da agenda de reformas no Legislativo, entre outras situações. Borrasca: divulgação de novos áudios com fatos "gravíssimos" revelados; delações premiadas de alguns personagens que estão presos.

Palocci e o PT

O ex-ministro Antonio Palocci é "uma das pessoas mais inteligentes do país". Quem disse isso há tempos foi o ex-presidente Lula. Pois bem: agora, para Luiz Inácio e a cúpula do PT, Palocci mentiu em seu depoimento ao juiz Sérgio Moro. Quem ouviu o testemunho pode atestar: a conversa tinha roteiro, começo, meio e fim; respondeu tranquilamente a todas as perguntas do juiz; não demonstrou nervosismo ou falta de conhecimento de quem poderia estar inventando coisas; enfim, foi convincente. Este depoimento será fatal para o ex-presidente Luiz Inácio. A ser lembrado muitas vezes nos tempos eleitorais que se avizinha.

Reflexão de Chaparro

O prof. Manuel Chaparro, conhecido pela seriedade de suas análises e reflexões, insere em seu blog esta interessante observação: "Ao rotularem Antonio Palocci de "traidor", os partidários de Lula cometem aquilo que nas ciências da linguagem é chamado de ato falho. Chamar Palocci de "traidor" é dar-lhe tratamento e qualificação de cúmplice nos crimes que agora delata. Trata-se, portanto, de um ato falho. E ato falho, nos saberes de Lacan, é discurso veraz, o discurso perfeito. No caso, um discurso que, em vez de desmentir, ratifica a veracidade das revelações. Assino embaixo.

PSDB no governo

Quem apostava na saída dos tucanos do governo pode se conformar com a ideia de que cresce a tendência de ficarem até o final. Depois da escaramuça organizada pelos "cabeças pretas" (os deputados mais jovens), sob certa influência do senador "cabeça branca" Tasso Jereissati, fortalece-se a tese da permanência sob o influxo da melhoria dos índices da economia.

Tática? Conceito do momento

O momento é adequado para se iniciar o planejamento de estratégias e táticas com vistas ao amanhã. Vejamos o que é tática. No futebol, quando o atacante joga a bola para trás, recuando-a para seu próprio campo de defesa, parece realizar um movimento covarde. Às vezes, é apupado. Muitos acham que a jogada não tem lógica. Mas essa bola recuada pode abrir espaços, deslocar o adversário, obrigá-lo a avançar de maneira descuidada e abrir a defesa. Pois bem, tal manobra pode gerar uma sequência de ações que culminarão com um gol. Essa é uma operação também chamada de OP. O gol é uma operação OP, de caráter terminal. E é construído por jogadas intermediárias. A tática é ferramenta de vitória.

Na guerra

"Prepare iscas para atrair o inimigo. Finja desorganização e esmague-o. Se ele está protegido em todos os pontos, esteja preparado para isso. Se ele tem forças superiores, evite-o. Se o seu adversário é de temperamento irascível, procure irritá-lo. Finja estar fraco e ele se tornará arrogante. Se ele estiver tranquilo, não lhe dê sossego. Se suas forças estão unidas, separe-as. Ataque-o onde ele se mostrar despreparado, apareça quando não estiver sendo esperado". (Sun Tzu)

Mais lições

As lições de táticas e estratégias dos clássicos da política e das guerras parecem não merecer nenhuma consideração por parte de nossos atores políticos, empresariais, policiais e outros que adoram as luzes do palco. Lembremos mais alguns conselhos de Sun Tzu:

a) "Quando em região difícil, não acampe. Em regiões onde se cruzam boas estradas, una-se aos seus aliados. Não se demore em posições perigosamente isoladas. Em situação de cerco, deve recorrer a estratagemas. Numa posição desesperada, deve lutar. Há estradas que não devem ser percorridas e cidades que não devem ser sitiadas".

b) "Não marche, a não ser que veja alguma vantagem; não use suas tropas, a menos que haja alguma coisa a ser ganha; não lute, a menos que a posição seja crítica. Nenhum dirigente deve colocar tropas em campo apenas para satisfazer seu humor; nenhum general deve travar uma batalha apenas para se vangloriar. A ira pode, no devido tempo, transformar-se em alegria; o aborrecimento pode ser seguido de contentamento. Porém, um reino que tenha sido destruído jamais poderá tornar a existir, nem os mortos podem ser ressuscitados".

Marta candidata?

Marta Suplicy pode sair candidata do PMDB em São Paulo. A depender das pesquisas lá para os meados de março/abril. Paulo Skaf deve lutar, e muito, para voltar a ser candidato. Teria a preferência da cúpula do partido. Mas a real politik é quem ditará as conveniências. Marta poderá ter apelo mais forte. Este consultor ouviu de gente influente: a senadora cisca para fora e consegue atrair eleitores. Skaf cisca para dentro e se isola. Só acredita no que a boca fala. Já Marta ouve.

Fecho a coluna com este diálogo.

Pequena aula de política

O dialogo é muito conhecido. Merece ser lembrado pela oportunidade do tema. Diálogo entre Colbert e Mazarino, durante o reinado de Luís XIV, na peça teatral Le Diable Rouge, de Antoine Rault:

Colbert: Para arranjar dinheiro, há um momento em que enganar o contribuinte já não é possível. Eu gostaria, senhor superintendente, que me explicasse como é possível continuar a gastar quando já se está endividado até o pescoço.

Mazarino: Um simples mortal, claro, quando está coberto de dívidas, vai parar à prisão. Mas o Estado é diferente! Não se pode mandar o Estado para a prisão. Então, ele continua a endividar-se. Todos os Estados o fazem!

Colbert: Ah, sim? Mas como faremos isso, se já criamos todos os impostos imagináveis?

Mazarino: Criando outros.

Colbert: Mas já não podemos lançar mais impostos sobre os pobres.

Mazarino: Sim, é impossível.

Colbert: E sobre os ricos?

Mazarino: Os ricos também não. Eles parariam de gastar. E um rico que gasta faz viver centenas de pobres.

Colbert: Então como faremos?

Mazarino: Colbert! Tu pensas como um queijo, um penico de doente! Há uma quantidade enorme de pessoas entre os ricos e os pobres: as que trabalham sonhando enriquecer e temendo empobrecer. É sobre essas que devemos lançar mais impostos. Cada vez mais, sempre mais! Quanto mais lhes tirarmos, mais elas trabalharão para compensar o que lhes tiramos. Formam um reservatório inesgotável. É a classe média!