Pais da nova geração assumem papel mais protagonista na criação dos filhos

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Como a ampliação da licença-paternidade para 20 dias é reflexo de um novo momento na educação de filhos, com pais mais participativos


Na casa de Alessandro e Carine Zacarias, os braços dos pais dificilmente estão vazios. Há um ano e dez meses, eles têm Júlia pedindo colo ou companhia para brincar no quintal; e, há pouco mais de dois meses, Pedro chegou para completar a família. Júlia foi planejada: Alessandro montou o quarto, ajudou a escolher as roupinhas e participou do curso de gestantes da maternidade. Lá, conheceu detalhes de como seria o parto, acompanhou as lições sobre amamentação e aprendeu sobre banho e higiene do bebê.

– Lá eles ensinam com um boneco. É tudo mais difícil quando você tem uma criança de verdade. No início, a Carine é quem fazia tudo, depois é que comecei a me envolver – diz Alessandro.

Os primeiros cinco dias de Júlia foram passados na maternidade, já que a menina nasceu com quatro semanas de antecedência e teve icterícia neonatal, o famoso ¿amarelão¿, e demorou para receber alta. Quando Carine e Júlia foram para casa, já era hora de Alessandro voltar para o trabalho, e foi necessário recorrer às avós para ajudar nos primeiros dias.

– Até para fazer a documentação dela, com pedido de inclusão no plano de saúde e outros detalhes burocráticos, eu precisei pedir uma licença de meio período no trabalho e correr para resolver – relembra.

Quando Pedro nasceu, ele já desempenhava com experiência o papel de pai. Com isso, a mudança na lei sobre a licença-paternidade foi tão importante: ele pôde aproveitar para vivenciar de perto quase três semanas do filho enquanto este vivia os primeiros momentos, cuidou da primogênita que ainda era um bebê e foi o braço-direito de Carine, que havia passado por uma cirurgia de cesariana.

Doze semanas depois, a rotina da casa já está organizada para atender às necessidades das duas crianças. Carine dedica-se exclusivamente aos pequenos, mas, quando Alessandro chega em casa, as tarefas se dividem: ele passa um tempo com Júlia no quintal, brincando ou colhendo tomates-cereja na horta e, enquanto a mãe dá banho no caçula, ele dá o jantar a Júlia. Depois, ainda há a tarefa de colocar a menina na cama e cuidar da casa.

– Nós conversávamos muito durante a gravidez da Júlia sobre como a vida iria mudar e como era importante eles viverem estes momentos de cuidado com os filhos, porque influencia muito na criação da criança. Ele já estava bem preparado – conta Carine.

O nascimento de uma família

A ampliação da licença–paternidade para 20 dias nas empresas inscritas no Programa Empresa Cidadã ocorreu com a sanção da lei 13.257/2016 pela ex-presidente Dilma Rousseff, que estabeleceu um marco legal para a primeira infância. Com elas, os empregados têm direito também a até dois dias para acompanhar consultas médicas e exames complementares durante a gravidez da esposa e de um dia por ano para acompanhar o filho de até seis anos em consultas médicas.

O aumento do tempo para o pai ficar com a criança recém-nascida e incumbir-se de responsabilidades reflete não só as mudanças no entendimento nos deveres paternos, mas também a importância do vínculo nas primeiras semanas de vida.

— A criança vai criar vínculos com quem se dedicar a ela neste momento. É necessário compreender que o pai é tão importante quanto a mãe, e um não substitui o outro.

O bebê precisa que alguém esteja suprindo suas necessidades, e a única coisa que o pai não pode fazer é amamentar – analisa a psicoterapeuta Eliza. Um levantamento da faculdade de economia da Universidade de São Paulo (USP) antes da aprovação da lei 13.257 mostrou que o impacto da ampliação da licença-paternidade levaria a um custo de R$ 98,7 milhões, cerca de 0,1% da arrecadação federal – o benefício não é pago pelo INSS como na licença-maternidade, mas as empresas que aderiram podem deduzir do Imposto de Renda devido o total da remuneração paga ao empregado.

Em compensação, há estudos que mostram que a licença-paternidade colabora no desenvolvimento cognitivo, nas chances de maior tempo na amamentação e no fortalecimento das relações entre o pai e a criança.

Hora de empoderar os pais

Marcos e Alessandro fazem parte da primeira geração de homens que chegam à idade adulta com uma concepção diferente do que significa ser pai. Se, até pouco tempo, era comum acreditar que ao pai cabia a responsabilidade de garantir o orçamento familiar e, no máximo, oferecer orientações aos descendentes, atualmente há novas crenças e expectativas sobre o envolvimento paterno. Além da interação, mais leve e de maior proximidade nas últimas décadas, com a mudança da figura paterna como a de maior autoridade na casa, os novos papéis sociais de homens e mulheres também transformaram as responsabilidades e a divisão de tarefas.

— Os homens estão em busca de um novo papel, que se perdeu com as mudanças das mulheres ao assumirem posições no mercado de trabalho. Eles estão quebrando a ausência de modelos e assumindo a paternidade ativa — avalia a psicoterapeuta em casais e família Eliza Távora.

Ela afirma que, com as alterações na sociedade, este tipo de acordo já é firmado desde o namoro, quando as mulheres deixam claro que as responsabilidades – na vida financeira, nas tarefas domésticas e na educação dos filhos – serão compartilhadas. Além disso, a compreensão atual sobre a educação também permite mais flexibilidade na vida lúdica dos meninos, que começam a ganhar permissão para brincadeiras como cuidar de bonecas ou cozinhar que, antes, eram vistas como ¿de menina¿.

— Por muito tempo, os homens se colocaram em uma posição confortável de não serem cobrados e, por isso, não dividir os cuidados com os filhos. Hoje, ainda é comum que, diante de alguma dificuldade, procurem a esposa ou a mãe para assumir a situação. Já vejo muitos homens pesquisando sobre cuidado com os filhos, mas eles ainda precisam da validação feminina —reflete Eliza.

A psicoterapeuta chama a atenção para a necessidade de as mulheres aceitarem este compartilhamento de responsabilidades. Eliza conta que, em muitos casos que chegam a seu consultório, a mãe se assume como detentora do conhecimento e, ainda que dê espaço para o pai assumir seu papel, falta confiança e sobram expectativas não atendidas quando eles encarregam-se de tarefas básicas.

— Não é culpa da mulher, mas é comum que muitos homens, ao assumirem um relacionamento, ainda tenham na figura da esposa a relação que tinham com a mãe. Eles precisam aprender a se portar como maridos e pais de seus filhos. Falta a eles empoderamento, até por falta de referências anteriores.

 

A Notícia
Legenda: Na casa de Alessandro e Carine, há um grande envolvimento dos dois na criação de Pedro e Júlia
Foto: Maykon Lammerhirt / Agencia RBS

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